Crónicas das Golden Showers Californianas dos anos 70 revisitados, na baía do Sado-Setúbal (1)

Por MARQUESA DO SADO

Olá carissimos. Se não se importarem, o meu bom nome dá-se por «Marquesa do Sado» ali para os lados de Setúbal… A família é tudo o que de mais sagrado tenho na vida. Mas tenho também um passado que me levou a este bem que não quero deixar nunca. Uma Primavera amarela no seio da qual me aqueço.
Nestas minhas crónicas o único insulto que não aceito é que tenham a ousadia de encontrar em mim uma mulher vulgar no pior dos sentidos, ou ainda pior que isso, que serei algo abjecto e execrável como algumas que andam por aí, naquela tentativa de putear a linguagem, aplicada a uma postura mais foleira que uma felação de joelhos sujos. Por isso, qualquer coincidência com alguma frase dessas pobres iscas de bacalhau de tasca mal amanhada, desse júbilo labial que só serve para nos envergonhar, a nós mulheres de aço, é mesmo uma coincidência de merda. Ou melhor, uma merdosa coincidência!
Obviamente que nasci sem fome, bem bonitinha, de cabelo encaracolado, caracois esses que rivalizavam com uma carinha laroca, uns olhos profundos claros, e rodeada de doçura, atenção e alguma maldição. Como poderão de futuro observar nas minhas modestas palavras, tinha de ter estas qualidades, a que juntarei alguns desvios de percurso e alguma ordem infligida, para poder ser a tal Maria Pureza, ou Maria dos Prazeres. Nenhuma esfomeada, nenhuma feia poderia fazer o percurso pedestre assim sem ter nascido com o tal dom. E as que nascem com Dons a mais também iriam fraquejar por outros motivos, precisamente motivos opostos!

Não fui abusada pelas freiras, nem tão pouco pelos padres que me confessavam. Pedi mais tarde ao pai que não me deixasse continuar nas freiras e me deixasse seguir os estudos numa instituição pública. O pai gostava demasiado de mim para me negar esse gosto. O pai derretia-se com o meu olhar. Tive o melhor protector e um santo de um tipo que me deu todo o conforto possível e mesmo o impossível. Da mãe já tive outro tipo de apoio, mas sempre em posição contrária aos meus propósitos, «libertinos» na sua opinião, «redentores e adoráveis» na opinião do pai.
Só me lembro uma única vez de um tipo ter abusado de mim em criança. Foi em plena casa comercial de uma das minhas tias, num dia de feira. Recordo-me com alguma graça, sem muita desgraça, pois o acto foi intentado durante a tarde, em plena luz, no meio de muita gente e confusão, com uma discrição brutal e «filha da puta», como só os homens o conseguem fazer, e ficou no cérebro a memória «massiva» desse momento. Eu deveria ser rapariguinha dos meus 7/ 8 anitos, e na entrada do estabelecimento, virado para a rua, entrava e saía muita gente, muita confusão, e a minha tia e outro familiar estavam dentro, num local que era o de minha infãncia, e por isso mesmo, onde ninguém se preocupava se eu estava ou não por ali, porque o hábito seguro é que estivesse por ali. Ele era alto, de olhos muito claros, na roda dos seus 40’s e um ar de louco predador! Não era feio. A sua radiografia ainda está no meu cérebro. Foi ao fazer-me uma festa: eu era uma menina muito doce e bonita e era sempre muito normal os afectos prontamente demonstrados, os doces e os rebuçados oferecidos eram um dado natural e cultural desse tempo. Ora nesse acto de me fazer uma carícia nos cabelos macios encaracolados, e ao segurar-me numa mão, levanta a cabeça em «forma de submarino», vendo e verificando se era o momento ideal, e rapidamente, mas que a mim me paraceu ‘horas’, passou a minha mãozita no meio das suas pernas e esfregou a mão no seu sexo. Lembro-me de tudo menos de ter sentido qualquer volume que não fosse o pano das calças sujas de construcção civil, que parecia aparentar ser, a tal personagem da minha infãncia. Lembro-me que foi muito desagradável, e desconhecendo o que era «sentir» algo como aquilo, NÃO GOSTEI, CONTUDO, NADA. A pedofilia é uma coisa miserável e qualquer tipo de abuso a menores deveria ser completamente esmagado, controlado, e dizimado com químicos nos tomates do abusador, ou na «pomba» da abusadora!
Foi um facto isolado na minha infância, e nunca contei às freiras nem à tia, nem aos pais. Não me deixou máculas nem mágoas. Nem me afectou a sexualidade e o desejo normal e natural que desenvolvi pelo sexo oposto.
Cresci a ler as leituras na missa de domingo, e a frequentar os ambientes religiosos, a visitar santos e santas com a família, a ler a biblía, a cumprir as orações matinais e nocturnas, a fazer promessas em como seria uma menina exemplar e de que jamais meteria o dedo nas minhas válvulas vaginais que não fosse para as lavar!. A ter regras e a tomar a óstia. A confessar tudo, absolutamente tudo, ou quase tudo…O universo católico e apostólico sempre me rodeou, sempre me protegeu, mas também o contacto com o mundo pagão, a que através de viagens com o pai fui acedendo facilmente, pois a mãe utilizava-me para que eu questionasse os segredos do papá, e por isso saía muito com ele, em trabalho que ele realizava fora, e desse modo, com ele, ou, em alternativa com ele e a mãe, mas saíamos muito.
A ideia de Cristo na Cruz era uma imagem erótica e pura, simultaneamente as duas coisas no meu cérebro, massa cinzenta de rapariga modesta mas de encanto que eu pensava ser discreto. A infãncia não foi violenta, nem sequer com mágoa a mais, mas poderia dizer que alguma vizinhança incomodava a maneira como a mãe me asseava e preparava, provocando a ira de outras menos dotadas. A mãe sabia disso mas insistia em reflectir-se em mim.
Sabia defender-me dos ataques já com alguma malícia e inteligência. Mas sofria. Mas transformava esse sofrimento em vitórias. Eu era mais do que o que os outros e as outras queriam que eu fosse.
Não posso dizer que os meus ícones de jovem mulher não fossem, por conseguinte, belos, românticos, paternalistas, puros, religiosos, mas, no âmago de tanta brancura e doçura, sonho e atenção, a ideia de um protector possante que me abraçasse e me beijasse também começava a ganhar contornos. E muito cedo…
O calor que fazia no Verão fritava-me os sentidos e abria-me alas para os sentimentos. Sonho, medo, desejo, ardor, tremor, risco, temor, eram menus que eu consumia muito.
Ainda hoje não só me serve de referência Baudelaire, Joyce, Espanca, Nietzsche, Jaspers, Sartre, Sade como o maravilhoso filme erótico-porco-pornográfico «DOCES PENETRAÇÔES», em que a bela loura magra, de mamas biblicamente perigosas de irresistíveis (não, não sou lésbica!) despachava 734 tipos numa mega produção de tipos solicitados na rua, a quem a empresa/companhia de filmes decidira desafiar para o Guiness, uma mulher que despachasse 734 tipos recolhidos na rua. Aquele filme marcou-me como uma obra poética, de referência eclesiasticamente divina, numa perfeição de exposição da alma e do corpo humanos, e da beleza e brutalidade da sexualidade, sobretudo para uma mulher católica e bem nascida, bem alimentada, acarinhada e com um pouco de tudo na vida. Impressionava-me o desafio, dava-me um tesão enorme vaginal e mesmo no outro orificio, não o facto de a bela loura poder foder (posso dizer isto que os prezados e-leitores acreditam que posso à mesma criar os meus filhos com perfeita harmonia maternal, não é?) com muitos, mas pelo obscurantismo, a grosseria, o super rodeo grosso e inadmissível, imoral, delicioso, do belo número 7-3-4, setecentos e trinta e quatro, não ser um número certo: não é nem 700, nem 800, nem mil, mas um indecoroso, um desmesurado e vulgar, decadentíssimo, divinamente doentio ‘734’ homens de rua, vulgares, de todas as idades e proveniências (pobres, intelectuais, ricos, tarados, velhos, novos, gordos, magros, o que se possa imaginar de Grotesco recrutados na rua, de indigentes a tarados académicos com máscaras e sem máscaras).
Essa majestosa atitude de desafio à saúde pública, esse deboche no desbroche total, essa quadra natalícia sensual eterna, esse quadro de Wolfgang Kayser, esse Pantagruel socrático apocalíptico, essa cocaína-rainha do prazer, nesses anos em que o prazer tinha somente custos morais, marcou-me de tal maneira que eu passei a saber que o poder das freiras sobre o meu corpo e mente não iriam muito longe, no que concerne o controle emocional e juridico, e muito menos nos limites fronteiriços geográficos de liberdade pessoal.
Agora o cristianismo e o belo berço tinham de competir com a volúpia. Tinha a certeza que iria ser uma bela mãe, e senhora com família, mas havia uma outra energia-tesão a que teria de dar vasão. Tinha de ser empresária e tinha de ter alguma liberdade, algum tempo, sobretudo para que essa potência e força pudessem ser exercidas longe da família e dos bons costumes, mas que pudesse ser mais do que uma ridícula e ultrapassada Kathleen Turner de dupla personalidade de filmes USA-trademark «made in the eighties» O meu tesão vaginal era mais sagrado do que o plástico de um vulgar vibrador.

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