"Que parva que sou" de Deolinda, ou como nascem os hinos sociais

Acredito que um dia ainda se vai fazer história sobre como se fazem os hinos sociais. Não aqueles que dão colorido a uma qualquer nação, sem dúvida significativos mas que perdem importância perante aquelas canções que, num dado momento, num certo contexto, são sentidas por toda uma comunidade. Não por todos, claro, porque há, em todo o lado, uns palermas que fazem gala em não querer gostar do que os outros gostam.

deolinda_coliseus

Voltemos ao hino social. Aquele que é nosso, que fala para nós. Mais: somos nós que estamos ali retratados, um pedaço da nossa vida que ganhou relevância naquele instante. São assim os hinos. Há aqueles que o são por fruto do acaso. Paulo de Carvalho ganhou um lugar na história de Portugal porque interpretou a canção que serviu de senha para a revolução de 1974. Outros resultam do momento e ajudam a transformar-lo, como alguns dos temas dos Beatles, autores de diversos hinos ao longo da agitada década de 60 do século passado. Há uns dois anos houve quem visse em Movimento Perpétuo Associativo (MPA), dos Deolinda, o tema adequado para ilustrar o verdadeiro espírito português. O hino nacional a sério.

Agora, um outro sentimento luso, da geração nem – nem (nem trabalha, nem estuda), surge retratado, desta vez propositadamente, na música do quarteto. Há alguns dias, no primeiro dos concertos nos coliseus, do Porto e Lisboa, a banda apresentou um tema inédito. “Parva que sou” surgiu no ‘encore’. Mesmo sem que o povo presente conhecesse a música e a letra – afinal era a estreia – fez sucesso imediato e foi dos mais aplaudidos da noite, com muitos dos presentes a identificarem-se com a letra. Surpreendidos com a reacção, a banda garantiu para estes dias a edição com qualidade da canção. Sinal dos tempos.

Mas, desta vez, houve algo de diferente. Eu estava lá. Se calhar vi fazer-se história.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    Tudo certo. Menos as pessoas serem “palermas” por não gostarem do nós gostamos :-).

    • As pessoas não são palermas por não gostarem do que nós gostamos. Mas são palermas se fizerem gala em não gostar duma coisa só porque os outros gostam. É isto que está escrito no post. E eu acrescento: além de palermas, snobs.

      • Artur says:

        Mas como é que avalia se a pessoa diz que não gosta porque de facto não
        gosta mesmo e não porque é palerma e snob?

        • Pelos visto parece que existe algures um musicalmente-correcto…

        • Não se avalia, Artur. Quando não se gosta não se gosta, ponto. Mas não se faz gala desse não gostar.
          Refiro-me às pessoas que ‘gostavam’ de Deolinda e, por causa do sucesso, ‘deixaram’ de gostar. Mas a frase aplica-se igualmente àqueles que não gostavam e, por razões políticas (atendendo à letra da canção), passaram a gostar.

        • A maior parte das vezes não se pode fazer essa avaliação. Nestes casos, tem que se dar o benefício da dúvida: se alguém diz que gosta ou não gosta, é porque de facto gosta ou não gosta. Mas também há casos em que as dúvidas são, como direi, residuais.

          Em todo o caso o que está em causa não é o gostar ou não gostar, mas mas a avaliação dos possíveis efeitos tendo em conta um determinado contexto. Eu posso gostar muito duma coisa e achá-la inconsequente (inócua, como se escreve no post); ou posso não gostar nada e ver nelas o possível início duma concatenação de causas e efeitos que conduzam a um resultado momentoso. É nos sistemas em equilíbrio instável que entra em cena a proverbial borboleta amazónica cujo bater de asas condeuz, de efeito em efeito, ao igualmente proverbial tufão na China.

          E como é difícil imaginar equilíbrio mais instável do que o do sistema politico-económico actualmente em vigor no mundo desenvolvido, é inevitável que haja no mundo muita, mas muita gente à procura de rochedos enormes que possam ser derrubados com o movimento de um só dedo.

          Se não forem os Deolinda, em Portugal, será qualquer pessoa ou grupo em qualquer lugar do mundo. Um “hacker” adolescente na Tasmânia que imobilize um porta-aviões americano, uma cantigueta inócua que mostre aos membros de todo um grupo social que afinal não estão sozinhos, um sound-byte inventado, sem qualquer intenção de mudar o mundo, por um comediante “stand up”, um vídeo no YouTube idêntico a tantos outros mas que por qualquer razão cai no goto de milhões…

          Muitas coisas serão planeadas, muitas outras acontecerão por acaso; mas todas elas contribuirão para que cada vez mais gente descubra que afinal não está desarmada.

      • É exactamente isso, José.

  2. Mas a canção que serviu de senha para o 25 de Abril não foi cantada por Zeca Afonso?

  3. Carlos Alberto,
    Para mim não há um musicalmente correcto. Nem isso está escrito no texto.

  4. Pisca says:

    E que tal ler este texto por exemplo:

    http://www.a23online.com/2011/02/07/a-hipocrisia-dos-cotas-que-se-comovem-com-a-musica-dos-deolinda/

    Achei-o num posto do 5 Dias

  5. Miguel Dias says:

    Viste, sim senhor. Ganda malha Freitas!

  6. Paulinho says:

    Sou brasileiro e professor de filosofia na Amazônia. Estive recentemente em Portugal e confesso, desde então, tornei-me um incondicional admirador desse grande país. Sei que os ventos não sopram, por hora, favoravelmente na terra do fado. Mas, é preciso acreditar que essa maré não é perenal, pois, Portugal está acima (e bem acima, creiam) da crise que o fustiga substantivamente. Entretanto, faz-se mister que seus filhos tomem atitudes para mudar isso. E creio, os Deolindas estão tendo esse discernimento. Algumas de suas músicas (há muito material bom no que produzem) fazem parte de meus recursos pedagógicos em sala de aula. Eu batalho (como muitos brasileiros) por transformar a Amazônia num lugar mais humano e mais digno para o seu povo e os bem-vindos visitantes viverem. Luto por uma Amazônia desprovida do exôtismo (e mesmo da pseudo condição de santuário ecológico do planeta) que os gringos querem lhe imputar e fazer com que isso seja mais do que suficiente para deixá-la intocada, a custa da pobreza e da miséria do seu povo. Podia fazer isso, usando um artista brasileiro muito bom e articulado com as demandas sociais do Brasil: Chico Buarque. Porém, descobri nessa maravilhosa terra um quarteto musical muito bom: Deolinda. Os escuto sempre… reflito sobre suas composições e recomendo as pessoas de bom senso, aqui em Belém do Pará. Uso os Deolindas porque são bons a beça, são vanguardistas (se é que ainda posso usar esse termo) e, acima de tudo, revelam maturidade musical. Aos palermas de que fala José Freitas (e eu concordo com ele), as batatas, toda a antipatia do mundo, que feneçam sufocados na sua própria iracúndia. Aos bravos portugueses, meus votos de bravura, e que não se calem nunca diante da palermice desses snob’s sanguessugas que querem a derrocada de Portugal, mas que não vão conseguir nunca. Vida eterna a Portugal e a inteligência irreverente dos Deolindas.
    Paulinho – Pará-Amazônia-Brasil

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