Ana Jorge, a ministra que desistiu de ser médica

Ana Jorge terá sido médica, em tempos. Agora, ministra, limita-se a macaquear a linguagem insensível de uma certa raça de gestores para quem os números são tudo, as pessoas menos que nada. Ora, mesmo não sendo completamente aceitável que um gestor seja um autómato feito de desumanidade, é compreensível que seja contaminado pela linguagem glacial das folhas de cálculo. De alguém que exerceu o ofício de Hipócrates esperar-se-ia mais alguma tendência para o humanismo, mas Ana Jorge já não é médica, é só mais uma figurante do circo socrático, sendo certo que não está sozinha no Ministério da Saúde, instituição muito frequentada por ex-médicos.

Assim, ouvir a senhora dizer que os portugueses recorrem a “demasiadas consultas médicas” é mais uma prova de insensibilidade, até porque, que se saiba, não há estudos que comprovem essa afirmação ou a contrária ou outra qualquer que fique a meio caminho. Deixar escapar esta afirmação é apenas insultar os portugueses. Nada de novo.

Comments


  1. Discordo em absoluto com o que é defendido pelo PS.

    No entanto, esta foi a única verdade que esta ministra disse desde que está a frente do ministério. Os portugueses recorrem a consultas da especialidade em exagero, às urgências hospitalares em exagero, etc. Não estamos educados a recorrer primeiro ao médico de família, ou se ele não existe, a uma consulta de atendimento permanente que existe nos CSP. Temos de confiar nos médicos e enfermeiros que estão junto da comunidade e esperar que este nos encaminhem para outras áreas de especialidade (só em caso de necessidade).

  2. Rodrigo Costa says:

    … Penso que grande parte das pessoas vive num mundo que estará longe, muito longe, da realidade. E viverá, porque, possivelmente, nunca teve que recorrer a um médico de família, essa espécia de esmola dada a quem não pode pagar mais. O “ter que confiar”, o emprego do verbo diz tudo, porque quererá dizer que não há alternativa.

    Quanto ao número exagerado de consultas, talvez a senhora ainda não tenha percebido que, dado o estado em que o País de encontra, o número das consultas peca por defeito, porque, em termos psicológicos, não falta razão para a hipocondria; e, como facilmente se calculará, nem todas as pessoas têm conhecimento que lhes permita distinguir os sintomas do que pode ou não pode justificar a ida ao médico —estou em crer que a Ministra, à mínima constipação, será cuidadosamente observada, tendo os médicos à mão e, se necessário, motociclistas da PSP, à frente da ambulância onde, por hipótese, a senhora tivesse necessidade de ser transportada para o hospital.

    Eu diria que as pessoas vão menos vezes ao médico do que os políticos vão à caça de privilégios.

    • eazb says:

      Confio no policia para defender a ordem publica, confio nos juizes para ajuizar bem, confio no professor para ensinar, confio nos arquitectos (não contrato 5 ou 6 para ver se a minha casa tem algum defeito), etc.
      Cada profissional de uma área específica, tem um capital de conhecimento que eu não disponho, logo é ele quem sabe e quem pode decidir o melhor para mim. Se as coisas correm mal, tenho que recorrer a quem de direito (Ordens Profissionais,IGAS, IGS etc).
      Se tenho um problema de saúde devo de recorrer à primeira linha de profissionais disponiveis, médicos e enfermeiros dos cuidados de saúde primários.

      É isto que os cidadãos espanhóis, franceses, italianos, ingleses, suecos, noruegueses, fazem!!!
      E o que fazem os portugueses? Automedicam-se, deslocam-se a 3 ou 4 especialistas da mesma área da especialidade ,porque não confiam no primeiro (apesar de não terem provas de incompetência), deslocam-se às urgências de um hospital central por terem uma dor de dentes ou um pingo no nariz, em vez de irem ao atendimento permanente dos CSP. O português só fica contente quando o médico lhe prescreve mais de 3 medicamentos, mesmo que não precise deles. A seguir queixa-se que não tem dinheiro para os comprar.

      Educação Cívica, precisa-se!

      • António Fernando Nabais says:

        Caro eazb

        Não ponho em causa aquilo que afirma, até porque conheço pessoalmente casos que confirmam a patologia, por assim dizer, a que se refere. O que não é, para mim, admissível, é saber que essa questão é referida por Ana Jorge apenas do ponto de vista economicista, o que leva a que sejam incluídos no mesmo pacote justos e pecadores. É, com certeza, uma questão de educação cívica e não conseguirá resolver-se com tiradas simplistas, sendo que ser ministro e ser simplista é, para mim, um pecado. Este é um país que precisa de ser educado, mas essa não tem sido a preocupação de nenhum governo.

      • Rodrigo Costa says:

        Desculpe, lá, easb, mas a que propósito é que os espanhóis, franceses, italianos, ingleses, suecos, noruegueses entram nisto?! O senhor acha que Portugal se pode comparar com alguma coisa a que se possa chamar país civilizado? O Senhor acha que, nesses países, os médicos e demais pessoal ligado à saúde —e poderíamos falar de outras áreas— têm espaço para o regabofe?… Acha que cada um entra à hora que quer, se aparecer; faz o que bem entende; desviando, muitas vezes, em função da urgência da intervenção —que, às vezes, nem é urgente nem é necessária, dependendo do estofo económico do paciente— os desgraçados que, pagam os impostos, para clínicas ou hospitais onde terão de pagar o que estaria pago?…

        De que país é que o senhor está a falar? De onde é que o senhor espreita a realidade? Como é que o Senhor quer que essa cambada de bestas passem a vida a atarantar as pessoas com os perigos disto e daquilo; que, à primeira sensação estranha, se dirijam imediatamente ao médico… e, depois, surjam com este churrilho, lamentando a frequência com que as pessoas frequentam os hospitais e os centros de saúde?

        É claro que as clínicas e os hospitais privados não se queixam; poderão, quando muito, queixar-se que a frequência é escassa, e que, portanto, não é fácil aumentar os lucros.

        Devo dizer-lhe que, quem habitar, em permanência, o último andar, não está habilitado para falar sobre o que se passa no rés-do-chão. Este é, seguramente, o caso da Ministra, com ar de quem tem vivido numa redoma, crescendo, principescamente, no seio de alguma família que lhe sustentou as lucubrações da ingenuidade.

        Será necessário lembrar-lhe o negócio das vacinas, com aquele paspalho do ministro a vir vacinar-se para a televisão, estimulando os patêgos a participar na colecta?
        Ouviu-os queixarem-se de que eram muitos atrás das vacinas? Claro que não!

        Caro senhor, a realidade portuguesa é o que é. E sobre a confiança na opinião de um único médico, não esqueça que são os próprios médicos quem recomenda que o paciente, em função da seriedade do caso, ouça, não mais uma, mas mais duas ou três… porque, qualquer pessoa responsável, sabe que não sabe tudo, e há-de querer agir de consciência tranquila. É assim que procedem as pessoas sérias.

        Já agora, devo informá-lo que há, em Portugal, médicos —médicos— que, dada a gravidade de alguns problemas, aconselham a que as pessoas procurem a solução no exterior —tenho um amigo que, com problemas da próstata, foi aconselhado a ir a Barcelona, onde acabou por resolver a situação.

        Mais: há médicos que, quando pacientes, vão lá fora. Por que será? Farão parte dos que se auto-medicam e que não confiam na opinião de um só médico, que necessitam de dois ou três?… Será por falta de formação, por menoridade mental… ou será porque conhecem do que a casa gasta?

        Quanto aos cidados primários, eu próprio já insultei uns obtusos do INEM. Havia uma senhora a desfazer-se em sangue, na Rua de Morgado Mateus, no Porto, ao lado da Biblioteca Municipal —que é um edifício enorme, com muitas janelas, de arquitectura inconfundível, junto ao Jardim de S. Lázaro, no centro do Porto; liguei para o serviço, digo o que se está a passar, deixo a indicação, com pormenor, do local… e fico à espera.

        O tempo passa, e nada. A senhora numa aflição e eu sem saber o que lhe fazer. Volto a ligar para o INEM, atende-me a mesma pessoa, uma mulher, que volta a perguntar-me onde fica a rua… Claro que tive que a mandar para a granda —com A— puta que a pariu, porque há, no mínimo, uma coisa chamada GPS: ou, se não tinha percebido, da primeira vez, tinha insistido na pergunta, até ser capaz de perceber.

        Se eu não voltasse a telefonar, ficaria ali, indefinidamente, à espera, à mercê de uma analfabeta, uma pessoa sem educação cívica, que ocupa uma função que exige sentido de responsabilidade.

        Este é o País em que vivo, aquele de que, conscientemente, posso falar, porque o conheço de baixo para cima e ao contrário.

        Termino dizendo que a senhora Ministra, ou outros similares, terão à cabeceira, quando for necessário, não um nem dois, mas uma junta de médicos, trocando, entre si, opiniões, exactamente por não querem falhar; porque não é conveniente falhar.

        Admito que não seja aqui que o senhor viva.

  3. Carlos says:

    É por esta e por outras que o médicos (e as médicas…) não devem exercer outras funções. em especial funções governamentais (do País ou das grandes unidades de saúde. Os médicos que o quisessem fazer (ser gestores ou membros do governo), deveriam renunciar à sua profissão, ou, ao menos, não invocaram o santo nome de médico ou de médica em vão.