As crianças, vêem, ouvem e calam, especialmente em dias como estes, em que tudo está a mudar e nós devemos seguir essas pegadas para ultrapassar a miséria.
A criança fala, mas não entende do mundo dos mais velhos, menos ainda de finanças, acordos partidários e convénios políticos e sindicais.
1. A criança
Foi a frase de uma das pessoas que trabalha comigo, durante um Seminário de Etnopsicologia da Infância, a decorrer durante o ano académico. De imediato várias ideias saltaram na minha cabeça. A primeira coisa que me ocorreu foi perguntar: o que é uma criança? Conceito definido por teorias de várias escolas que percorrem o mercado da erudição académica, já comentadas no Capítulo anterior. No entanto, a criança é uma entidade heterogénea de idades diferentes: há a cronologia que acompanha o transcorrer da sua vida, há capacidades definidas conforme as possibilidades de entendimento do real há o contexto que rodeia os mais novos e os adultos que definem o conceito.
A ideia é analisada no Curso de Etnhopsyquiatrie e de Etnopsicologie francesa, texto que apoia o desenvolvimento da minha hipótese sobre a etnopsicologia da infância[1]: “L’ethnopsychiatrie est une méthode d’investigation qui s’efforce de comprendre la dimension ethnique des troubles mentaux et celle, psychiatrique, de la culture. La classification des maladies est différente d’une culture à l’autre. Le “Shaman” a un rôle de “psychanalyste autochtone” faisant appel à des mythes sociaux. C’est quelqu’un de déviant, catalyseur de la communication vers le savoir sacré, interprète du divin auprès du commun des mortels. L’ethnopsychiatrie se donne pour but de donner un sens culturel à la folie.
La culture est l’ensemble des matériaux dans lesquels nous (individu et société) puisons pour élaborer nos expériences. La nature c’est l’expérience, et la culture c’est l’élaboration de cette expérience. Cette élaboration se fait selon une organisation, une structure, un ensemble de règles et de signifiants propres à chaque ethnie. Ces règles et ces signifiants sont à la fois relatifs et universels (Une ethnie est un groupe qui partage les mêmes signifiants culturels). Une culture donnée imprègne les individus, et ces derniers transforment leur culture. L’individu doit intérioriser la culture du groupe dans lequel il est né, et s’y tailler une place. Le groupe quant à lui, doit l’intégrer en lui donnant l’exercice d’un rôle, d’une fonction, et transmettre sa culture par l’éducation.
L’ethnopsychiatrie peut aussi se définir comme étant l’étude du rapport entre: Un comportement psycho-pathologique, des services thérapeutiques et les cultures d’origine du patient et de son thérapeute. Une telle analyse doit alors reposer sur une série de postulats concernant la culture et la personnalité. Ces choix de départ guideront la façon dont on définira le champ des questions et des problèmes[2]. Por outras palavras, as formas de entendimento do real acabam por ser diferente entre uma cultura e outra, donde natureza é experiência e cultura elaboração dessa experiência. Esta ideia que queria salientar, derivada de três autores para nós importantes. São eles: Alfred Kroeber, Clyde Kluckhohn e Claude Lévi-Strauss, especialmente no seu texto La pensée sauvage[3]. Estes três autores, de forma diferenciada, dão uma pista para entendermos que todo grupo social tem uma forma diferente de classificar os seus e de hierarquizar as formas de pensamento. Lévi – Strauss vai longe na sua forma etnológica de estudar a realidade não para entrar no “pensamento do selvagem”, mas nas formas de pensar universais. Para definir, para nós, o pensamento em estado selvagem antes de entrar ou em contactos com outras culturas ou enquanto se mantém a forma de definir o que citei ao começo: “definir as formas étnicas dos problemas mentais”. Note-se que não falo de mente “doente”, mas da dimensão étnica, de entender como a cultura contextualiza o pensamento das pessoas de um grupo social. Pelo que, o autor fala de mito, clã, a lógica destas classificações, definidas como correspondentes ao comportamento das categorias, ou formas de classificar as formas de interacção social conforme as actividades desempenhadas pelo indivíduo dentro da sua etnia e grupo social e clãnico. Este entendimento desenvolve as ideias do particular e do universal dentro de uma redescoberta do tempo, que une o geral ao particular, o abstracto ao concreto. Pelo que na citação referida no parágrafo 2, a cultura é definida como o conjunto dos materiais dentro dos quais nós – indivíduos e sociedade, somos capazes de elaborar as nossas experiências. O indivíduo interioriza a cultura do grupo para se organizar no espaço que lhe é conferido – conforme as suas capacidades e o espaço social dentro do qual nasceu – pelo próprio grupo que impinge a cultura através do sistema educativo[4].
Por outras palavras, a minha intenção com a citação referida e os seus comentários, é ser capaz de entender que temos duas alternativas: ou analisamos comportamentos “modelares de doença” individual por afastamento do agir cultural; ou analisamos a cultura para entender o seu processo estrutural como forma de agir sobre o indivíduo e o seu grupo, no presente e através do tempo histórico. O que me leva a voltar a citar a última parte do 2º parágrafo do texto supracitado: “Estas regras e o seu significado são, ao mesmo tempo, relativas e universais…Uma cultura determinada impregna os indivíduos, enquanto estes a transformam”[5].O indivíduo precisa interiorizar a cultura dentro da qual nasce e organizar um espaço social para ele. Esta frase, para mim, é fundamental para entendermos o meu objecto de pesquisa, que definiria apenas assim: qual a base da dinâmica do comportamento da criança? Pergunta de difícil resposta, não apenas por causa das, já referidas, diferentes culturas impingidas, bem como pelas diferentes escolas que recentemente têm definido, que a criança é um ser traumatizado, como disse ao citar Boris Cyrulnik no encerramento do Capítulo anterior[6].
Bem podia dizer que uma criança é um ser inocente, sem responsabilidade, como define o Código de Direito Civil citado amtesr, e o de Direito Canónico[7]. Este Código, com valor legal em Portugal, não define menor, mas por oposição, ao definir maior, ficamos a saber que um menor não tem pleno exercício dos seus direitos: não pode comprar e vender, casar, procriar, viver de forma autónoma, etc.
É assim que entramos pelas problemáticas das crianças. Os Códigos são espartanos na sua definição. A pessoa que falava no Seminário parece ter razão: a criança é um subentendido. A frase é minha e com amabilidade foi usada, devidamente citada, na exposição referida. Não consigo não repetir: a criança é um subentendido, um subordinado como denominei nas Actas do II Colóquio sobre a Investigação e Ensino das Antropologia em Portugal[8]. A minha teima tem sido sempre a ignorância que o adulto atribui à criança, mas, ao mesmo tempo, como esta criança sabe defender–se da ignorância que o adulto lhe oferece. Ignorância que não é apenas o facto de ser uma entidade despercebida, o que vive dentro de regras e horários que afastam as duas gerações. Se retorno à minha comprida citação, posso apreciar que a cultura do saber universal entrega aos mais novos um papel sem representação dentro do grupo: eis porque os autores citados dizem que se deve “talhar”, “construir”, um lugar dentro da sua cultura, porque um dia a cultura lhe dará o seu lugar social conforme a aprendizagem que tenha feito do saber, ou, como diz o começo do parágrafo 2, o indivíduo elabora a sua experiência de entre os materiais fornecidos pela cultura. É o caso que tenho observado entre as crianças Picunche da Villa de Pencahue, Província de Tralca, Chile e analisado em 1998 e 2000[9]. Toda criança tem como obrigação trabalhar a terra, tomar conta dos animais, ensinar aos mais novos a usar a tecnologia para não se ferirem, satisfazer a libido dos adultos da casa ou visitantes sem se queixar – política que faz parte do comportamento ritual de crescimento dos pequenos e das pequenas. Normalmente, pequenas reservadas para o pai, enquanto os “niños”, para os irmãos mais velhos, os irmãos dos pais, etc. Comportamento a ser reproduzido, como fui capaz de observar ao longo de mais de 40 anos, entre grupos diferentes de Picunche de sítios geográficos distantes do Chile. Criança que não tem adulto, é criança mal criada, uma vergonha social, desprezada, não querida, que acaba por procurar um homem na casa dos Homens que para este propósito, existem. Ou, durante certos anos da minha pesquisa, na Casa da Igreja Romana, com o Padre que acabou por fugir com um deles. Como relata Maurice Godelier no seu texto sobre La Production des Grands Hommes na Melanésia, em 1981[10]. Formas rituais de unir em relações reprodutivas os seres humanos no futuro, na idade madura. Esta forma de relação cria uma associação entre quem bebe esperma do outro ou recebe esperma por fellatio e as relações reprodutivas com a mulher mais próxima de quem dá e virá a ser a mãe dos seus filhos – irmã, filha de irmão, parente dentro do grupo clãnico no caso dos Baruya da Nova Guiné ou parente não consanguíneo directo em relação de ascendência – descendência, como entre os Picunche, Huilliche, Aimara, outros.
No entanto, esta forma de entender as relações deve passar antes pelas definições de idade e os conceitos que as pessoas têm ou lhe são atribuídas pelo seu grupo. Se uma introdução à análise das formas culturais de organizar as emoções já significa uma classificação, é preciso entender a classificação dos adultos perante as crianças, ou das crianças. Pensa-se que os mais novos não entendem, pode dizer-se tudo o que se quiser em frente deles por, ou já saberem tudo, ou ficarem com o seu “saber proscrito”, como diz Alice Miller[11]. Na sua obra, Miller analisa o saber dos mais novos em diferentes idades, como tinham Feito Freud, Klein, Bion, entre outros e vamos ver mais à frente. No seu livro de 1977[12], a autora – polaca de nascimento, refugiada na Suíça, terapeuta da Infância o Pedopsicóloga estuda a infelicidade da vida infantil dos pais de crianças que ela analisa mais tarde. Estuda especialmente o caso das mães a sofrerem todo o tipo de violência doméstica, como a vida a três do pai – a mãe da criança, a sua amiga por turnos e os comentários que deve ouvir por parte da mulher que se sente abandonado e mora, no entanto, na denominada casa familiar. O começo do texto é dramático na nossa cultura: a mãe e o pai não estão ajudar a “talhar” o lugar social na cultura do mais novo, até o título do primeiro Capítulo define uma relação invertida: é o filho bem dotado que deve ouvir a mãe nos seus prantos, angústias e depressões. Ora, esses três sentimentos, como Klein diz no seu texto Inveja e Gratidão[13], fazem parte da defesa dos pequenos perante esse falar descontrolado de um adulto cuja epistemologia não entende, ou não são mutuamente entendidas. O título de Miller é El drama del niño dotado y como nos hicimos terapeutas, para estudar em 50 páginas a vida de uma infância reprimida que a criança deve fazer falando de tudo, excepto da verdade e viver de ilusões do que não existe e não é: esse lar calmo, sereno, estudado, sabido, fiel. É o que, ao longo do texto, denomina ilusões de infância, a danificar a vida adulta. Como aconteceu com esses pais, rebentos de pais desleais, dotados com a capacidade de ouvir, para passar a ser o próximo mais novo a ouvir. Determinados pela história dos pais com os seus avós, a infância foge da realidade e esconde a falta de amor na solidão e no abandono infantil, na leitura, no encerramento nos seus aposentos, que passam a ser dele, com a grande proibição de aí entrar todo e qualquer maior que traga as suas tristezas ante uma mente capaz de entender o mundo, excluindo a sua família. Sentimentos materializados em actividades que fazem dele uma criança dotada. “La represión del sufrimiento infantil no solo determina la vida del individuo, sino también los tabúes de la sociedad”[14]. A solidão e o abandono infantil são motivos de profundo transtorno das pessoas dotadas: nascem da ausência do prazer e do carinho na infância. Alice Miller apenas estudara vida de Sakespeare, Joan Crawford, Charles Chaplin, Mozart, Beethoven e Einstein, para sabermos a base da sua genialidade. Ou Sartre, Bouvoir, Bourdieu, Godelier…a falta de infâncias douradas….
Típico do caso de Maurice Godelier. A segunda parte do título desta sua primeira grande obra define a ilusão do amor e a ilusão de ser pai…
Mas, e a criança, como Freud, Klein, Dolto, analisam? Não há razão da parte delas para essa infelicidade? Para a infelicidade que não conhecemos, que não sabemos por falta de observação e de aprendizagem especializada? Mas, que elas no seu agir, palavras e comportamentos individuais e em grupo, nos ensinam quase sem palavras? Porque não há apenas o silêncio do saber proscrito e a infelicidade adulta do pequeno dotado. Há também uma realidade que nasce da própria realidade, enquanto a criança, cuja idade muda e situação social é “retalhada”, o ter uma percepção do real, que Wilfred Bion denominaria entender que há um infinito ao qual pertencemos, como seres finitos que somos e que essa finitude deve entender a relação para não entrar na omnipotência que define parte psicótica do nosso ser[15]. Essa criança passa por diferentes estádios enquanto repara que a base da sua vida – a alimentação –, vem de um corpo estranho[16]. Estas idades podem-se apreciar na seguinte tábua:
| cours de psychologie | |
| GrossesseNaissancePetite enfanceLatenceAdolescence | Age adulte Couple Travail Vieillesse Agonie |
Hoje em dia sabemos que a relação adulta/criança começa bem antes do nascimento da mesma, como tinha já indicado na loção anterior ao comentar textos de Eduardo Sá. O facto de recentemente se ter descoberto do papel que joga o líquido amniótico entre o corpo da mãe e o mundo exterior – um ouvido que amplifica o que acontece fora do ventre materno, faz com que os sons passem a ser naturais, costumeiros, ou desagradáveis e pouco simpáticos. Ou se ouve Mozart e se fica habituado à melodia calmante, ou podem ouvir-se debates e mas palavras. Relações simpáticas ou antipáticas, estudadas pelos nossos analistas e a sua influência no futuro adulto. Não esqueço o bebé que chorava ao ser amamentado: faltava-lhe a viola com Granados a ser tocado, enquanto a mãe brincava com a viola no colo[17]. A análise da função do líquido amniótico, é já antiga, faz mais de 50 anos que médicos, pediatras e terapeutas, procuram uma relação com a capacidade de autonomia da criança ou com a capacidade de comandar os outros, que vários autores analisam, a ditadura da Infância. Anos de estudo e o saber vai-se acumulando, até chegarmos hoje em dia à procura da genética do genoma humano. “O córtex é soberano e, ao mesmo tempo, deixa-se suplantar docilmente pelo reptiliano. O carácter não se sente ameaçado e por isso cede, derrete-se docemente, permitindo que o cerne fique exposto, pulsante, vibrante. “É a necessidade “libertar-se” da actividade mental, com o intuito de reencontrar a unidade psicossomática”, como diz Winnicott”[18].
2. Primeira etapa: a pré-existência.
Se a criança entende ou não, é a pergunta para o começo da vida da mesma, definida desde a sua aparente pré-existência. Como já tenho dito e gostava de repetir, a criança é mais um facto cultural de como pequenos e adultos entendem aos cronologicamente mais novos do que um processo da realidade social. A questão é simples: o que é esse entender ou não de se ser criança e o que é que é possível falar em frente do, cronologicamente, mais novo? Os mais novos caracterizam-se por chorarem, às vezes sem motivo entendível. O pranto dos pequenos pode ser resultado de ouvir uma voz autoritária que faz correr, pensar, sentir, desesperar, se não conhecemos o motivo e a pessoa. Esse ser novo chora e ri desde o seu primeiro dia de existência. Os analistas de pequenos têm defendido que o bebé, como ser humano que sente e é emotivo, começa na gestação e, antes ainda, no imaginário dos pais que pensam produzir um ser humano. Defensor desta ideia é o referido Winnicott, bem como o conhecido Cyrulnik. É a ilusão dos adultos que leva a este tipo de pensamentos. “Como é que será o bebé, semelhante a quem, a cor dos olhos? E outras questões que são colocadas pelos progenitores. Não resisto sintetizar o que a escola francesa organicista de psicologia tem acumulado em saber no assunto do imaginário e da gestação de um outro ser humano e o papel de destaque atribuído aos progenitores durante a gravidez, especialmente o papel cultural alimentar e emotivo da mãe. A história analisada por eles, é assim:
“L’histoire de l’enfant commence dans l’imaginaire des parents. On l’imagine grand, beau, fort et plus tard riche. A partir du moment où on est deux (couple), on est déjà trois, même si l’enfant n’est pas encore pensé consciemment. Il y a toujours dans le désir d’avoir un enfant un besoin personnel à assouvir. Durant les 9 mois de grossesse, les parents font le deuil de l’enfant imaginaire. On divise les 9 mois en 3 périodes :
1ère période : Incorporation. Il faut acquérir l’identité maternelle, l’assimiler d’après la propre histoire de la femme : Quand elle était nourrisson, d’après ses rapports avec sa propre mère, son propre père, sa conception de l’enfant. Cela provoque chez la femme une régression. Elle se voit petite-fille, elle rêve beaucoup de son enfance (souvenirs). Elle pourra aborder sa grossesse soit comme un événement heureux, valorisant, soit avec l’angoisse due à la déformation corporelle, à la fatigue. L’ambivalence des sentiments de refus et d’acceptation pourra entraîner des vomissements, des malaises, des dégoûts…de l’instabilité. Les modifications hormonales toucheront l’humeur, la sexualité… La femme s’installe dans son nouveau statut, non sans heurts.
2ème période : L’enfant est accepté, il bouge, se distingue de la mère. C’est une période sereine. La femme se suffit à elle-même, son corps s’épanouit. Elle ressent une grande sensibilité au monde extérieur. Elle a retrouvé son dynamisme et éprouve beaucoup de bonheur à fabriquer son fœtus. (Notons qu’à ce niveau là, certaines femmes ressentiront de l’angoisse à l’idée de porter un être vivant, étranger à elles et vécu comme un parasite). La femme commence à concevoir son enfant comme différent d’elle. Le père acquiert son identité de père. Il aide psychologiquement la mère à porter l’enfant.
3ème période : Travail de séparation. Les parents confrontent l’enfant imaginaire à l’enfant réel. Un processus de deuil commence. L’enfant existe. Le processus de deuil doit être achevé à l’accouchement. L’enfant naîtra réel, autonome et différent. La femme pense à son accouchement, craint les douleurs, le risque de l’enfant mort-né, ou anormal.
L’enfant imaginaire est là pour combler un manque chez les parents. Après la naissance, l’enfant devient d’un coup réel. Cela n’est pas toujours accepté par les parents. Le deuil est donc là nécessaire.
Cas de malformation à la naissance : Ce qui est important n’est pas qu’un enfant soit incomplet mentalement ou physiquement, mais la façon dont les parents vivent cette incomplétude. Ils pourront y voir une punition, renforçant ainsi la tare chez l’enfant, le confirmant dans son état d’infériorité. Il pourra aussi y avoir de la culpabilisation vis à vis des grands-parents, qui eux ont bien réussi leur travail. Le role maternal será alors plus difficile à acquérir.[19]”
Esta extensa citação da Escola da Etnopsicologia francesa na que trabalhamos juntos com Georges Devereux, na Maison de Sciences de l´homme, comenta-se por si só., apesar de tanto autor me ter obrigado a entregar estes elementos para saber e lembrar o argumento da procriação e criação de pequenos e dar assim bases analíticas aos leitores. É preciso lembrar apenas três pontos: o primeiro, é que esta é uma, citação do texto da Associação Géza Róheim[20], que define a fundação da Etnopsicologia – atribuída também ao Húngaro Róheim, mas que a História entrega e atribui ao alemão Emil Kraepelin (5 de Fevereiro de 1856 – 7 de Outubro de 1926), por causa dos seus estudos de método comparado entre europeus de diversos grupos sociais, e os nativos de Java com os artefactos da sua cultura reunidos no Museu que orientava em Hamburgo, e cujas viagens à Índia tiveram por objectivo comparar os conceitos fundados sobre Esquizofrenia e Mania Depressiva, com doenças dos nativos de Java no asilo[21] gerido pelos holandeses. Os seus primeiros textos contextualizam culturas e delimitam a influência que as formas de comportamento normativo social exercem sobre as, nesse tempo, denominadas demências: a forma cultural ensina que não há alcoolismo, mas sim epilepsia, causada pela traição da mulher amada, ou ver o sangue à morte de uma pessoa querida, ou, ainda, ver derramar sangue dos seus consanguíneos ou o facto de entidades míticas denominadas l’amok e le latah, entidades culturais legendárias a agir entre o povo, facto perante o qual se reage, como descreve Gilmore Ellis no The Journal of Mental Science. Doenças que são comportamentos, estudados e descritas por Kraepelin e que Gilmore Ellis analisa na referida revistam: “A ideia que insanidade é rara entre os povos primitivos e que ela tende a aumentar em proporção ao processo civilizatório surgiu pela primeira vez no século XIX. Psiquiatras importantes daquela época defenderam a ideia que existiria uma íntima relação entre civilização e doença mental. A ideia do “bom selvagem”, proposta pelo filósofo e reformador francês Russeau, ainda era forte. Começaram a descobrir doenças mentais que eram restritas a povos primitivos, tais como o amok e o latah, entre os nativos de Java; koro, entre os chineses em Java; o myriath, na Sibéria, pilokto entre os esquimós, etc. Assim, nasceu uma nova abordagem, a assim chamada “psiquiatria cultural do exótico”, a qual evoluiu até o presente conceito de síndrome delimitada pela cultura ( “culture-delimited syndrome”) Pela primeira vez, o pensamento psiquiátrico buscava fora do seu berço de nascimento uma prova para o valor universal de suas categorias de doença mental. O grande psiquiatra Emil Kraepelin foi um dos primeiros a fazer extensas viagens ao Oriente e examinar pacientes psicóticos entre povos primitivos, tais como na ilha de Java.[22]. O conceito de síndrome culturalmente limitado é central para o entendimento de não termos doentes mentais, mas sim uma relação entre pessoas, etnocentrismo e a sua cultura, com o perigo do afastamento das definições comandadas pela prática e a tradição.
Esta citação revela o império do desejo de entender que a relação cultura – indivíduo, não é apenas uma problemática denominada por Kraepelin um problema civilizacional, é apenas, como referi antes, uma relação de interacção social entre as leis que governam o comportamento humano, orientam a educação dos mais novos e desenvolvem um adulto capaz de se separar da vida social, por mutações biológicas causadas na base de situações emotivas contraditórias, manifestadas pelo adulto, como no caso das formas rituais paranormais de amok, lata, koro, comportamentos que observa nas culturas citadas no parágrafo anterior e redige no seu texto de 1904: Psychiatrie comparée [23], onde refere formas de agir perante o que eu denominaria a traição da cultura ao indivíduo que, até essa altura, vivia em paz, no meio dos ditames da lei escrita ou tradicional, rituais e mitos, sentimentos definidos e formas materiais de os exprimir que não feriam as relações das pessoas entre si, sempre que essa forma de agir prescrita for cumprida. Situações observadas, sentidas e a desenvolver sentimentos na educação dos mais novos. Eis o motivo pelo qual os organicistas não se ocupam apenas com processos de transtorno mental, mas também de teorias educativas, da forma observada por Edwin Guthrie, Melanie Klein, François Dolto e os outros terapeutas referidos. Formas educativas que procuram dar a entender que não é apenas a relação entre adultos e descendentes de uma mesma família o facto social de importância para a resposta epistemológica da criança perante o grupo, também o é o comportamento do grupo em frente de si próprio, grupo que inclui os mais novos como a parte maior e mais vulnerável e que a pouco e pouco reparam, na sua autonomia e independência perante a vida, sem poder ser independente da alimentação e do carinho que os outros indivíduos devem dispensar. Dai que a criança não seja um subentendido: a criança não entende o que se fala e fica mais exposto ao que vê fazer de diferente aos costumes culturais. Este é o contributo que Kraepelin retirou de Java e abriu um caminho para que os eruditos da mente pudessem comparar e retirar formas de comportamentos convenientes à formação do indivíduo. É impossível não sintetizar os comentários que aparecem no livro, esse pioneirismo de reparar [24]em dois conceitos fundamentais para a nossa análise: o etnocentrismo que acaba por ser o elo que orienta o comportamento: o que nós somos é o melhor, ou o que fazem os outros é com eles; o peso do comportamento cultural e a sua manipulação, que acaba por ter um limite, o da racionalidade emotiva do comportamento entre pessoas. O etnocentrismo define tabus e dinâmicas de comportamentos, traça a linha limite das formas de reprodução humana no saber e entre quais das pessoas da população a afectividade é possível e a relação empática define–se como simpática ou antipática. É o que os autores que introduzem Kraepelin manifestam.
Roudinesco e Plon consideram que “historiquement, l’ethnopsychoanalyse est née de l’ethnopsychiatrie fondé par Emil Kraepelin », texto no qual concluem que a etnopsicologia « c’est l’expresion trnasculturelle qui a fini par s’imposer en lieu et en place d’ethnopsychiatrie ou d’ethnopsichoanalyse, trop chargé d’ethnocentrisme”[25].
Segundo ponto que queria comentar antes de entrar pelo texto das idades da criança e do seu entendimento do mundo: uma definição de Etnopsicologia para entendermos a parte do processo educativo que a Etnopsicologia da infância trata e que fica referido nas páginas anteriores, com o acréscimo do etnocentrismo, conceito fundamental para nos entendermos com a infância.
Etnocentrismo definido mais tarde por Claude Lévi-Strauss a pedido da UNESCO e que teria feito as delícias do autor da Etnopsicologia[26] que acabou por dedicar a sua obra a relações de imigração para entender de forma comparativa as formas de pensamento, fossem estes etnocêntricos ou a fugir das formas mandadas pela interacção social: o etnocentrismo é o desenvolvimento do meu Eu entre os meus, ou do meu grupo social, regras, normas e, especialmente, o fechar as relações aos “selvagens” ou pessoas que vivem à beira do nosso agir, com regras não aceites por nós, ou, pelo menos, para nós, apenas para os outros, enquanto que “indígena” é o habitante natural de um grupo que tem a sua geografia e os seu território, que defende por todos os meios, até pela guerra ou pela união parental.
Há um terceiro e final comentário do próprio Freud sobre a temática. Discípulo de Wundt na Alemanha, influenciado por Kraepelin e os outros intelectuais germânicos, Freud não consegue não comparar as suas análises sobre a história e processo formativo das neuroses e a histeria, sem estudar grupos australianos com os quais compara a conduta europeia. O resultado é o texto Totem and taboo. Some Points of Agreement Between the Mental Lives of Savages and Neurotics, escrito em 1913[27]. O texto de Róheim que tenho invocado, diz: «Si nous avons commencé cette partie en nous référant à la définition même de Freud, c’est pour souligner le fait que l’ethnopsychanalyse n’est pas une discipline nouvelle ; elle est contenue dans la psychanalyse. Elle est une facette et plus précisément (et en premier approximation) celle que questionne l’interface entre psychisme et culture… ».[28]. É assim, comenta o escritor, como Freud se afasta da clínica para entrar no modelo comparativo de comportamentos nem sempre da sua cultura. Um Freud, como comenta o texto que tenho preparado sobre La Psychanalyse Française [29], que coloca o autor fora do campo analítico francês, ferozmente antijudaico para aceitar as ideias filosóficas do autor. No entanto, são ideias que ajudam a perceber essa diferença epistemológica que permite dizer que se pode falar perante as crianças, porque não entendem. Muito embora o caso contrário seja também real: o que a criança diz, não é percebido pelos adultos.
Ele ouve muito bem A audição é um dos sentidos mais desenvolvidos durante a vida intra-uterina. Estudos demonstram que um feto no quinto mês já responde a várias modalidades de sons e alguns pesquisadores acreditam que a gestante que pratica música durante a gravidez predispõe o filho para uma sensibilidade natural ao ritmo. É só observar: o recém-nado está atento e responde aos ruídos do ambiente. Quando escuta um barulho mais forte respira em ritmo mais acelerado, ou então sinaliza com o Reflexo de Moro, esticando e encolhendo os braços e as pernas. E tem a sua preferência.
A intensidade e os tipos de ruídos que não atrapalham dependem, em parte, dos sons que o bebé se habituou a ouvir antes de nascer e também do seu temperamento. Contudo, os pais devem observar o comportamento do filho: se a criança se mostra sensível a algum tipo de som, é melhor evitá-lo, pelo menos, por enquanto. Retirado da Revista Pais e Filhos (Bloch Editores)
Setembro de 1996 Website http://www.infonet.com.br/meubebe/obebe01.htm Para informação mais detalhada: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=l%C3%ADquido+amni%C3%B3tico+sons+beb%C3%A9&btnG=Pesquisar&meta=
[21] http://patrick.fermi.free.fr/nervure.htm Sobre as análises de Kraepelin em Java, ver ALCMEON 12- Formas clínicas de la demência precoz, según Emil Kraepelin, por Graciela Carrá , Pablo Berretoni Página Web: http://www.drwebsa.com.ar/aap/alcmeon/12/a12_08.htm Também do texto Civilização e Loucura, de Paulo Dalgalarrondo, página web http://www.epub.org.br/cm/n01/dalga/dalga1.htm
[21] http://www.epub.org.br/cm/n01/dalga/dalga1.htm. Quis citar este texto para avançar para o segundo ponto anunciado: o da definição da ciência que me importa.
Un peu plus d’un siècle plus tard, en 1903, Emil Kraepelin, qui en est à la rédaction de son septième manuel, prend connaissance du rapport annuel de l’établissement psychiatrique de Buitenzorg fondé par des Hollandais à Java en 1881. Les circonstances se précipitent un peu car il se trouve que Karl Kraepelin, frère du premier, dirige le musée d’histoire naturelle de Hambourg et que Buitenzorg est aussi connu pour son jardin botanique. Les deux frères entreprirent donc le voyage fin 1903. Nous sommes au début du siècle mais en un certain sens les travaux de Kraepelin viennent parachever le mouvement intensif de médicalisation de la folie commencé réellement au début du XIXème siècle même s’il a toujours existé des réflexions sur les rapports entre la folie et la maladie. Il faut rappeler que cette folie médicalisée fût cependant longtemps l’apanage des peuples civilisés. Au milieu des années 1800, des États-Unis à l’Europe, le nombre d’aliénés subit une croissance considérable. L’analyse de ce phénomène est mise en corrélation avec l’avènement de l’ère industrielle et du “progrès” en général même si quelques observateurs, dont Esquirol, restent plus prudents. En tout cas et comme Huffschmitt le note : “la proximité de la nature protégeait encore la raison humaine des méfaits de la civilisation, le “primitif”, le “naturel”, devait inévitablement avoir été épargné par les troubles de l’esprit.”[7]Dans les premières années de ce siècle cette idéologie s’essouffle et quelques particularités exotiques ont déjà commencé à entrer dans les revues savantes. Dans les Annales Médico -Psychologiques [1] sont rapportées par exemple les observations de Gilmore Ellis parues dans The Journal of Mental Science en 1896-97 et qui concernaient deux entités devenues légendaires, l’amok et le latah des Malais.
24 C’est donc dans ce contexte que les deux frères embarquent à Gênes le 23 décembre. L’intérêt principal de Kraepelin est de tester la validité universelle de son élaboration nosographique. Les spécificités malaises, l’amok et le latah, sont bien reconnues mais identifiées, avec précaution il est vrai, à “l’épilepsie psychique” et à l’hystérie. Je cite : “En tout cas il n’y a pas pour l’instant de raison sérieuse d’admettre l’existence de formes entièrement nouvelles, inconnues de nous, de folie chez les indigènes de Java..”.Avec quelques réserves méthodologiques Kraepelin retrouve sa démence précoce et la folie maniaco-dépressive. La fin de l’article consacré à cette expédition montre une ouverture vers le développement de la psychiatrie comparée qui “peut être appelée à devenir un jour une importante science auxiliaire de la psychologie des peuples.” Kraepelin fait réellement de la psychiatrie comparée et c’est là son réel et non moindre mérite. Les théories indigènes ou un quelconque relativisme culturel ne l’intéressent pas. D’ailleurs comme le note Jacques Postel, Kraepelin pensait que “l’ignorance de la langue du malade est, en médecine mentale, une excellente condition d’observation.”






Recent Comments