Prova do suicídio de Salvador Allende – Heróis do Chile

Hortênsia Bussi de Allende

Sua Excelência Salvador Allende e a Primeira-dama Hortênsia Soto Bussi de Allende, no dia de começar o seu mandato, 4 de Outubro de 1970

A notícia recebida hoje de madrugada, deixou-me como alma em pena. É verdade que morei poucos anos no Chile, mas tive essa alegria de conhecer ao persistente candidato à Presidência do Chile, o médico político Salvador Allende. Aliás, o conheci em circunstâncias especiais: não lhe era permitido entrar na nossa terra, terra de agricultura e de indústria, com imenso operariado que, sem poder falar porque a esquerda era perseguida no Chile, até a volta a democracia em 1990. Mal soube a notícia, esse mando do proprietário a polícia, nada falei em casa, fui de imediato aos Carabineros (Guarda Civil) e mandei abrir as portas, acusando a esses guardas de atropelar a Soberania da República por não deixar entrar em propriedade privada, a um Senador da República. Os guardas não sabiam o que fazer, mandei, porém, que se encerrassem na sua caserna e dizer que nunca nada tinham visto. Filho de patrão, obedeceram. Abri as portas, pedi desculpas ao Senador, quem ripostou que estava habituado. Calei, o agarrei do braço e fomos de casa em casa dos 300 operários, apresentei ao Senador, fiz um discurso sobre uma cadeira. Toda de esquerda, saiu de imediato a rua, asilados no meu patronato. Foi o melhor discurso que lhe ouvi na minha vida: reivindicações, a terra é para quem a trabalha, as indústrias também, incremento de ordenado e de segurança social, liberdade de expressão, que era a falha do Chile. Passei uma tarde em grande. Despedi-me dele às portas da indústria, ficaram certos os operários que deste assunto nunca mais se falaria, apoiada a minha palavra pela do Senador. Anos mais tarde, comigo já na Grã-Bretanha, fui investigar o que era uma República com um Presidente marxista. A pedida de Fidel Castro de organizar, por ser um país católico militante, organizamos o movimento Cristãos para o Socialismo. Já Presidente, a Sua Excelência agradeceu e nunca falou contra nenhuma confissão, como nunca o tinha feito antes: o povo era protestante e católico, mas os seus votos o fariam Presidente para ele ter a oportunidade de fazer-nos a todos iguais. Os romanos, os Bispos, queriam nós enviar ao inferno. Nem curto nem preguiçoso, convoquei os Bispos e usei a sua teoria de que o Espírito Santo habitava em todos nós, citando o Apocalipses de João e a teoria gregoriana do Século VI em frente. Impressionados, calaram, sabia menos que nós.

Esse 11 de Setembro, o Presidente foi acordado na sua casa de Tomás Moro, a rebelião tinha começado. As seis da manhã estavam já no Paço de La Moneda, a casa dos Presidentes, que ele não usava para ser igual. O grupo de Amigos do Presidente chegou em pleno, a sua família também. No minuto em que começou o ataque, solicitou a todos irem embora e teve que os empurrar quase um por um. Ficaram a sua filha médica Beatriz, a assistente do Presidente, La Payita, até começar o ataque aéreo. O jornalista O Perro (cão em luso) Augusto Olivares, não suportou o medo e matou-se. Foi o primeiro. O segundo, o Presidente. As 14 horas, entraram os sublevados sob o comando do General Palácios para aprisionar ao Presidente. Os Amigos disparavam e não os deixavam entrar. As 14.30, Allende solicitou ficar só, entrou no Gabinete Presidencial. Para evitar ser prisioneiro de traidores, que o queriam matar, bem como uma guerra civil, colocou entre as suas fortes pernas a carabina oferta do Fidel, disparou e a sua cabeça desapareceu praticamente: a arma usada foi um fuzil AK-47,, ninguém fica vivo. Politicamente este voo de águia retirava das aos de alçados, a sua procurada vítima. Matar eles, era péssimo para a credibilidade do ditador; o suicídio era conveniente: não tenham sido eles…pensavam. Mas, qual a alternativa entre o poder e a glória? Nenhuma, como narro mais em frente. Dizem por ai que o general Palácios, com a vítima morta e não por eles, o acepilhou a balas. Devia haver uma testemunha, o médico pessoal, Patrício Gijón foi levado, após tortura, a TV para testemunhar o suicídio d Allende. A forma, a cara ferida e as mãos agrilhoadas, semearam a dúvida, até ontem a noite.

A nossa vida era um pavor. Após campo de concentração, fui exilado, a minha mulher não, filha de general, foi respeitada.

Antes deste problema, a nossa vida era um paraíso.Morávamos em e 6ª Carlton Terrace, em frente da Holyrood Palace, a casa da Rainha Mary Stuart, mais tarde da Monarquia Britânica. Tinha, entre 200 candidatos para uma bolsa, além do nosso dinheiro, ganho o terceiro lugar para acabar os meus estudos de pós grau em Antropologia e Ciências da Educação. Éramos a minha mulher, a nossa única filha Paula, hoje psicanalista, e, por parto, os nossos amigos argentinos, a família Gaudio, Ricardo e Sida e o seu filho Santiago. Todos os dias percorria The Royal Mile, a rua que me levava desde casa ao meu Departamento para seminários e aulas. Foi a época mais feliz das nossas vidas, ente estudos, passeios, percorrer o Reino da Escócia e criar a nossa pequena filha de nove meses. Como é evidente, aprovei com um A – as notas na Grã-Bretanha são lançadas em letras, não em números. Um A, está perto de um A+. Permitia-me transferir-me a melhor Universidade do Reino Unido, e talvez do mundo. Foi possível, a seguir uma série de escaramuzas. Governava o Chile a Democracia Cristã, presidia o pais o advogado Eduardo Frei Montalva, quem, mais tarde na vida, foi assassinado no decurso de uma operação. A eleição da Sua Excelência foi muito apertada, muito perto do segundo, o nosso amigo Radomiro Tomiç. Salvador Allende, como sabemos e legisla a Constituição de 1925, que regia nesses tempos, teve que ser confirmado e ratificado pelo Congresso Pleno. A CIA tinha entregado dinheiro aos membros do Congresso, para os comprar e votar um não. Mas, apesar de não ser nem por meio segundo antigo falangista, admiro a integridade do Congresso, e o dinheiro foi devolvido com um protesto do Ministro de Assuntos Internos Juan Hamilton. Uma outra tentativa foi o assassinato do nosso amigo o General em Chefe das Forças Armadas, René Scneider, homem forte e fiel à lei e a Constituição. A ideia do raptar não resultara, ele se defendera desde dentro do seu carro e foi morto. Tratava-se de semear terror ates da ascensão a Presidência do primeiro Presidente marxista da América Latina. No dia das eleições, os resultados estavam preparados as 20 horas, mas Eduardo Frei, quem nos mandara tornar ao Chile por sermos marxistas, não queria entregar o mando ao seu sucessor, enquanto preparava alternativas para não ser um Kerensky chileno, o Presidente da Rússia quem entregara o poder ao vencedor nas eleições de 1914, Vladimir Lenin, que fez do país uma união de Estados Soviéticos. Mal era conhecido o Senhor Presidente eleito, ele sabia respeitar a Constituição e as leis, tinha sido Ministro da Saúde do Presidente Radical Pedro Aguirre Cerda e presidido o Senado ao longo de oito anos. A sua pretensão era redistribuir a riqueza, retirando posses aos ricos e entregando terra aos que as trabalhavam, indústrias aos operários para que aprendessem a gerir eles próprios. Nacionalizou o Cobre do Chile e cobrou uma indemnização de milhares de dólares, pelos anos perdidos pelo país de lucrar com o que lhe pertencia. Todo, a correr, como refiro no meu ensaio do Aventar de 1010 porque Allende teve que correr tanto? A resposta foi porque não tinha tempo para reformas e fazer do país um de iguais, Como Babeuff em 1785 e Maréchal em 1795, pretendiam, textos que levaram em 1848, ao casal Marx e amigo Friedrich Engels, redigir o Manifesto dos Communards, mal traduzido como Manifesto Comunista. A escrita foi da baronesa Johana von Westphalen, ou Jenny Marx, mulher de Karl Heinrich Pembroke Marx.

Allende não era apenas médico e homem da política: conhecia todo Marx e o aplicava. Eis o terror dos burgueses chilenos, que nunca tinham lido nem meia letra de quem tanto temiam sem saber porque.

A corrida da Sua Excelência fez ganhar adeptos. Nas eleições municipais, ganhou comunas por mais de 60% dos votos. Pensou, porém, chamar a um plebiscito e perguntar ao povo se queriam ou não que ele continua-se na Presidência. Tantos assuntos tinham acontecido contra ele e o seu governo, que a única solução era chamar ao povo e perguntar. Pensou convocar para o 10 de Setembro de 1973, confidenciou esta ideia ao seu novo General em Chefe das Forças Armadas, por nome Pinochet, quem comunicara esta intenção aos seus subalternos. Cobarde como era, este membro da etnia Picunche, não queria aderir. Mas, no dia do levantamento, não apenas aderiu, bem como se converteu num novo Director Supremo à laia de O´Higgins. Foi a pouco e pouco atacando aos seus colegas na confabulação, até ficar só como Presidente do Chile ou ditador supremo da Nação.

Quem resgatou a eleição para Allende, foi o nosso amigo Radomiro Tomiç, candidato da Democracia Cristã. Ao reparar que Frei não anunciava os resultados, simplesmente foi a Alameda onde discursava o Presidente Eleito, o congratulou com um forte abraço, reconheceu a sua derrota e Frei não teve outra alternativa que dar a conhecer os resultados. Estes burgueses falangistas, pensavam que seria apenas por poucos dias e Frei seria eleito outra vez. Passaram 19 anos, a Democracia Cristã organizou a queda do ditador, apoiando aos partidos de Allende: Socialistas, Comunistas, radicais. Sem disparar um tiro, marchavam de mãos dadas, presididos pelo retirado do seu cargo de Senador, Patrício Aylwin. Até convencer ao mais sangrento ditador de convocar um plebiscito se queriam que continua-se o picunche a presidir o país. Ganhou ou não, o ditador foi despojado do seu cargo, a democracia tornou ao país e Aylwin foi o primeiro Presidente do novo Chile. Nós, exilados e de volta a Cambridge, combatemos desde fora. Levamos a mais de dois mil chilenos, perseguidos pela injustiça do picunche – lamento pelo clã, mas a verdade é assim, antigos Ministros, o meu Reitor e povo, que Billy Calagham me ajudara a resgatar e encontrar trabalho para eles, indigitando a recentemente falecida Dame Judith Heart, para trabalharmos juntos. Triunfamos, mas o meu exílio continua, até pelo abandono dos meus antigos colegas que, doente como estou, acompanharam-me dois anos e, a seguir, passeis a ser um escritor solitário.

A 11 de Setembro de manhã, liguei o rádio na nossa casa do Chile. Habituado a ouvir as notícias, e começar a ouvir apenas marchas militares e avisos do levantamento das forças armadas contra o poder legal, pensei: alguém mexeu no comando. Não dava para creditar….Mas foi assim. Os soldados avançaram e desde as 6 da manhã travou-se um combate entre os leias e os insurrectos. O Presidente legítimo mandou sair a todos os que tinam aparecido no Paço de La Moneda, atacada por Hawkers-Haunters, até que as 14 horas os insurrectos entraram a La Moneda e encontraram um corpo que tinha lutado e disparado para matar inimigos, morto no sofá presidencial. Durante anos duvidamos se era assassinato ou suicídio. A sua sobrinha Isabel, a nossa excelente escritora, afirmava que suicídio não era com o seu tio. Lamento: foi, como diz a peritagem forense entregue hoje. A seguir esse desespero, foi o meu campo de concentração e o exílio, resgatado pelos britânicos de Cambridge e o meu amigo Bispo Dom Carlos Gozález Cruchaga, falecido faz poucos meses antes desta notícia.

Fui entrevistado por todas a revistas científicas na minha britânica Universidade, sobre a ciência no Chile e como tinha melhorado baixo a Presidência da Sua Excelência. Perguntaram-me qual era o meu desejo para o ditador: de forma honesta e sem pensar, que viva muitos nãos, que seja julgado e morra réu de rimes. Nem que tiver sido uma premonição…assim foi que aconteceu, morreu réu de crimes atrozes e em tribunal, aos seus 93 anos.

O Governo do México tinha colocado um avião para transferir os Allende a solo certo e seguro. Mas, assim não foi. Esse 11, as 22 horas, foi entregue uma caixa de madeira toda pregada à Primeira-dama Tencha e a sua irmã a Senadora Laura Allende, uma caixa da pior madeira, com um NN escrito sobre as tábuas e lançado num sítio qualquer no cemitério de Santa Inés em Vinha del Mar. Tencha e Laura corriam como loucas pelo bairro, a meia-noite e diziam: saibam que essa caixa que está ai, contem o corpo do Presidente Legítimo do Chile. Os soldados as apresaram, levaram ao avião rumo ao México, onde a Senadora se suicidou por causa do desaparecimento do seu filho Andrés Pascal Allende e do seu irmão Salvador. Beatriz, asilada em Cuba, matou-se. A Tencha a levamos a Inglaterra, a alimentamos e vestimos. Eles e nós, tínhamos perdido todo: bens e família, língua e Pátria. Muitos de nós, tivemos que começar de novo. Tivemos essa segunda filha que, nestes dias, dar-nos-á um neto.

No Chile, o Serviço Médico Legal de Santiago anunciou que os exames aos restos mortais do ex-presidente Salvador Allende, exumados a 23 de maio, confirmaram que este se suicidou no dia do golpe de estado liderado por Augusto Pinochet, a 11 de setembro de 1973.

O relatório final da investigação levada a cabo por uma equipa internacional de especialista foi comunicado a Isabel Allende, filha do ex-presidente.

“O presidente Allende no dia 11 de Setembro de 1973, perante as circunstâncias extremas que viveu tomou a decisão de por fim à vida antes de ser humilhado ou viver qualquer outra situação”, disse.

Após a sua morte, o corpo de Allende foi submetido a uma autópsia antes de ir para a cidade de Viña del Mar. Em 1990 o corpo foi exumado e trasladado para a capital, tendo sido submetido a um segundo exame forense.

O novo exame aconteceu após versões sobre a morte de Allende indicarem que este poderia ter sido assassinado pelos militares golpistas que assaltaram o palácio de La Moneda ou que terá tentado suicidar-se e falhou, tendo o disparo fatal partido de um dos seus colaboradores mais próximos.  Notícia dada pela Senadora Isabel Allende, a única viva da família

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Sempre será lembrado por estas palavras:

7:55 A.M. Radio Corporación

Habla el presidente de la República desde el Palacio de La Moneda. Informaciones confirmadas señalan que un sector de la marinería habría aislado Valparaíso y que la ciudad estaría ocupada, lo que significa un levantamiento contra el Gobierno, del Gobierno legítimamente constituido, del Gobierno que está amparado por la ley y la voluntad del ciudadano.

En estas circunstancias, llamo a todos los trabajadores. Que ocupen sus puestos de trabajo, que concurran a sus fábricas, que mantengan la calma y serenidad. Hasta este momento en Santiago no se ha producido ningún movimiento extraordinario de tropas y, según me ha informado el jefe de la Guarnición, Santiago estaría acuartelado y normal.

En todo caso yo estoy aquí, en el Palacio de Gobierno, y me quedaré aquí defendiendo al Gobierno que represento por voluntad del pueblo. Lo que deseo, esencialmente, es que los trabajadores estén atentos, vigilantes y que eviten provocaciones. Como primera etapa tenemos que ver la respuesta, que espero sea positiva, de los soldados de la Patria, que han jurado defender el régimen establecido que es la expresión de la voluntad ciudadana, y que cumplirán con la doctrina que prestigió a Chile y le prestigia el profesionalismo de las Fuerzas Armadas. En estas circunstancias, tengo la certeza de que los soldados sabrán cumplir con su obligación. De todas maneras, el pueblo y los trabajadores, fundamentalmente, deben estar movilizados activamente, pero en sus sitios de trabajo, escuchando el llamado que pueda hacerle y las instrucciones que les dé el compañero presidente de la República.

8:15 A.M.

Trabajadores de Chile:

Les habla el presidente de la República. Las noticias que tenemos hasta estos instantes nos revelan la existencia de una insurrección de la Marina en la Provincia de Valparaíso. He ordenado que las tropas del Ejército se dirijan a Valparaíso para sofocar este intento golpista. Deben esperar la instrucciones que emanan de la Presidencia. Tengan la seguridad de que el Presidente permanecerá en el Palacio de La Moneda defendiendo el Gobierno de los Trabajadores. Tengan la certeza que haré respetar la voluntad del pueblo que me entregara el mando de la nación hasta el 4 de Noviembre de 1976. Deben permanecer atentos en sus sitios de trabajo a la espera de mis informaciones. Las fuerzas leales respetando el juramento hecho a las autoridades, junto a los trabajadores organizados, aplastarán el golpe fascista que amenaza a la Patria.

8:45 A.M.

Compañeros que me escuchan:

La situación es crítica, hacemos frente a un golpe de Estado en que participan la mayoría de las Fuerzas Armadas. En esta hora aciaga quiero recordarles algunas de mis palabras dichas el año 1971, se las digo con calma, con absoluta tranquilidad, yo no tengo pasta de apóstol ni de mesías. No tengo condiciones de mártir, soy un luchador social que cumple una tarea que el pueblo me ha dado. Pero que lo entiendan aquellos que quieren retrotraer la historia y desconocer la voluntad mayoritaria de Chile; sin tener carne de mártir, no daré un paso atrás. Que lo sepan, que lo oigan, que se lo graben profundamente: dejaré La Moneda cuando cumpla el mandato que el pueblo me diera, defenderé esta revolución chilena y defenderé el Gobierno porque es el mandato que el pueblo me ha entregado. No tengo otra alternativa. Sólo acribillándome a balazos podrán impedir la voluntad que es hacer cumplir el programa del pueblo. Si me asesinan, el pueblo seguirá su ruta, seguirá el camino con la diferencia quizás que las cosas serán mucho más duras, mucho más violentas, porque será una lección objetiva muy clara para las masas de que esta gente no se detiene ante nada. Yo tenía contabilizada esta posibilidad, no la ofrezco ni la facilito. El proceso social no va a desaparecer porque desaparece un dirigente. Podrá demorarse, podrá prolongarse, pero a la postre no podrá detenerse. Compañeros, permanezcan atentos a las informaciones en sus sitios de trabajo, que el compañero Presidente no abandonará a su pueblo ni su sitio de trabajo. Permaneceré aquí en La Moneda inclusive a costa de mi propia vida.

9:03 A.M. Radio Magallanes

En estos momentos pasan los aviones. Es posible que nos acribillen. Pero que sepan que aquí estamos, por lo menos con nuestro ejemplo, que en este país hay hombres que saben cumplir con la obligación que tienen. Yo lo haré por mandato del pueblo y por mandato conciente de un Presidente que tiene la dignidad del cargo entregado por su pueblo en elecciones libres y democráticas. En nombre de los más sagrados intereses del pueblo, en nombre de la Patria, los llamo a ustedes para decirles que tengan fe. La historia no se detiene ni con la represión ni con el crimen. Esta es una etapa que será superada. Este es un momento duro y difícil: es posible que nos aplasten. Pero el mañana será del pueblo, será de los trabajadores. La humanidad avanza para la conquista de una vida mejor.

Pagaré con mi vida la defensa de los principios que son caros a esta Patria. Caerá un baldón sobre aquellos que han vulnerado sus compromisos, faltando a su palabra… rota la doctrina de las Fuerzas Armadas.

El pueblo debe estar alerta y vigilante. No debe dejarse provocar, ni debe dejarse masacrar, pero también debe defender sus conquistas. Debe defender el derecho a construir con su esfuerzo una vida digna y mejor.

9:10 A.M.

Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Postales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura sino decepción Que sean ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al Gobierno, y que también se ha autodenominado Director General de carabineros. Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

Trabajadores de mi Patria: quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.

Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la abuela que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la Patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clases para defender también las ventajas de una sociedad capitalista de unos pocos.

Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo lo oleoductos y los gaseoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder. Estaban comprometidos. La historia los juzgará.

Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria.

El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición. 

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