Sobre os professores: o cão de Pavlov

O pequeno mundo da defesa das ideias partidárias é de uma pobreza vocabular e de uma estreiteza argumentativa impressionantes, a ponto de ser possível assistir ao espectáculo de ver homens inteligentes reduzidos à emissão de simplismos, como já foi o caso de Pacheco Pereira ou Vasco Graça Moura nos tempos do cavaquismo, para escolher dois intelectuais de uma trincheira política que não frequento.

Nos dias de hoje, nesta espécie de reino do pensamento único em que querem obrigar-nos a viver, propagam-se algumas ideias igualmente básicas. Com o objectivo de anestesiar a populaça, o poder e respectivos seguidores e apoiantes tentam explicar que “vivemos uma situação extraordinária”, que “todos temos de fazer sacrifícios”, que “as coisas agora mudaram”. Tentam, no fundo, que nos conformemos, que aguentemos.

A opinião pública, mesmerizada pelas gravatas tecnocráticas dos governantes, prefere não pensar e lida mal com quem não se conforma. Diante dos que tentam pensar ou na presença dos que procuram argumentar, mandam-nos falar mais baixo, dizem-nos para ficarmos contentes porque há outros que estão piores e não faltará muito tempo para considerarem o acto de respirar como um privilégio.

No último texto que publiquei, referi-me ao tempo que tem sido retirado, de várias formas, aos professores, chamando a atenção para o facto de que isso prejudica a actividade docente, com consequências inevitáveis na educação dos jovens. Imediatamente apareceram alguns comentadores que vivem intoxicados por ideias semelhantes, mais preocupados com os eventuais privilégios de uma classe profissional do que verdadeiramente interessados em contribuir para um país em que todas as classes profissionais possam cumprir cabalmente as suas funções em benefício – imagine-se – do mesmo país.

Não haverá a hipótese de que estas alminhas pensem que tantas queixas poderão ser o fumo que indicia a existência de um fogo? Se tirarem as ferramentas a um carpinteiro, deverá ele calar-se e começar a pregar pregos com a cabeça? Deverá um cirurgião calar-se, se o obrigarem a operar sem bisturi? Fará sentido um professor deixar de protestar se a esmagadora maioria das medidas tomadas pela classe política prejudica a Escola pública?

Face a estas e outras perguntas, a maioria obedece a um único instinto, como o cão de Pavlov salivava ao ouvir a campainha: mal ouvem falar os professores, a primeira coisa de que se lembram é de mandá-los calar.

Comments

  1. manuel.ferreira says:

    A SOLUÇÃO É UMA NOVA FILOSOFIA —Todos os professores devem ensinar aos seus alunos a Filosofia Objetivista de AYN RAND — que é a Maior Filósofa dos últimos 100 anos — porque “ o Homem é a medida de todas as coisas e o Trabalho a medida de todos os Homens “ , e assim sendo, não deve existir qualquer Imposto sobre o Trabalho, a Poupança, e o Investimento, porque é injusto, imoral , e incorrecto —- quem trabalha, produz, poupa, e investe, merece um INCENTIVO, e não uma penalização — só devem existir impostos sobre o Consumo, a Poluição e os Vícios —e a redistribuição do rendimento deve ser feita apenas no Investimento do Estado, e nunca na cobrança dos impostos… … só assim é possível resolver a Crise Grave que atravessa a nossa Economia… é importante enviar esta nova inédita e diferente forma de olhar, para os melhores amigos…


  2. A este propósito, só me ocorre pensar que, de um modo geral, em Portugal a educação é considerada um privilégio: de privilegiados para privilegiados; uma qualquer ocupação típica de gente ociosa e improdutiva.
    Infelizmente, é ainda assim que muita gente vê a escola, uma mera perda de tempo, cujo ciclo completo poderia reduzir-se, vá lá, ao ensino primário (ler e contar).
    E esta é uma ideia que cola facilmente nas mentes menos informadas, daí considerarem um privilégio o “Tempo de Pensar”, visto como tempo improdutivo (para quê, se o professor só dá umas aulitas há já vários anos?) E é também uma ideia que foi aproveitada por uma certa classe política mal-intencionada para rebaptizar “direitos” como “regalias” ou “privilégios” e alimentar o ódio em relação aos professores, pretexto justificativo para “retirar privilégios”.
    Consequência: a maioria dos professores que pôde, debandou para a reforma antecipada; os que ficam, permanecem por falta de opção. Une-os a desilusão de se verem transformados em “proletários da educação”. O ensino mudou. Mudou bastante. Para pior.
    Portugal (a generalidade dos portugueses e os seus governantes) entrou no séc. XXI continuando sem perceber o valor do potencial humano para o desenvolvimento de um país – na verdade, continua a desprezar este factor essencial – e, com políticas estéreis e míopes, perdemos uma década nesta corrida.
    Transformou-se a escola num Admirável Mundo Novo de engenharia social onde se criou a ilusão de que todos podem aí ser felizes e todos obtêm aproveitamento sem esforço (“aprender a aprender”, “aprender ao seu ritmo”, “aprender a brincar”, formulações vazias de lunáticos bem-intencionados ou de ignorantes mal-intencionados.
    Entretanto, a caravana (tempo) continua a passar, os cães (professores) continuam a ladrar e os pavlovianos a mandar calar, não vá alguém dar conta de que o rei vai nu.

  3. Miguel says:

    Deixe-me lhe responder ao seu último comentário no post anterior, neste novo post.

    Não quero retirar direitos aos professores, nem quero retirar as culpas que o governo têm. Sim, este deveria fornecer uma estrutura base, que permitisse que o ensino fosse levado com rigor e qualidade. Mas não, o estado não fez isto e fez pior.

    No entanto, tive professores que mesmo assim quebraram estas barreiras e dificuldades, e conseguiram dar conteúdos interessantes, ricos e que realmente formam os alunos. Não ficaram parados a olhar e reclamar, e com o seu “giz” e quadro preto conseguiram vencer na sua profissão. Se estes conseguiram, porque não consegue o resto?


    • Miguel, deixe-me desde já dizer que tem toda a razão. Como professor que sou, tento, pelo exemplo, educar, e pelo trabalho, ensinar.
      Exemplifico. Se quero evidenciar o valor da pontualidade e seriedade, tenho eu que dar o exemplo e ser pontual e sério no que faço; se quero verdadeiramente ensinar, tenho que trabalhar. E trabalho. Quase todos os dias, um pouco. É verdade que tenho um dia livre (isto é, sem aulas), mas não faço mergulho desportivo nesse dia, preparo as aulas da semana, que todos os dias, antes de sair para a escola, revejo.
      E todos os anos me questiono se estou a ser bom professor, se estou a ser profissional no que faço e se mereço a confiança que o Estado meu empregador em mim deposita. Apesar dos altos e baixos, penso que faço o meu trabalho.
      Detesto a burocracia em que estamos mergulhados, mas faço o que posso.
      Por vezes é complicado, muito complicado, quando estamos a abordar temas em que para nós a normalidade não passa de um ideal para os miúdos (historiais de droga, alcoolismo, abandono do lar, prostituição, gravidezes na adolescência, etc – parece mentira, mas existem casos bastante complicados, para os quais muitas vezes não estamos preparados).
      Conseguir “trazer” um aluno com problemas até nós, que confie em nós para falar e escutar é já uma vitória. Muitas vezes ouvimos professores dizerem que se valer a pena por um aluno apenas, já valeu a pena.
      Acredito que a maioria pense o que afirma.
      Mas é demasiado duro todos os dias ouvir as vozes da crítica (não me refiro a si, mas a si desabafo) que pouco ou nada conhecem destas realidades falarem em desconhecimento de causa, com ideias feitas que lhes fizeram, tudo deturpando.
      Sinto-me então personagem da história do burro, do velho e da criança: não importa o que faça de bem, isso é sempre criticável. Por isso, reclamo, reclamo sempre. Mas continuo sem desistir. Até quando?

    • António Fernando Nabais says:

      Os professores, tal como todos os outros profissionais, devem dar o seu melhor, independentemente das condições que lhes são concedidas. É igualmente verdade que haverá sempre professores melhores do que outros e professores que conseguem ser igualmente bons, independentemente das condições que lhes forem concedidas. O problema, para mim, é que os professores, como qualquer recurso, humano ou natural, têm limites e esses limites já foram ultrapassados. Como disse no texto anterior, este não um problema unicamente corporativo, é muito mais do que isso. Ser professor nunca será fácil e é lógico que não o seja. O problema está nas dificuldades que foram criadas artificialmente por um poder político que, na realidade, se está nas tintas para aquela que deve ser uma preocupação de toda a sociedade: a qualidade da Educação. Essa qualidade será tanto menor quanto mais condições retirarem aos professores.
      Há muitas profissões com as mesmas razões de queixa? Então, devem fazer duas coisas, no mínimo: trabalhar com profissionalismo e protestar, actividades perfeitamente compatíveis. Só é pena que seja preciso prtestar tanto. Mas é mesmo preciso.

  4. Bruno says:

    Belo comentário António Fernando Nabais. Infelizmente nas escolas estamos entrincheirados na burocracia. Para tudo há um gráfico, uma tabela, uma perda de tempo. As novas teorias pedagógicas não resultam. O que se pensou foi em vez de estimular 20% de alunos, há qie estimular 80% e dotar as escolas de medidas legislativas, que depois não têm seguimento, pois poderá onerar os custos. Exemplo. Na transição de ciclo propus que um aluno tivesse um tutor, isto antes do 2º ciclo elaborar horário. Consequência? Uma medida prevista na legislação não existiu por falta de créditos horário. Há muito mais, mas poderá ficar para a próxima. Pensem se numa empresa cada trabalhador trabalha ao seu ritmo, se um faz 200 caixas/dia e o outro 20, quais as consequências? E sim devemos protestar quando algo vai mal, pois NÓS estamos dentro do sistema e não os bur(r)ocratas eleitos a cada 4 anos.

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