O fim da monarchia e a Republica Portuguêsa

Esta manhã, quando revejo provas das palavras que ahi deixo, chega a minha casa a notícia de ter sido proclamada a Republica Portuguêsa.

Há mais de um anno que este livro vive nos meus papeis, esperando a sua vez de ser publicado. Durante um anno esse desabar e esboroar contínuo da monarchia e da vida politica amorteceu e segui, como se os donos da casa, numa indolência de preguiça á beira do regato, se ficassem na somnolenta modorra de quem não dá um passo para salvar uma vida, no automático aborrecimento da propria vida. Durante um anno a politica portuguesa foi uma fuga constante do «salve-se quem poder». O partido republicano construiu serenamente o seu edifício ; e ninguem apareceu a reagir, opondo uma vontade a essa vontade, alimentando uma energia, erguendo um clarão de esperança. « Salve-se quem puder » ; « salve-se quem puder ». E nem quem podia se salvava.

Como um condemnado que se vê já a braços com a pena suprema e conhece que nada vale defender-se, os homens da monarchia abriam os alçapões e safavam-se por elles como diabos de mágica.

Há cem annos que a historia nos recorda uma outra fuga identica. A côrte cantava lunduns que o senhor Arcebispo ouvíra na Bahia ; as princezinhas polvilhavam-se e diziam versos dos poetas peraltas emquanto a creadagem se refocilava pelas cavalariças nos peitos reais de Dona Carlota Joaquina ; e o Principe Regente gosava o seu maior prazer chupando uma perna de galinha, com o beiço caído luzidio da carne, alheiado da côrte e da família que uma multidão obscena e fanática divertia e guardava. E numa manhã cinzenta em quer o rio crescêra mais, erguendo as suas aguas barrentas das enxurradas, precipitáram-se todos, – todos – a caminho do Brazil, entregando a pátria á voragem dos francêses.

A historia tem por vezes a ironia de repetir estas anedoctas pittorescas. Durante um anno, a monarchia portuguêsa, entregue ao compadrio das seitas, amostrou essa capa de faminto, com os buracos abertos ; e por esses buracos o país poude ver no velho corpo da pátria traições e gangrenas, roubos e imoralidades, vendas e negociatas, tudo – desde esse famoso Caso Hinton á pilhagem do Credito Predial. Fazenda que havia para tapar buracos, toda era pouca ; porque quanto mais se tapavam logo outros maiores apareciam, alargando-se no venenoso prazer de exhibir chagas num corpo que se sabia chaguento.

A educação jesuítica, que dominara o país durante séculos, assentára-se nos paços reaes ; e o ultimo acto politico do Rei Manuel foi nomear-se, babado de prazer, Juiz da Irmandade do Santissimo de Mafra.

« Salve-se que puder » ; e quando esse rei imberbe e imbecil, sobre quem desabava uma herança ancestral de inúteis e exgotados, fugia de Lisboa, ouvindo o tiroteio, encontrou á volta de si, num corredor do palácio, um creado só e único arregalando os olhos de pavor. Esses conselheiros que reagíram pela inércia, encontráram uma única energia para fugir.

Cincoenta annos de paz podre á sombra dum monarchismo paralytico produziram a Republica Portuguêsa ; e para que o mundo saiba que nesse acordar heróico o povo se ergueu num salto brusco, cheio de si, ­- á frente do primeiro governo ficou a figura mais profundamnete nacional do momento presente, – obreiro de genio que é a consciencia dum país, abrindo-se e amostrando-se : Theophilo Braga.

A ascenção republicana ao governo do país foi alguma coisa mais de que o triumpho dum partido de oposição ; nos últimos mezes, em parallelo desenvolver de necessidades, o partido republicano desenvolêra um programma legislativo e social positivo e certeiro. Pô-lo em prática será obra de tempo ; a decisão com que os ministros atacam de começo os mais graves problemas nacionaes sam garantia segura de que a politica futura coincidirá em absoluto com as necessidades sociaes.

Uma grande obra portuguesa começa a desenhar-se no horisonte ; essa obra legislativa será dentro em pouco, com o consenso unânime dos cidadãos, uma obra educativa. E cortadas as barreiras que entravavam a actividade nacional, liberto o país dum cléro burocrata que o espoliava e o vendia e duma burocracia clerical que o julgava uma roça, – a profunda alma portuguêsa, das entranhas da terra, começará a correr num filão cantante e crystalino, que á luz do sol seram diamantes liquidos caminhando seu curso.

As clientelas litterarias, geradas no exemplo das clientelas politicas, extinguem-se breve. Num regimem do povo e para o povo nenhuma actividade se póde anular e cada um terá a função que lhe compete.

 

Alberto Veiga Simões, A Nova Geração (Estudo sobre as tendências da litteratura portuguesa), Coimbra, 1911

Transcrição respeitando a ortografia e tipografia originais, tanto quanto o corrector ortográfico me deixou.

Alberto Veiga Simões foi um ilustre escritor e diplomata português, nosso cônsul em Berlim aquando da ascensão de Hitler, tendo tomado na altura atitudes que levaram Salazar a dar-lhe o devido encaminho (curiosamente, tendo-se antecipado e muito ao velho monárquico Aristides Sousa Mendes na tentativa de auxiliar judeus perseguidos,  foi por este e sobretudo pelo seu irmão perseguido no Ministério dos Negócios Estrangeiros). Este texto corresponde uma fotocópia que a sua mui distinta biógrafa Lina Madeira em tempos me ofereceu, e a quem fico eternamente agradecido.