Joseba Sarrionandia, liberdade

Joseba Sarrionandia ganhou um prémio literário e para o receber teria de voltar para a cadeia. Confuso? estamos no País Basco, governado pelo PSOE.

Descobri Joseba Sarrionandia no excelentíssimo Do trapézio sem rede. Depois de ler isto:

Quando o chefe da polícia Ángel Martínez enfia o cano
do seu revólver no ânus do prisioneiro nu
e a imagem se torna nojenta, patética e cheia de sangue,
que importância tem para o jovem torturado
se o poeta é um fingidor, como disse Pessoa?
Alguma vez G. K. Chesterton visitou La Salve?
Há alguém nas celas de Intxaurrondo que conheça
Hermann Broch?
Quando está, totalmente destruído, diante do juíz,
como poderá o jovem torturado explicar
o significado de correlativo objectivo?
Como poderia Molly Bloom compreender um nascer do sol
tricotado com agulhas na prisão de Carabanchel? [Read more…]

Sermão de António aos pseudo-governantes

Talvez Deus perdoe a Agostinho Caridade ter-se feito passar por padre, talvez até o seja aos Seus olhos benignos, porque, em última análise, é dEle que desce o sacerdócio. Veja-se como do nome ao apelido o arguido dos homens tinha já tudo para ser um homem de Deus, como tudo nela pressagiava já a natureza levítica. Note-se como era belo o seu verbo, característica eventualmente transmitida por via sanguínea, já que o progenitor havia estudado para padre. Mas, enfim, se o próprio Messias sofreu às mãos dos homens, é justo que Agostinho se dirija, agora, ao calvário.

Pergunto-me, entretanto, se um homem que parece um padre e fala como um padre e é condenado por, afinal, não o ser, o que deveria acontecer a alguém que fala como um governante e que parece um governante e, todavia, desgoverna? Qual deveria ser o destino de quem, subindo ao púlpito da governação, gastou dinheiro alheio, tal como fez Agostinho Caridade? O que deveria acontecer a quem prometeu que não aumentaria impostos, comprando, assim, votos, para em seguida faltar ao prometido, uma vez investido de poder?

Dir-me-ão que se chega ao governo graças à escolha do povo, mas em lado nenhum está escrito que o voto popular é prova de honestidade passada ou garantia de seriedade futura, como já defendeu o Presidente da República ou como deseja Alberto João Jardim. Pergunto-vos, então, irmãos: vale mais um verdadeiro sermão de um falso padre ou a  palavra ignóbil de um governante verdadeiro? Em verdade vos digo que são insondáveis os caminhos da justiça humana. Amém.

“Festa”

Pedro Noel da Luz

Restante série em: http://kameraeskura.blogspot.com/2011/07/festa.html

Eles também têm medo

Após as manifestações sindicais de 1 de Outubro, apareceram ontem plantadas na comunicação social notícias de que a polícia e as secretas estão atentas aos distúrbios motins e outras barbaridades que se avizinham, sublinhando desde já a ameaça que vem das manifestações convocadas para o próximo dia 15.

A lógica é simples: nós estamos aqui para vos roubar o ordenado, em nome dos bancos, aumentar os impostos, em nome de Alberto João Jardim, privatizar tudo e mais alguma coisa, em nome da troika. Vocês fiquem muito caladinhos e quietinhos lá em casa, em nome da democracia.

No fundo trazem a consciência pesada, e também têm medo, muito medo. Sondagens como a de sábado, nas ruas do Porto e Lisboa, assustam. Na Grécia já há quem seja claro: a austeridade imposta pelo saque dos donos da Europa só se conseguirá aplicar com uma ditadura. E realmente o neo-liberalismo em democracia nunca conseguiu ir muito longe, não ficando as suas afinidades com o fascismo dos anos 30 por aqui.

Na fotografia: perigoso gang ultra-radical (note-se o uso das t-shirt´s negras, são do Black Block, só pode) fotografado por mim na manifestação de Sábado, no Porto. Espero que as polícias tomem nota. Quanto ao fotógrafo pintava a cara de preto se não estivesse já fichado.

Está encontrada a geração “menos 500 euros”

Depois da chamada geração “500 euros”, Nuno Crato ajudou o país a descobrir uma outra: a geração “menos 500 euros”, constituída por jovens a quem a referida quantia estava prometida.

Miguel Saraiva, que também não recebeu os 500 euros atribuídos aos melhores alunos do país, propôs que os prémios dados aos administradores das grandes empresas fossem também cancelados. Eu acrescentaria, apenas, que, para haver completa equidade, esse cancelamento deveria ser feito a menos de quarenta e oito horas de esses mesmos prémios serem depositados.

Entretanto, foi criado um movimento para que a sociedade civil possa compensar aquilo a que Nuno Crato, com muita graça, chamou “problema de comunicação”. Na sociedade civil, aliás, a atitude do governo poderia ser sintetizada numa frase como “Lembras-te dos 500 euros que te prometi há quase um ano? Esquece!”

O movimento500 está, também, no Facebook e no Twitter.

Banksy, Street Art e Vandalismo

O Aventar tem discutido o tema de forma pluralista, como sempre. Tem, igualmente, divulgado alguns dos melhores artistas nacionais e internacionais e dedicado espaço a iniciativas importantes nesta área. Como a polémica acompanha boa parte destas acções, tem contado em primeira mão algumas reacções.

Novas achas para a fogueira chegam agora de Bristol, onde, aparentemente, nasceu um novo paradoxo sobre a noção de vandalismo.

Depois disto tudo, o leitor do Aventar tem opinião formada ou acha que se trata apenas de lixo e perda de tempo?  Qual é a sua opinião?

Há a possibilidade de ser tudo ao contrário do que pensamos

Depois de vários anos em que o Estado tem sido visto como um recurso ou como um trampolim e nunca como uma responsabilidade, chegou, finalmente, ao poder um grupo de pessoas que assumiu, de modo quase indisfarçado, a função de comissão liquidatária de um país. Para que as contas tivessem chegado ao ponto a que chegaram, foi necessário o contributo, por acção e por omissão, de muitos, ao longo de cerca de trinta anos, ao ponto de não ser difícil imaginar uma conspiração em que muitos privados poderosos terão conseguido, pacientemente, conduzir os negócios públicos, de modo a que possam, agora, apropriar-se deles sem sequer ser necessário gastar muito dinheiro, como se pode ver no caso BPN ou como se pode confirmar nas palavras de um primeiro-ministro que, em plena televisão, afirma que há empresas públicas que terão de ser vendidas nem que seja por um euro, o que configura uma posição negocial fortíssima.

Com um povo desinformado, intoxicado por uma comunicação social que serve para propagar o pensamento único da troika, já preexistente e agora transformado em religião, a tarefa da comissão liquidatária está facilitada. Basta ver como, nas entrevistas de rua e nos inúmeros programas que permitem a todos dar opiniões, todos reproduzem, sem pensar, frases como “gastámos acima das nossas possibilidades” e “a austeridade é necessária”, como se a austeridade alguma vez tivesse sido desnecessária. [Read more…]