A falácia: competitividade e custos do factor trabalho

O ‘Expresso’, na edição de Sábado, divulgou dados interessantes a respeito dos ‘custos do factor trabalho’, coligidos pela filial belga da Deloitte. O estudo integra 12 países europeus, entre os quais Portugal. Permite algumas reflexões acerca da competitividade da economia portuguesa; em especial, quanto ao impacto dos citados ‘custos do trabalho’ em comparação com outras economias europeias. Habilita também a desmistificar a tese dos efeitos decisivos da descida da TSU, na capacidade de concorrência externa das nossas empresas.

Analise-se, entretanto, o quadro seguinte, construído com base no estudo da Deloitte, o qual pressupõe a hipótese, comum aos países do conjunto considerado, de um trabalhador casado (um titular) com 2 filhos, auferindo o rendimento bruto anual de 27.000,00 euros:

Pos. País Custos do empregador Contribuição para Segurança Social
1.º Reino Unido 29.625,70 9,72%
2.º Irlanda 29.903,00 10,75%
3.º Polónia 31.504,50 16,68%
4.º Holanda 31.573,00 16,94%
5.º Alemanha 32.217,75 19,33%
6.º Portugal 33.412,50 23,75%
7.º Espanha 35.019,00 29,70%
8.º Itália 35.062,20 29,86%
9.º Suécia 35.483,00 31,42%
10.º Bélgica 35.825,43 32,69%
11.º Rep. Checa 36.180,00 34,00%
12.º França 38.969,32 44,33%

Portugal é o 6.º país da lista, o que conduz a diversas conclusões:

· Os empregadores portugueses têm menores ‘custos do factor trabalho’ do que os suportados por congéneres espanhóis, italianos, suecos, belgas, checos e franceses, por força da TSU ser inferior a encargos do tipo, suportados por estes últimos;

· Os ‘custos do factor trabalho’ em Portugal situam-se acima dos valores pagos por empresários alemães, holandeses, polacos, irlandeses e britânicos;

· No conjunto de países estudados, cuja contribuição para o PIB da União Europeia está muito acima dos 50%, apenas a Polónia, em termos de constrangimentos de ‘custos do factor trabalho’, poderá representar ameaças à competitividade da mão-de-obra portuguesa, por efeito da similitude do perfil de desenvolvimento económico, se avaliado face ao tecido industrial português;

· Por divergências estruturais na indústria, ou em parte dos casos por efeitos dos benefícios da PAC (Política Agrícola Comum) usufruídos por Alemanha, Holanda e Reino Unido, a nossa economia, no todo e substantivamente, está longe de poder competir com os três países indicados, tornando-se falsa a premissa dos ‘custos do factor trabalho’ ser causa da falta de competitividade nacional.

Refira-se ainda que, entre os 27 Estados-Membros da UE, Portugal é 7.º país com um indicador de menor rendimento de trabalho. Malta supera-nos na 8.ª posição, conforme dados do Eurostat. Também não é pelo nível de salários praticados que a competividade do País fica afectada.

Em suma, no seio da União Europeia, a falta de competitividade da nossa economia não é influenciada pelos custos de mão-de-obra, mas sim por factores de subdesenvolvimento e estagnação do nosso aparelho produtivo, na indústria, na agricultura e nas pescas, nos últimos 35 anos. Desde os governos cavaquistas, lembre-se – estima-se entre 2 e 3 milhões de hectares o total de áreas agrícolas sem qualquer produção.

Nos cenários de défice financeiro e de globalização a que estamos submetidos, acentuados por óbvia carência de bases estruturais de produção com tecnologias avançadas, estamos condenados a competir com países de mão-de-obra barata: China, Índia e outros do género, e então, aí sim, o empobrecimento dos portugueses é a fatalidade da dívida externa, das políticas  da troika, à qual se junta outra: a gula de empresários tipo Sr. Saraiva da CIP e a vontade do governo de promover os despedimentos sem limites.

Enfim, fala-se muito do défice e da dívida externa, preocupantes na realidade, mas ignora-se, ou pior ainda, adensa-se deliberadamente o défice económico e social de vastos núcleos populacionais. O tempo o dirá, mas é legítimo suspeitar que, com troika e políticas de extrema austeridade, estamos a caminho de nos ver gregos.

Comments

  1. J.Pinto says:

    Desconhecia o estudo. Concordo com a análise que faz dos custos do trabalho, dizendo que não é pelos custos do trabalho que nós perdemos para outros países. Sem dúvida.
    Há muito que defendo esta visão. No entanto, olhando para a tabela, apraz-me verificar que, dos países que mais têm crescido e que mais investimentos conseguem atrair, alguns estão à nossa frente, suportando custos com a Segurança Social mais baixos. Mesmo não funcionado como uma ferramenta de competitividade das empresas, países com impostos mais baixos conseguem atrair mais investimento.
    A Irlanda e a Holanda, por exemplo, são dos países que melhor tratam os investidores.

    • Carlos Fonseca says:

      Caro J. Pinto,
      O quadro demonstra que a Irlanda e a Holanda têm ‘custos do empregador’ inferiores aos nossos, mas não é, por essa via, que conseguem a competitividade. Até porque os níveis salariais, de um e de outro país, são mais elevados do que os nossos.
      A vantagem competitiva daquelas países advém, sobretudo, de dois factores:
      1) As estruturas do tecido produtivo são muitos mais avançadas tecnologiamente do que as nossas – bastará ter em atenção que na Irlanda estão instaladas em força multinacionais de tecnologias de informação e comunicação e que na Holanda a Philips, a Dutch Shell, a Schlumberger fazem parte de um conjunto de empresas nacionais de grande projecção mundial; conte-se ainda com a dinâmica e resultados económicos proporcionados pelo porto de Roterdão, este sim uma grande plataforma logística que serve mercados próximos, com destaque para a Alemanha;
      2) A segunda ordem de factores prende-se com as políticas fiscais sobre as actividades empresariais – resultados de exploração das empresas – que, em ambos os casos, é inferior às taxas aplicadas pelo IRC português.
      No que se refere à Holanda, e também por via de custos fiscais mais baixos, ocupa posição de relevo como praça financeira para sediar empresas externas. Ainda hoje o jornal ‘Público’ refere este tema, citando que a Sonae SGPS tem um escritório em território holandês, a partir do qual lançou a OPA sobre a Portugal Telecom.
      Todas estas razões, e não os ‘custos do factor trabalho’, é que me conduzem à conclusão de que a redução destes custos não é o caminho para o desenvolvimento, mas sim a estrutura produtiva na indústria, na agricultura e nas pescas que, em Portugal, foi sendo depauperada desde há 35 anos (falo da CUF, da Covina, da Siderurgia Nacional, da Lisnave e de outras unidades que se deslocalizaram quando vendidas a estrangeiros).
      Preferimos construir estradas, estádios de futebol, mercados abastecedores, rotundas, hospitais em excesso, pavilhões gimno-desportivos, a Expo e CCB. Estamos a pagar a factura.
      Obrigado pelo comentário.


      • Vale a pena dar ênfase:

        Todas estas razões, e não os ‘custos do factor trabalho’, é que me conduzem à conclusão de que a redução destes custos não é o caminho para o desenvolvimento, mas sim a estrutura produtiva na indústria, na agricultura e nas pescas que, em Portugal, foi sendo depauperada desde há 35 anos (falo da CUF, da Covina, da Siderurgia Nacional, da Lisnave e de outras unidades que se deslocalizaram quando vendidas a estrangeiros).

        Preferimos construir estradas, estádios de futebol, mercados abastecedores, rotundas, hospitais em excesso, pavilhões gimno-desportivos, a Expo e CCB. Estamos a pagar a factura.

        Notar também que não foi só a deslocalização que deu cabo de muitas destas empresas. Foram mantidas administrações que mais parecia estarem a trabalhar para a concorrência. Assisti a isso, em primeira mão, na Lisnave.

        Excelente post, vou guardar.

        • Carlos Fonseca says:

          Caro Helder,
          Tu na Lisnave e eu na Divisão de óleos e Sabões da CUF a assistir ao desmembramento de empresas. Antes, estive 16 anos na Covina, fundadora da indústria mecãnica de chapa de vidro em 1936. Eramos 1200 trabalhadores e exportávamos vidro para vários pontos do mundo – da Austrália à Suécia. Hoje, nas mãos da Saint-Gobain, não passam de ser 22 assalariados a trabalhar num entreposto que distribui o vidro oriundo de Espanha.
          Quando ouço o PM e o Ministro das Finanças afirmarem que, nas privatizações, vão procurar vender as participações do Estado a investidores estrangeiros, a fim de conseguirem apoios ao desenvolvimento económico nacional, como deves imaginar fico verde.
          Um abraço

      • J.Pinto says:

        Caro Carlos,

        Foi exatamente isso que quis dizer. Não é pelos custos mais baixos que as empresas daqueles países conseguem ser mais competitivas, no entanto, aqueles países usam a baixa fiscalidade para atrair mais empresas.

        Os impostos baixos, como provam os números que o Carlos disponibilizou, não são uma ferramenta de competitividade das empresas, mas uma ferramenta de competitividade dos países.

        Claro que as empresas que se instalam naqueles países não procuram concorrer pelos preços baixos, para isso ter-se-iam instalado noutras paragens.

        • Carlos Fonseca says:

          Caro J. Pinto,
          Estamos de acordo: a par de mão-de-obra especializada, a factura fiscal, mais do que os custos do trabalho, é crítica para captar investimento estrangeiro e regenerar o tecido produtivo do País.