Hortênsia Bussi Soto de Allende: Uma sentida homenagem

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Tencha, porta de casa, aos 80 e vários anos, com a sua elegância habitual. Faleceu aos 95 anos.

 Hortênsia Bussi Soto de Allende nasceu a 22 de Julho de 1914, e faleceu em Junho 18, 2009. Formou-se na Universidade do Chile, em Santiago do Chile em História e Geografia. Para pagar os seus estudos, trabalhou como Bibliotecária do Gabinete Nacional de Estadísticas.

Conheceu um jovem estudante de medicina, Salvador Allende Gossens, filho de outro Médico, amigo da nossa família em Viña del Mar, cidade balnear da Província de Valparaiso. Mal conheceu ao jovem aspirante a médico da sua mesma Universidade, foi fulminada pelo encontro: amor à primeira vista.

Ensinou a sua ciência em colégios Secundários de Santiago e em Valparaiso e foi assistente da Cátedra na sua Universidade. Casaram, tiveram três filhas: Paz, que lhe dera vários netos e bisnetos, como Paz, Beatriz que falecera tragicamente na Ilha de Cuba, e a hoje Senadora Socialista do Congresso Chileno, Isabel Allende Bussi. Tia por afinidade da excelente escritora Isabel Allende, filha do irmão Ramón de Salvador Allende passou a ser praticamente a quarta filha dos Allende Bussi, ao partir Ramón para uma expedição sem rumo.

De ideologia Socialista, como Marx, social – democratas que queriam partilhar todo com todos, a elegante, gentil, senhora e mais do que formosa em corpo e alma, acompanhou ao seu amado marido em todas as campanhas para Senador. A partir de 1945, em campanhas que nunca mais pararam, decidido como estava a ser Presidente Socialista do Chile pela via eleitoral.

“Tencha”, a sua alcunha, o ajudara a fundar o Partido Socialista do Chile em 1933 e a escrever os seus discursos para esse grande orador que era o seu marido.

Marido que, licenciado em medicina, nunca foi capaz de exercer a profissão por causas das campanhas a Deputado entre 1937 a 1943, tendo ela que ensinar para apoiar a família e educar as filhas, com que fez com devoção de mãe que sabe acalmar a sua ninhada. Foi a eterna acompanhante do seu marido nas campanhas para Senador, e nas candidaturas a partir de 1945,  à Presidência nos anos 1952-58 e 65, até vencer e 1970.

Sabia do temperamento azedo, por vezes, do seu marido, e sabia acalma-lo e ensinou as suas filhas a lidar com ele até ele sorrir com essa elegância de Doña Tencha.

Foi a primeira-dama do Chile enquanto o seu marido era Presidente e no dia do assassinato dele, correu para o ajudar ao Palácio de La Moneda, mas os tiros de avião da Força Aérea do Chile e o incêndio da sua casa privada, a levaram a procurar refúgio a Embaixada do México, país no qual era a eterna embaixatriz do seu marido, como em outros países. Foi o seu braço direito e a sua representante, uma quase Presidenta do Chile.

No dia da morte, ela e a sua cunhada, a Senadora Laura Allende de Pascal, foram convocadas ao Palácio de la Moneda, entregaram-lhe uma caixa de tábuas selada com a inscrição NN- Laura e ela foram na ambulância com a caixa no silêncio da noite até o cemitério de Viña del Mar, onde a caixa ficou oculta em uma fossa, mas Doña Hortênsia e a Senadora Isabel Allende Gossens, a sua cunhada, saíram às ruas a acordar aos vizinhos aos gritos, aguentado o duro tratamento de coronhada que os soldados do Chile sabem dar, para denunciar: Saibam todo que dentro deste monte de escória, jaz a Sua Excelência, o Presidente da República do Chile, o meu marido, assassinado hoje pelos criminosos que me batem sem trégua enquanto falo”.

O México a acolheu e hospedou como a Primeira-dama que era e foi-lhe oferecida uma pensão de viuvez: tinha tornado a ser pobre e só. A sua cunhada não resistiu e deu cabo da sua vida.

Ao tornar a democracia, ela e família tornaram ao Chile para continuar a luta pelo socialismo.

Quarta a noite foi a cama como sempre, nunca mais acordou. O seu corpo está em exposição no edifício do Congresso Antigo, para receber a homenagem do povo, que a visita. Amanhã será o funeral de Estado, digno da Primeira-dama que foi, e simples, com essa simplicidade de vida que sempre amou. Morreu com dignidade: simplesmente continuo no sono eterno. …

Comunicado ao telefone, por via privada, após duas horas do seu decesso, sem se saber ainda a forma da sua ida à eternidade. Os comunicados precipitados, enganam. Tencha não faleceu não seu sonho: morreu a seguir o almoço, sentada no seu sofá, a debater política com a sua filha Isabel Allende Bussi, a Senadora. Argumentava com o seu dedo levantado para dar força ao seu argumento. Enquanto se debatia, faleceu. Faleceu como era….sempre a debater.

Raúl Iturra

Catedrático em Etnopsicologia

ISCTE-IUL CEAS-CRIA

Chileno e Português

lautaro@netcabo.pt

Sexta-feira, 19 de Julho de 2009, texto histórico e sentido, escrito duas horas a seguir o seu decesso. Publicado esse dia pela Página da Educação, da qual o autor é escritor.

Reescrito com parcimónia e serenidade a 25 de Setembro de 2011.