Sobre a Greve Geral de 24 de Novembro

Os números da adesão à greve, para mim, actuam como um bálsamo no espírito, ainda se pode ter esperança neste povo: parece que finalmente se começa a entender que este caminho só conduz a mais miséria

Ouvi há pouco um responsável da UE a dizer isto: os portugueses têm que sofrer, e vão ter de sofrer ainda mais, mas esse sofrimento é para terem um futuro melhor…

Isso traduzido é mais ou menos isto: hoje levas porrada mas amanhã o teu corpo todo negro irá certamente trabalhar mais e melhor..; hoje passas fome mas amanhã terás uma saúde de ferro… hoje és roubado mas amanhã terás mais dinheiro…

Mas alguém ainda consegue levar a sério o discurso político desta canalha politica que nos tem governado?
Das duas, uma: ou o discurso político dá uma reviravolta a bem ou terá que dar a mal.

A palavra produtividade é algo de muito abstracto, convêm concretiza-la bem nas frases em que a aplicam.

Vou dar uns exemplos de empresas com “pouca” produtividade, já que conheci de perto como são organizadas e como funcionam:

Empresas que são compostas por funcionários que de facto produzem mercadoria, e por funcionários que passam o dia sem fazer nada.

Em regra quem de facto produz recebe uma remuneração muito inferior a quem pouco ou nada faz. Resultados práticos: o valor produtivo desse tipo de empresas baixa consideravelmente, uma vez que grande parte dos seus potenciais lucros é disperso nessa gente não produtiva e parasita.

Consequências desses modelos empresariais: a modernização dessas empresas é bastante afectada pela escassez dos recursos líquidos que já disse para onde vão, para além do ambiente de incompreensão e revolta que é produzido pela aplicação desse tipo de política empresarial: quem é que trabalha de bom grado e com afinco sabendo que quem passa o dia sem fazer nada tem condição remuneratória muito superior?

Por isso é preciso ter cuidado quando se acusa alguém de pouca produtividade: como pode haver alta produtividade numa empresa onde 50 produzem e outros 50 vivem à custa dessa produtividade com salários superiores a esses 50 que de facto produzem mercadoria?

Estas coisas não podem ser tratadas de forma leviana, não se pode olhar só para um lado, se se pretende atravessar a estrada com segurança, com prudência, de forma consciente e com confiança convêm olhar para todos os lados.

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O governo faz de conta que não houve greve… e depois despreza a greve atirando com aquele número espectacular de quem aderiu à greve.

A CIP pelo seu presidente despreza na televisão o papel dos sindicatos e dos seus dirigentes, estes incomodam bastante então deveriam estar lá outros, certamente cãezinhos da CIP…

Isto está mais que visto que a bem não vai lá. Quando a vontade popular é assim desprezada, quando o governo actua em contradição com as promessas eleitorais, quando o governo é submisso de um poder externo, não-representativo dos interesses, desejos e vontades do povo português, então já não podemos dizer que vivemos em democracia nem o governo detêm legitimidade perante os eleitores.

Temos assistido a uma revolução silenciosa, uma revolução manhosa por parte dos interesses financeiros com o objectivo de destruir o nosso estado social. A única forma de combater essa revolução de falinhas mansas, inverdades e corrupção é derrubar este governo pela força, apelando às forças armadas para defender o povo desta tirania organizada através da submissão da soberania nacional a uma divida criada para servir estes objectivos de austeridade que visa nada mais nada menos que destruir o sector social do estado e destruir a noção de trabalho com direitos e deveres, substituindo-a pela subordinação absoluta do trabalhador aos caprichos do patrão.

Quanto mais cedo se mentalizarem disto melhor será para a maioria da população.

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Começa também a haver cada vez menos paciência para mentalidades como algumas aqui neste tópico, que pretendem calar o direito de opinião e a proposta de alternativas… Sempre ouvi dizer que quanto mais de baixas as calças mais enrabado és.

Por acaso alguém aqui sabe do que se está a falar quando se fala em ter de se pagar a divida? Que divida é essa? Em que moldes foram realizadas essas dívidas? Com que propósito foram contraídas?

Ainda me lembro do Passos Coelho dizer em campanha que quando fosse PM iria logo realizar uma auditoria pública à divida soberana. Horas depois lá veio o Cavaco puxar-lhe as orelhas e nunca mais se ouviu falar da tal auditoria.

Quem é que pode aceitar pagar alguma coisa sem saber do que se trata? De ignorância entre os governos e o povo acho que já todos estamos fartos. Qualquer cidadão é livre e tem o direito de exigir explicações e esclarecimentos sobre os assuntos de estado e da república.

Não vejo maior responsabilidade no nosso tempo do que exercer esse mesmo direito.

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Primeiro existem vários tipos de greves, mas a greve geral é para todos, e todos têm o direito de greve. Normalmente os trabalhadores do sector privado não aderem tanto como os do sector publico… mas e porquê? Porque o sector privado é cada vez mais uma selva, onde a protecção do trabalhador é cada vez menor, de forma a gerar a ideia de medo no trabalhador diante do patrão, quer dizer, pretende-se criar uma sociedade de escravos e patrões.. Que bom que é! Grande evolução social! Vamos no caminho certo! Enfim, é o que dá votar em governos pró-banca e a favor dos interesses do patronato.

Depois lá vem a conversa do comer e calar, do paga e não bufa, que eles é que sabem o que tem de ser feito… Mas afinal quem é que nos governou para esta situação? Ou não há culpados nem responsáveis, não há nem houve governos, não há nem houve quem criasse essa divida?

Façam as greves noutra altura.. Oh pá, isto se não fosse tão triste era a piada do ano. Os protestos devem fazer-se na altura em que se está contra seja o que quer que se esteja contra.

As dívidas quando não são nossas e nos pedem dinheiro emprestado para ajudar a pagar, como é que fazem? Emprestam o dinheiro à toa, sem saber do que se trata, sem saber se vale a pena ajudar a pagar? É que há dividas e dívidas.

Foi pelo povo andar de costas voltadas para a actividade política e para a actuação dos seus governos que a situação chegou a este ponto. Esse tempo acabou e não deve voltar mais. Porque senão dizer que se vive em democracia é só para inglês ver…

Texto de fredmarx / Cortesia de Criticamente Falando

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    É o nosso inalienável direito à indignação! Infelizmente há sempre quem esteja incondicionalmente ao lado do poder, mesmo que tenha de trabalhar como o cavalo Boxer de “O Triunfo dos Porcos”. A ignorância leva inevitavelmente à subserviência…

    • Nightwish says:

      Essa da ignorância tem alguma coisa a ver com as políticas de educação?


      • Tem a ver com a informação desigual que é transmitida, e não só pela “educação”.

      • MAGRIÇO says:

        É evidente que o rumo dado à educação não será o mais eficaz, mas a cultura não se adquire só nas escolas: é na vivência diária, com a partilha de experiências por parte, sobretudo, dos progenitores, com o convívio e, principalmente, com a frequência de bibliotecas e hábitos de leitura. Há, infelizmente, tradições que se perderam, como a das reuniões familiares em que os mais novos ouviam as experiências de vida dos menos jovens ou os enriquecedores contos tradicionais, e o gosto pela leitura foi substituído pelo gosto das bebidas alcoólicas, a biblioteca substituída pelo bar. O resultado é um povo ignorante, inculto e incapaz de decisões racionais face aos desafios da vida moderna. Há, evidentemente, honrosas excepções. Mas só confirmam a regra geral.

        • Nightwish says:

          E você acha que foi muito diferente ao longo da história? Porque é que os livros estão cheios de gente que tomava ópio e enfrascava whisky?
          É evidente que não se aprende só na escola, mas é o sítio ideal para aprender a questionar as autoridadezinhas, só que isso não interessa a ninguém…
          Ao menos temos a Internet hoje, por alguma razão a querem roubar.


          • Não sei se em 1984 quando aib«nda havia 40% de “analfabetos” isso implicava “ignorância” já que hoje tantos sabem ler e escrever orgulhosamente e alguns aé estando n governo central e regional acabaram por trucidar o país – será que com escolaridade (s) ajudam a fundar melhor o país – eu gostava muito dos analfabetos que até fazim agricultura e pescavam e nos alimentavam (78% das necessidades) e agora nem isso(menos de 20%) – quem é afinal ANALFABETO ?? ou os que governam são os filhos dos patos-bravos que foram para as universidades “privadas”
            ?????

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