Dos santos e dos demónios

Tens alguma razão, Pedro. Às vezes, são os documentos que provam muito do que se quer provar. E se é verdade que, à data da publicação do Ajuste Directo o Secretário de Estado era desde há 7 meses Elísio Summavielle, a verdade é que o contrato foi assinado antes, ou seja, a decisão política – que é aquela que interessa – não foi dele. Assim, o reconhecimento do erro implica um pedido de desculpas aos dois que, embora tardio, vem ainda a tempo.
Seja como for, toda esta questão levanta um problema cuja gravidade poderá ser ainda maior do que aquela que eu levantei com o post inicial – ninguém negou que Elísio Summavielle deverá ser o Director-Geral do Património nomeado por Francisco José Viegas, nem sequer o próprio Summavielle.
E é grave porque se trata de uma nomeação completamente despropositada. Para além de ser reconhecidamente incompetente, como o considera a generalidade dos agentes ligados ao Património português, estamos em presença de alguém que foi Secretário de Estado de um Governo cuja política para o sector é completamente oposta à que este Governo preconiza.
Segundo Francisco Sande Lemos, a verdadeira razão para a nomeação estará ligada à Maçonaria. Aliás, são rumores que têm circulado com muita insistência nos últimos dias.
Não sei se é verdade. Mas se for, a juntar a todo o conjunto de estranhíssimas nomeações da SEC que o próprio Insurgente já denunciou, estaremos em presença de um sintoma grave de promiscuidade política e de ligações perigosas que seria mais expectável num político com muitos anos de experiência do que num intelectual que tem apenas meia dúzia de meses de carreira.
Por último, uma nota mais pessoal: sempre tive um enorme apreço por Francisco José Viegas. Por ser um bom escritor, por ser do Douro, por ser do FC Porto, por ser um «bon vivant» apreciador da boa gastronomia e do bom vinho.
Se calhar por isso, a desilusão foi maior. Quando esperava alguém diferente, com hábitos diferentes e sem os vícios do meio, aparece alguém que nalguns casos ainda é pior. Como dizia o Fernando Nabais há uns dias, Francisco José Viegas está um político feito.
E a questão da Barragem do Tua resume toda a actuação política de Francisco José Viegas: a incoerência total em relação às suas posições do passado (sendo que, aqui, o passado é 2010) e a defesa de uma empresa privada, a EDP, em vez da defesa da Cultura e do Património. E para mim, não colhe a tua opinião de que é normal ter uma opinião como escritor e, depois, ter outra como governante.
Francisco José Viegas, sobretudo ele, não podia ser assim. Não tinha o direito de ser assim. E é por isso que me sinto completamente à vontade, sobretudo depois deste esclarecimento que fiz, para continuar a bater nele sem dó nem piedade nos próximos tempos. Mais do que qualquer outro, ele merece-o.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    Tenho grandes amigos do norte que são também adeptos do FCP, mas nunca me passaria pela cabeça seleccionar as minhas amizades, ou tão só as minhas simpatias, baseado nestes pressupostos. Dou prioridade ao espírito e ao carácter, independentemente da naturalidade ou opção de cor, e esta no sentido lato. Por formação, não gosto de fazer juízos de valor e não pretendo hostilizar o autor, mas confesso que acho de muito mau gosto, por me parecer pouco elegante e muito redutor, um certo espírito provinciano de regionalismo que não tem nenhuma razão de existir. O meu pai era natural do Porto, mas dizia, por graça, que era do Porto mas não era bimbo. A tão estafada e infeliz frase “é um homem do norte” explica esta declaração de independência do espírito regionalista.

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    Não tem nada a ver com isso, Magriço, o que eu escrevi. Gosto muito de Lisboa, a MINHA capital e uma das mais belas cidades do mundo. Sinto-me em Lisboa como se estivesse em casa e, em relação aos lisboetas, tenho uma opinião muito positiva.
    Escrevi que sempre tive apreço por Francisco José Viegas (que só conheço da televisão eods jornais) por várias razões. Destaquei o facto de ser apreciador de boa comida e bom vinho (lembro-me de textos dele sobre restaurantes que coincidiam exactamente com a minha opinião), destaquei o facto de gostar da escrita dele, destaquei o facto de ser do Pocinho, terra de comboios e de uma das mais belas paisagens portuguesas, destaquei ainda o facto de ser portista. Ou seja, destaquei algumas das afinidades que tinha com ele. Foram estas como podiam ter sido outras mais.
    Que tenha querido concentrar-se apenas neste último ponto é, para mim, estranho. Até porque não lhe reconheço o direito de me chamar provinciano.

  3. MAGRIÇO says:

    Caro Ricardo Pinto, não foi minha intenção ofendê-lo (não faz o meu estilo!) nem lhe chamei provinciano! Referi-me a uma prática generalizada de provincianismo que, estou certo, também reconhecerá, e que acho absurdo até pela dimensão reduzida do país. Se comentei apenas este facto foi porque se destacou, na minha leitura, pela negativa. Do facto de não ter interpretado o seu texto correctamente me penitencio e apresento as minhas desculpas.

  4. Ricardo Santos Pinto says:

    Claro que há uma prática generalizada de provincianismo que me irrita no Porto, sobretudo porque o Porto é a minha terra.
    Mas sabe o que dizia a Sophia de Mello Breyner? Não há maior provinciano em Portugal do que o português de Lisboa e a forma como ele vê a sua cidade e o resto do país.
    Ainda quanto ao texto, não consigo deixar de ter uma certa simpatia por quem é portista como eu. À excepção do Rui Pedro Soares, claro, e do Miguel Sousa Tavares quando se torna irritante – o que acontece muitas vezes.

  5. MAGRIÇO says:

    Sophia de Mello Breyner não será um exemplo de isenção porque era natural do Porto. Sou natural de Lisboa, mas julgo não estar a ser tendencioso se disser que nunca ouvi ninguém dizer ser um “homem do sul” ou chamar “morcão” ou “mouro” aos do Porto. Isto não significa que considere que uns são mais polidos do que outros porque há gente boa e gente que não presta em qualquer lado, mas parece-me que por cá não é muito comum cultivar (ou, pelo menos, não é tão visível!) qualquer complexo relativamente a outras regiões. Eu gosto muito de todo o nosso país, mas devo dizer que tenho especial preferência pelas paisagens do Norte: nunca me canso do Gerês, do Parque Natural do Alvão ou das verdes terras do Minho, por exemplo.
    Confesso a minha ignorância sobre as preferências clubistas de Rui Pedro Soares (só ouvi falar dele por motivos bem mais sórdidos) mas quanto a Miguel Sousa Tavares, concordo consigo. Normalmente acho os seus (dele!) comentários equilibrados, mas há quatro temas que deveria evitar abordar por manifesta incapacidade de isenção: o FCP, automóveis, crianças e cigarros.

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