Quem não sabe é como quem não vê

Deixando de lado a questão de fundo com que já se entreteve o Paulo Guinote, há no artigo do Daniel Oliveira agora republicado no Arrastão um detalhe de somais importância, este:

O fim da Formação Cívica bate certo com tudo o resto. A escola não forma cidadãos, forma amanuenses. E nada como cidadãos ignorantes dos seus direitos e deveres para continuarem a aceitar tudo de braços cruzados.

que me toca profissionalmente. Tento não escrever sobre educação no Aventar, onde no activo estamos quatro professores (bem regressado sejas João Paulo, espero que não te eclipses outra vez quando o teu Sport Lisboa chegar à páscoa), mas há limites.

A dita Formação Cívica começou por ser uma Formação Pessoal e Social  alternativa para os alunos que não tinham Religião e Moral, à mesma hora, como era de bom tom. Caiu o Carmo, a Trindade e deve ter ajudado a cair alguém no governo, íamos na década de 90.

Quando entrou em vigor, leccionada por quem estivesse mais à mão, acompanhou a genial ideia de cortar tempos e tempos lectivos à Geografia e à História. Como era previsível transformou-se num passatempo entre a prevenção rodoviária e o complexo mundo do civismo, que dá para tudo e não serve efectivamente para nada.

Os cidadãos, Daniel Oliveira, como deves ter percebido quando andaste na escola, formam-se enquanto tal aprendendo História e Geografia, que foram as vítimas de serviço ao anabenaventismo que tanto te comove. No caso da História ficámos com a mesma História da Humanidade para ensinar, mas com menos umas 70 aulas no 3º ciclo o que naturalmente se traduz em mais memorização e muito menos importância dada ao perceber porquê.

Que isto tenha tido uma maternidade supostamente de esquerda (e nem estou a pôr em causa que os seus responsáveis o sejam na sua vida quotidiana), tem de ser visto à luz do papel dos mestrados da bosta (calão docente da década de 80), vulgo Boston, e das ESE’s  onde inventaram o eduquês, a cretinização do ensino que ainda sobrava de Magalhães Godinho.

A Formação Cívica serviu para formar amanuenses, à conta da ignorância no saber social e humano das disciplinas fundamentais. Esta é a realidade, sobre a qual podia recolher várias anedotas, mas nisso sou muito corporativo e fico muito caladinho.

Comments


  1. Chamou-me a atenção a sua afirmação”…muito menos importância dada ao perceber porquê”.
    Esta é a ideia fundamental da compreensao da nossa essência como seres humanos, que “à luz do passado, interpretamos o presente e perspectivamos o futuro. O horizonte de sentido da nossa existência necessita do questionamento e de um reflexão crítica sobre a realidade. Em muitos países a Filosofia para crianças é uma disciplina essencial. Em Portugal, a Filosofia é apenas uma disciplina bi-anual do Ensino Secundário. Descubra as diferenças…

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Privado da sua história um povo entra em degradação – Sakarov
    No in
    icio da Guerra dos Mujahedin (assim se escreve ??) ouvi dizer o mesmo a um deles que andava de arma na mão para combater os “invasores” e até creio que foi reportagem de Barata Feyo de quem nada oiço há muito

  3. Daniela Major says:

    Adoro comentários como os do Daniel Oliveira. Nota-se mesmo, mesmo mesmo que nunca assistiu a uma aula de Formação Cívica. Eu lembro-me das minhas. Sobretudo, serviam para fazer os trabalhos de casa que não tinha feito em casa. Isso, ou falávamos com a professora, com os colegas, ouviamos música, à espera que aqueles malfadados 45 minutos passassem. Uma maravilha.

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