Imitação à vida. Ensaio de etnopsicologia da infância

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El Ângelus, 1857-1859, por Millet

Para os meus netos Tomas e Maira Rose, os van Emdem da Holanda, e Ben, May Malen, Javier, Max Raúl ou os Isley da Grã-Bretanha, fihlhas de repaigas nascidas Iturra- González.

Bem sei do filme que existe com este título* de 1956, com Lana Turner e John Gavin. Como todo leitor deve supor, não é do filme que queria falar, muito embora a temática seja semelhante ou tenha sido feita. Os adultos do filme imitam outros para aprenderem a viver e comportar-se como for conveniente aos roles que representam. Crianças que gostam de trocar papéis: a criança preta quer ser branca e tem vergonha da mãe que é preta, enquanto a criança branca adora brincar a ser preta para se agarrar às saias da sua ama africana. A criança africana diz ser filha da patroa branca, que imita atrizes para conseguir um papel no teatro. É assim que a imitação começa. A vida é aprendida da observação dos comportamentos adequados, como escrevi um dia num texto meu que Luís Souta corrigiu, com amizade e fraternidade. Mais uma imitação à vida: as correções do Luís estimularam a minha imaginação cultivada e treinada em ciência, criando assim uma outra categoria: a conduta conveniente. A conduta adequada é pública: saber falar, dizer as palavras atraentes, usar os vocábulos aceites em sociedade, cumprimentar de mão estendida, tirar o chapéu, e outras. Tal e qual me ensina Ana Paula Vieira da Silva no momento de fixar o português dos meus textos. A conduta adequada é a que corresponde ao grupo de pares com os que partilhamos a vida.

A criança sabe distinguir muito bem entre os dois tipos de comportamentos: se está com adultos, pede licença para sair da mesa antes dos adultos; se está com os seus pares, quem acabar primeiro é quem corre ao televisor para continuar a ver o filme que tinha começado antes do almoço. Com cortesia, solicitam se podem: bem sabe a criança que os adultos não vão dizer não pois a seguir seria uma birra de todo tamanho que não deixaria comer calmos os adultos, criança irrequieta porque os seus nunca mais acabavam a conversa, a calma de uma comida, as histórias que a mesa eram contadas e que aos mais novos nada interessava, não entendiam e o filme era mais interessante que as histórias antigas. Excepto, é evidente, se estiverem a falar dos pequenos, deles próprios: eles mandavam calar os adultos e completavam o conto à sua maneira. Adultos, esses, que calavam e permitiam, em silêncio, ouvir os cumprimentos que os pequenos ofereciam-se a si próprios, fossem verdade ou mentira. Na boca de uma criança, aliás, nunca há mentiras: há, sim, a sua forma de ver os factos e a sua interpretação dos mesmos; interpretação que o adulto deve entender sem acrescentar ou interpretar a realidade exposta pelos mais novos. Seria uma grave interpretação do que é educar e dar carinho. O adulto imita a vida enquanto é pai e mãe, aceitam o ideário dos pequenos e nunca dizem que não é verdade o que eles referem, fatos que vão mudando e com o tempo das crianças a crescerem. A doçura dos progenitores é mais uma aceitação das crianças e uma prova de amor e de estima, de emotividade e de orientar a sua vida pelas carícias das palavras e da segurança a dar aos petizes, confiança em si próprios, sem jamais puni-los. Se houver uma birra, dá-se ao mais novo um olhar para outro lado, ou com uma carícia, ou a ignorar a birra até esta passar. A criança imita à vida que os seus adultos emitem com o seu próprio comportamento. Como esse dia do voo de volta ao seu país de origem, imensas horas retidos no aeroporto ao mudar de avião e ter perdido a combinação. Os adultos, impacientes, debatiam um com o outro, perdido o imaginário de brincar aos aviões, de cantar aos bonecos, de se contarem histórias e de lembrar a praia, sumidos nas preocupações de horário e outros assuntos. Tomas e Maira disseram aos seus pais: as pessoas não se zangam, dão a mão e passeiam, é o que vós nos tendes ensinado. E os pais acalmaram e, como bons seres humanos que são, riam e brincavam com eles. As horas de espera passaram, assim, como uma incidente divertido que apenas a eles cabia entender com imaginação: Tomás imitava a musculatura e força do pai e Maira Rose alimentava a mãe com comida imaginada nas horas e espera do avião. Os adultos riam, como eu próprio, ao saber da história ao telefone, que me levou a escrever estas palavras como mais um texto de etnopsicologia das crianças.

A vida é imitação do real, se houver boa vontade do adulto para a criança. Esta aprende a ser feliz ao ser tratada com uma certa distância e nunca criticada pelas macaquices do seu comportamento. Imitação à vida é a reprodução do amor que os adultos têm entre eles e, por extensão, aos mais novos. Como acontece comigo, os meus filhos e os meus netos.

Porque ensaio de etnopsicologia da infância para palavras triviais? Ou as histórias não são reais, ou não têm importância? A metodologia de etnopsicologia da infância, que aprendida com o meu colega do Collège de France, Georges Devereux que procurou a teoria da psicanálise entre a etnia Mohave dos Estados Unidos. No seu ver, a teoria era de grande profundidade. Tinha ido por um ano, mas ficou três. Queria demonstrar o que escrevo no meu livro O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, retirando desse meu texto, o que comento a seguir, livro editado por Carlos Loures em 2011, no seu as viagens da Anaconda, http://aviagemdosargonautas.blogs.sapo.pt/334002.html , capitulo 4 do 13 de outubro de 2011. Para aquilo que não é mito, que vai além do mito, encontramos em Freud o complexo de castração, mola mestre do sujeito na psicanálise, eixo estrutural do sujeito dividido. Complexo que Georges Devereux quis provar não ser universal, e, já antropólogo, foi estudar entre a etnia Mohave dos Estados Unidos de América. Ele próprio, queria provar se a teoria de Freud era ou não universal e analisou a teoria psicanalítica dos Mohave, que soube explicar, após um prolongado trabalho de campo, em vários textos escritos em língua húngara, traduzidos para francês.

A castração marca a interdição, é da ordem do sacrifício. Tendo como contexto a via do mito da horda primeva naquilo que viabiliza a estrutura, como é o caso desse texto, nota-se que o facto dos filhos não puderem aceder às mulheres num primeiro momento hipotético não indica, necessariamente, que eles seriam, dali por diante, castrados, apesar de a lei já circular. Com o assassinato do pai fizeram um acordo, uma hipotética ordem social, um funcionamento viável ao instituir os dois tabus, donde se deduz o que deve ter passado pela subjetividade, cada um pôde assim renunciar e consentir em perda, submetendo-se à interdição.

Aqui encontramos a função do pai como agente da castração, o pai não é o castrador é antes o agente da castração, tendo a castração como enunciado de uma interdição. A função do pai na vida social é complexa. As análises dos autores citados e as dos seus comentaristas definem um papel de ser humano legislador. Perguntar-me-ia com Cyrulnik a quem pertence a criança, ao pai ou à mãe, ou aos dois? Com todas estas definições para entrar na mente cultural e nos secretos que as crianças guardam, frase retirada do título de um dos textos de Freud, como é possível amar?

Na minha própria análise, lembro-me de ter admirado o meu Senhor Pai sempre como um exemplo, com imensas virtudes e ensino pragmático sobre a vida. Nunca falou comigo de amores ou paixões, deixou a temática para a nossa Senhora Mãe, como narro noutros livros. Recordo-me perfeitamente que o nosso Senhor Pai, por capricho pessoal, pretendia que eu desse o melhor de mim em saber, em perspicácia, uma exibição tipo macaco do filho que ele amava e que não queria castrar. Soubesse ele ou não, que com a sua atitude, impingia na criança, uma imensa timidez e uma obediência cega. Ensinou-me música, ao ouvirmos juntos discos gravados de autores clássicos e barrocos. Lembro-me ainda, de ter aprendido a ler no seu colo, enquanto ele lia os seus livros eu ouvia o concerto para violino em Ré de Tchaikovsky aos meus 4 anos. Esta era uma imitação à vida, quer na minha história pessoal, quer na dos Mohave. Freud já não era vivo para defender a sua teoria, escrita por Devereux em 1977 e por mim, e 2011. O complexo de castração teria ido a vida, se vários de nós não tivermos feito trabalho de campo e etnias onde a criança defendia os seus direitos, com a sua teimosia de ser menino só e que impunha-se nos seus pais, co as birras analisadas ates. Apenas que essa castração era mitológica e passava mal se entrava na idade da puberdade e aprendia-se a fazer amor com as raparigas dos sonhos das crianças modernas.

À imitação a vida acaba e entrava-se na idade da vida, acaba e entrava-se na idade da reprodução y do prazer erótico nos namoros reprodutivos ou para satisfazer uma libido que ninguém contestou como teoria, mas sim foi aceite como parte da vida natural e normal, como acontecia com os Mohave de Devereux e os Picunche das minas análises. O comportamento ao contrário, seria estranho. Nos meus tempos de puberdade, lá vão anos, havia mulheres para casar e outros para penetrar. Hoje em dia essa diferença acabou e o namoro começa na cama, e pode ou não acabar em acasalamento. Estranho seria hoje se a castidade fosse a lei, quer com sexos diferentes o do mesmo sexo, facto que acontecia antigamente, mas era oculto. Hoje, é aberto e puxante, ninguém critica o que é natural: deixar-se guiar pela libido. A vida não se imita, realiza-se, acontece. Não se imita, materializa-se ou de forma heterossexual ou dentro do mesmo sexo ou, ainda, das duas maneiras, esse agir da bissexualidade, permitido hoje após Devereux e os Mohave e as minhas análises dos Picunche ou dos Baruya de Maurice Godelier, na Nove Guiné. Ou entre pessoas amigas do mesmo sexo, no nosso continente e país como tenho estudado do norte ao sul da nossa nação, especialmente na Madeira.

Suficiente, quem queira saber mais ou lê os Mohave ou meus livros e ensaios sobre a liberdade de amar. A vida não se imita, materializa-se ou por amor ou por erotismo que acalma a adrenalina manipulada pela libido e a tiroides. A primeira, é ativa. A segunda, faz da pessoa um sujeito passivo, calmo e sereno.

O livro pode ler-se na Viagem dos Argonautas ou o repositório do Iscte-Iul ou no internacional, http://www.rcaap.pt

Ou diretamente da Net: http://br.monografias.com/trabalhos-pdf/saber-criancas-psicanalise-sexualidade/saber-criancas-psicanalise-sexualidade.shtml

Ou em http://biblioteca.iscte.pt/bibliopac.htm

Tenha paciência, paro neste linha! A vida não se imita, veve-se!

*Retirado dos meus livros de notas de trabalho de campo e do meu livro citado no miolo central o saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade

Parede, 5 de Junho de 07 a história real

Parede, 14 Dezembro de 2011, à imitação.

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