Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 8 – Sant’Anna Dionísio (I)

«Tua, est (E.), na margem direita do rio Douro.

O sítio é, ao mesmo tempo, grandioso e tristonho. Junto do entroncamento não há povoação alguma. O rio, enorme e de leito xistoso, corre a dois passos. De um lado e  outro, despenhadeiros. Defronte, ao cimo, situa-se a aldeia vinhateira de Nagoselo. Mais no alto, à direita, oculta-se a antiga vila de Soutelo do Douro.

O comboio, de material antiquado, com locomotivas da era do Fontismo, ou as automotoras, movidas a gasoil, um pouco mais rápidas, mas muito baloiçantes, saem da estrada em sentido inverso (isto é, na direcção do Poente), acompanhando por momentos a margem direita do rio Douro. A estrada para Carrazeda de Ansiães passa por cima da linha. Eis a confluência.

Afastamo-nos do Douro e entramos na garganta pedregosa e alcantilada do afluente. De relance vê-se a graciosa ponte moderna, de betão, que dá passagem à estrada de Carrazeda para Alijó, assim como o longo viaduto, misto, de pilares de granito e tabuleiro metálico, de vigas encanastradas, da Linha do Douro, cuja vista rapidamente se perde.

Transpõe-se um pequeno viaduto e imediatamente se trespassa um breve túnel, cortado no flanco rochoso do despenhadeiro. À saída surge a garganta encaixada entre caóticas penedias.

Alcantis formidáveis!

O Tua corre em baixo, num leito pedregoso, de xisto, poído por mil enxurradas. A linha contorce-se, em arriscada cornija, talhada à custa de intrépidos trabalhos em que, por vezes, os engenheiros e os operários jogaram as escondidas com a Velha da Foice. É ver, por exemplo, este pedaço de patamar, suspenso sobre um muro de suporte que parece uma verdadeira varanda-do-diabo. O rio, em baixo, referve em pequenas cachoeiras.

– 4 km, Tralhariz, est. (D.)

Prosseguindo, descobrem-se novas e impressivas perspectivas da alcantilada garganta. A via férrea continua na sua audaciosa cornija, assente em consecutivos muros de suportes. Trespassam-se três pequenos túneis e um breve viaduto. Paisagem de insólita beleza, geológica e mais do que geológica: sideral, pois o céu visto daqui, deste corredor de fraguedos, tem um novo e indefinido sabor transcendente que não se experimenta, de modo algum, quando se percorre uma região plana e simplória. O firmamento é realmente astral e não um simples pano-de-fundo.

Ao cimo descobre-se o casario de S. Mamede do Tua; vila morta, rodeada de três ou quatro centenas de laranjeiras que lhe dão fama suficiente para poder deitar-se na cama, esquecendo-se de plantar as três ou quatro mil que lhe eram possíveis. Defronte ergue-se um bronco promontório, esquálido e agigantado, que vai, quase a prumo, sobre o contorcido leito. Do lado de cá, os lajedos não são menos declivosos. Estamos no dificílimo passo, rico de despenhadeiros, conhecido pelo nome de Fragas Más.

Os montes, que se sobrepõem de um lado e do outro, parecem carcaças titânicas, restos da frustrada escalada aos domínios de Jupiter. O promontório, que há instantes nos oferecia um aspecto feio e informe, revela agora, num instante fugitivo, o fino perfil de uma alada penedia que bem merecia ser desenhada pela fanasmática pupila do ilustrador do Inferno de Dante.

A linha segue na base da selvática garganta.»

(continua)

Sant’Anna Dionísio, Guia de Portugal

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Comments


  1. Obrigado pelo convite.Já sou conhecido no Norte.A LINHA DO TUA como a do TÂMEGA ,SABOR e CORGO,eram PATRIMÒNIO DO ESTADO,de utilidade pública.Ninguem pode invadir a linha ou destruir,ou andar a pé pela linha.O chefe de distrito da estação do Tua,levantava um AUTO DE NOTICIA á EDP e era enviada para tribunal.Assim é que era feito.Mas a EDP já deve ter comprado os traidores,que não sei quem são,estou muito longe para julgar.No século vinte e um uma empresa destruir a linha do Tua.e o rio Tua.? a

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