Desabafos de um exilado


Obrigado a permanecer em sombrio degredo na capital deste País dois terços da semana e coagido à jorna por entre políticos e seus satélites, consegui ao fim de meses e meses de árdua investigação e profundo estudo, alcançar que nestas gentes e nestes meios há uma subtil dicotomia: os que são lisboetas e os que estão lisboetas.

Os que são lisboetas, uma óbvia minoria, distinguem-se pela sua procedência, ou seja, não procedem por que já cá estavam. E já cá estavam os seus Pais. E já cá estavam os seus Avós. São poucos, porque a maior parte dos lisboetas que por castigo divino aqui nasceram, não se coíbe de falar, com os olhos lacrimejantes de saudade, da sua querida terrinha (que, evidentemente, não é Lisboa).

Já os que estão lisboetas reconhecem-se pela sua enorme argúcia pois descobriram que podem ludibriar a naturalidade e, como quem não quer a coisa, passarem por nativos desde que lhes copiem os trejeitos. Assim, incham o ego até este fazer fronteira com o Uzbequistão, ostentam os talentos que irrelevantemente podem ou não ter, efeminam o registo vocal e obliteram antigas pronúncias, encaram o próximo com a grandeza dos predestinados, etc., etc., etc.

E diga-se em abono da verdade que não deixam de ter sucesso (e razão) porque por estes lados, grassa a soberba e a presunção. É como se o Barroco se limitasse ao Rococó.

Para agravar, os que estão lisboetas, normalmente, não reconhecem as ténues linhas da impostura e ficam mais lisboetas que aqueles que são lisboetas. E isso é supinamente patético.

Deus ou outra qualquer entidade todo-poderosa me ajude a resistir e a continuar “Tripeirinho da Silva”. Porque, sinceramente, e como está tão na moda, ser Portuense é, claramente, um avanço civilizacional.

Comments

  1. Texto brilhante! Adorei!

  2. que riquezinha de desabafo cheio de regionalismo crítico. 🙂

  3. MAGRIÇO says:

    O autor que me perdoe se estiver enganado, mas parece-me detectar neste texto uns laivosinhos do tradicional regionalismo bacoco do “sou um homem do norte, carago”. Se me permitir, gostaria de contribuir para acabar com o seu tão sofrido degredo lembrando-lhe que, quer em Sta. Apolónia quer na Portela, se vendem bilhetes para qualquer lado só de ida. E talvez festejassem o seu regresso à avançada civilização matando o mais gordo borrego do rebanho. Não é tripeirinho da Silva quem quer, mas se tem complexos de naturalidade naturalize-se lisboeta.

    • ui, magriço, que agora até fiquei gorda de vontade de te dizer que estás magro de perceber opiniões – escanzelado, até – diferentes das tuas. tenho a certeza que por cá, para onde vem esse tal bilhete da ida que dizes, também se distinguem viveres e pensares de barroco e rococó sem terem como objectivo a ofensa. 🙂

  4. Estimado Magriço, até parece que estamos, mais uma vez, em lados opostos! 😉 Mas não, não estamos!

    Acontece que a minha leitura do texto do Carlos Garcez Osório foi feita com olhos globais; enquanto lia passavam-me pela mente nacionalismos sórdidos, patriotismos cretinos, regionalismos patéticos e bairrismos ignorantes… Na verdade, não se trata só da velha e parva rivalidade entre tripeiros e alfacinhas, mas do arraigadas que estão as diversas divisões entre seres que, sendo individualmente diferentes na sua essência, são sem sombra de dúvida iguais na sua localização planetária!

    Além disso gostei, no texto, do estilo e da linguagem utilizados!

  5. MAGRIÇO says:

    Cara Isabel, eu também gostei da forma, mas o conteúdo, tenho de admitir, já me cansa um pouco. Bairrismos e regionalismos não fazem, de todo, o meu género: sou Português, com muito orgulho, e isto implica gostar tanto do norte como do sul, do este como do oeste. Infelizmente parece haver quem se julgue melhor por ter nascido onde nasceu e considere os outros inferiores. Sei que, na maior parte dos casos, são meros complexos de inferioridade que os faz porem-se em bicos de pés, mas há coisas que, por tanto repetidas, nos esgota a paciência.

  6. Fiquei aqui a pensar com que facilidade se fazem, assim como quem não quer a coisa, e de forma tão instantânea, interpretações tão diversas de uma mesma coisa! Isto leva-me a ponderar que quiçá o silêncio para com os demais e o diálogo de nós próprios com nós próprios seja efectivamente uma atitude de bom senso… Enfim, cogitações de um fim de tarde ensolarado… 🙂

  7. Sim, caro Magriço, até aí estamos de acordo! Mas já reparou que esses bairrismos e regionalismos e outros ismos tão patéticos quanto estes estão irremediavelmente patentes e são subrepticiamente incentivados pelos idiotas que decidem os destinos do país? Basta comparar o litoral com o interior, as cidades grandes e as cidades menores do interior, as infraestrutras de umas e de outras, a qualidade de vida de umas e de outras…

    Se aqueles que estão no topo, e não falo só de políticos mas também de grandes empresários, grandes investidores, exemplificam com as suas atitudes os “ismos” que lhes vão no peito, como não houvera o povo, bem mais ingénuo e inculto, de os seguir e imitar!?

  8. MAGRIÇO says:

    Diz muito bem, Isabel: os ismos são incentivados por idiotas. Daí que será obrigação dos “outros” não pactuarem com idiotices. Se calarmos o nosso desacordo não só estamos a consentir como a contribuir para a expansão de um fenómeno que tem tanto de patético como de elitista. Não concorda?

  9. Carlos II says:

    Concordo consigo, quando diz que os “piores” lisboetas, os mais centralizadores, são os que nasceram noutras paragens. Mas discordo de si, quando defende que as “famílias” dos “Tripeirinhos da Silva”, são muito melhores do que os “lisboetas” de “gema” (ou sem “gema”), que não são. Os Tripeiros, desculpe lá, não são muitos melhores do que os Lisboetas, são é menos: a grande diferença está na quantidade, até porque muitos renegaram a sua terra e, hoje, como muito bem disse, estão lisboetas.

  10. Sim, Magriço, vistas as coisas por esse prisma, concordo inteiramente! Confesso que nunca compactuei com os ismos e que são raras as vezes que esses comportamentos não me enervam profundamente!

  11. Excelente!

  12. Excelente!!

  13. Só num mês, lisboa desvia 244 milhões de euros da Região Norte para a capital. É o tal famoso efeito difusor: investir em lisboa é investir em Portugal.
    Só por isso viva o regionalismo e porque não o separatismo. Já repararam que lá no Norte já existe um Partido do Norte. Não tarda pedem a independência e nos vamos viver das exportações das queijadas de Sintra. Infelizmente eles têm razão e isso envergonha-me. Cheira que os da capital, lisboetas ou não, se comportam como colonialistas e isso é irremediavelmente verdade

  14. Íris Disruptiva says:

    Eu olho para isto e vejo verdade, assim como olho e vejo mentira. Há com certeza um vasto leque de exemplos desta realidade em Lisboa. Isto é tão verdade que, não é a primeira e não será a última vez que, tantos lisboetas vêm ao Porto e, em jeito de desabafo, me dizem que a gente do norte é muito mais gente. Também é mentira, visto que em Lisboa há gente que é gente, e é excepcional na sua qualidade humana. É como em tudo: não há palavras que sirvam para detalhar todas as realidades existentes em simultâneo. Acho que para isso serve o silêncio. Para nós que gostamos de falar e dizer o que nos vai na alma, escolhemos as palavras de acordo com o retrato que se pinta. E que belo é este feio retrato!

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