A gema de fora

adão cruz

Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela ele acordou acordou como sempre com pedaços do passado agarrados ao pijama às mãos e aos cabelos.

Sentou-se na beira da cama e um sonolento oh que merda soltou-se da garganta ainda seca do bagaço da véspera quando os pés palparam a falta dos chinelos.

Moldou os passos ao chão de modo a evitar a madeira fria do soalho.

Sobre a cómoda continuava a tristeza à mistura com águas-de-colónia de vários tipos.

Abriu um sorriso quando viu no tapete o artigo que acabara de escrever na véspera e que o sono fizera escorregar-lhe das mãos.

Dera-lhe o título Orgasmo inspirado numa dessas tardes em que o fim do domingo abre as portas à demência.

A caminho do quarto de banho ia pensando nas palavras que nada dizem e na flatulência da comunicação que o fizera deitar-se tão tarde e acordar assim com a gema de fora.

Sempre nele permanecera uma grande dúvida quanto à eficácia de debates como o da véspera.

Será que têm algum valor como profilácticos da deterioração mental que a idade e os tempos acarretam ou são eles próprios catalisadores dessa mesma deterioração?

Sobretudo se tais debates não passam de confusas sinfonias de mediocridade e estupidez discutindo pessoas reles factos ridículos ideias banais estafadas e apodrecidas.

Sobretudo se tais debates se processam entre corruptos golpistas e terroristas que invadem as casas maquilhados de gente de bem e cobardemente espantalhados de homens dignos.

Sempre pensara que não deve transformar-se em espectáculo o perigo da lavagem dos rostos com o sabão da ingenuidade.

A verdade é só uma e ele não aderia de ânimo-leve à tese de que cada um teria a sua verdade.

A verdade existe está lá está sempre lá dentro das coordenadas humanas.

Há quem dela se aproxime e quem dela se afaste mas o único caminho da verdade é o caminho do entendimento e não há lucidez que não assente na razão.

Sem deixar de se considerar que a irracionalidade é o caminho das trevas cada um tem o direito de escolher o seu caminho da verdade mas aí tem-se o direito de o julgar pela escolha se se conhece a formação ou a deformação a inteligência ou a indigência a humildade ou a petulância o rigor ou  a confusão a seriedade ou a manigância.

Grande respeitador do relativo e da cultura da diferença considerava-se adversário do consenso do consenso acima de tudo que destrói e anula o indivíduo e da tolerância tolerância como virtude que implica sempre alguém que tolera e alguém que é tolerado.

Acordou mal disposto porque não acreditava na existência de debates fluidos corajosos e pedagógicos e mesmo assim cedera-lhes parte do seu tempo de sono.

Convidar tanta gente de caras e tantas caras de gente fazer cócegas em temas profundos inacessíveis a mentecaptos meter num mesmo saco capazes e incapazes lúcidos e ineptos fazer de assuntos sérios estéreis discussões criar espectáculos de feira sem receio de sujar a consciência e ofender a verdade era mais do que razão para o incómodo acordar dessa manhã.

Já no café da esquina deu de caras com a mulher de longos cabelos negros rosto comprido e olhos paradoxalmente achinesados a quem pedira há cinco anos atrás para posar para si.

Esguia quase linear de uma beleza que parecia desenhada a sua figura prendia os olhos que nela tocavam.

Sempre que a via recordava-lhe alguém e bulia com qualquer coisa dentro dele.

Na mesa do lado via-se que um outro homem seguramente um habitante dessas ilhas que se escondem no ventre da cidade tentara encontrar uma camisita de riscas verdes a condizer com o verde das calças se bem que mais escuro aceitava-se não era muito boa a combinação mas percebia-se a ideia.

Já não era de aceitar tão facilmente aquela senhora vista de trás relativamente escorreita blusa da moda e saia quase mini moldando formas enganadoramente jovens que o virar da cara logo atraiçoava ao denunciar as engelhas dos setenta.

Ninguém tem nada com isso e se mentalmente o comentava era porque considerava o sentido do ridículo irmão gémeo da inteligência.

Uma outra senhora tentava limpar com um guardanapo de papel os pingos de baba que o marido por força de tentar sorrir deixava escorrer dos lábios inertes sobre a gravata cinzenta.

Deve ter sido acometido de acidente vascular cerebral mesmo hemiplégico nem por isso deixou de sugerir com a mão válida que a mulher esfregasse suavemente o guardanapo um pouco abaixo da fivela do cinto ao que ela acedeu de maneira afável e sorridente.

Em paga ele abriu o livro de cheques e mostrou o que havia por lá.

Ela arregalou os olhos e inspeccionou-lhe com falsa displicência o pavilhão auricular tentando arrancar-lhe docemente uns pêlos esbranquiçados e eremitas que teimaram isolar-se do mundo cabeludo.

Ciente de que a poderosa dinâmica da vida quer se queira quer não reside no sexo não tinha dúvidas em aceitar que o homem do livro de cheques optaria se fosse possível dar-lhe a escolher por poder levantar o pénis em vez da mão paralítica.

Do outro lado uma mulher cheirando a perfume que tolhia bafejou os óculos limpou-os a um pequeno lenço e pô-los em contraluz para ver o resultado mas os seus olhos em vez de fitarem o vidro fizeram esguelha para o companheiro que tinha na frente o generoso cruzar de pernas de uma dessas liberais criadoras de pulsões.

Na televisão as eméticas telenovelas e todos os Bancos caridosamente solidários a abrirem uma conta para as vítimas dos incêndios.

Comments


  1. que tempestade. gostei muito.:-)

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.