E a dívida alemã?

Manuel António Pina, hoje no JN

Gostaria de ver os arautos dos “mercados” que moralizam que “as dívidas são para pagar” (no caso da Grécia, com a perda da própria soberania) moralizarem igualmente acerca do pagamento da dívida de 7,1 mil milhões de dólares que, a título de reparações de guerra, a Alemanha foi condenada a pagar à Grécia na Conferência de Paris de 1946.

Segundo cálculos divulgados pelo jornal económico francês “Les Echos”, a Alemanha deverá à Grécia em resultado de obrigações decorrentes da brutal ocupação do país na II Guerra Mundial 575 mil milhões de euros a valores actuais (a dívida grega aos “mercados”, entre os quais avultam gestoras de activos, fundos soberanos, banco central e bancos comerciais alemães, é de 350 mil milhões).

A Grécia tem inutilmente tentado cobrar essa dívida desde o fim da II Guerra. Fê-lo em 1945, 1946, 1947, 1964, 1965, 1966, 1974, 1987 e, após a reunificação, em 1995. Ao contrário de outros países do Eixo, a Alemanha nunca pagou. Estes dados e outros, amplamente documentados, constam de uma petição em curso na Net (http://aventar.eu/2011/12/08/peticao-sobre-a-divida-da-alemanha-a-grecia-em-reparacao-pela-invasao-na-ii-guerra-mundial) reclamando o pagamento da dívida alemã à Grécia.

Talvez seja a altura de a Grécia exigir que um comissário grego assuma a soberania orçamental alemã de modo a que a Alemanha dê, como a sra. Merkel exige à Grécia, “prioridade absoluta ao pagamento da dívida”.

Comments


  1. E as compensações pelo contrato dos submarinos?
    Porque continua Portugal a pagar aquilo aos alemães?
    Eles andam a pregar, “quem nos deve que pague, a quem devemos que espere!”
    Não está certo.

  2. J.V. says:

    Um comissário alemão para controlar as crónicas do António Pina. Já!


  3. “Arautos dos mercados”!? Quais mercados? Vivemos num mundo bizarro!

    Eu vejo muito poucos defensores dos mercados. O que vejo é a defesa de interesses de alguns grupos, reinando sobre todos eles o sector financeiro da economia.

    É certo que temos problemas estruturais aos quais um pouco de austeridade não faz mal nenhum, mas esses não são os maiores problemas. Importa distinguir entre a crise estrutural que temos em Portugal e noutros países da outra crise, muito mais grave, que é a crise financeira. O nosso problema estrutural é produto de termos vivido à custa dos dinheiros da UE, de petróleo barato e, finalmente, de crédito barato, em vez de termos tido um crescimento assente na produção de coisas que dessem para vender aos outros.

    A crise financeira, que se arrasta desde 2007, é devida à ganancia do sector financeiro e à respectiva desregulação. É esse o problema que, de uma forma ingénua, os governantes europeus querem resolver obrigando os países a pagar uma dívida que muitas vezes nem é deles (foi dívida transferida dos bancos para os países). Esta actuação não é de um arauto do mercado, é de um tonto que não percebe até que ponto o sector financeiro está alavancado.

    Não temos arautos de mercados, temos defensores das corporações, esses já têm outro nome.

  4. Jorge Anyous says:

    È verdade com a Alemanha Unificada está por pagar uma imensa dívida de guerra que os alemães querem esquecer.E então com os gregos os alemães têm mesmo moral para pedir contas?Partem-lhes o país matam a seu belo prazer os nacionais e passados estes ainda não pagaram nada. Seis décadas depois vêm cobrar e humilhar os gregos e chegam ao desplante de quer um comissário seu em Atenas.Ainda devem julgar que têm as Waffen SS e os seu carniceiros.A Grécia não tem dívidas para com a Alemanha faça um acerto de contas e ainda recebe dinheiro e não é pouco.Curioso este mundo onde vivemos.

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