Acordo ortográfico: o entusiasmo de Henrique Monteiro

Henrique Monteiro publicou, no sábado passado, um texto dedicado “a Vasco Graça Moura e a todos os opositores do Acordo Ortográfico”. Uma vez que pertenço ao segundo grupo, decidi, sem me alongar, retribuir a gentileza da dedicatória, deixando, hoje, alguns comentários, começando por remeter os leitores para um outro texto do incansável João Roque Dias.

Henrique Monteiro começa por se referir à sua “adesão pessoal ao Acordo Ortográfico (AO)”, expressão algo infeliz pelo que contém de entusiasmo, num assunto que exigiria ponderação. Logo a seguir, explica que essa adesão se baseia em “confiança e humildade”, uma vez que confia na “sabedoria de quem o fez” e é “suficientemente humilde” para reconhecer que lhe escapam muitos aspectos “que dizem respeito à etimologia e à fonética, tais como outros menos relevantes para este caso”, o que prenuncia algo de bom, uma vez que parece reconhecer importância à etimologia e à fonética.

No que se refere à confiança que deposita nos autores do AO, seria interessante que Henrique Monteiro tivesse aprofundado os motivos que o levam a desconfiar de quem critica o dito AO. De qualquer modo, isso fica resolvido de uma penada, porque os opositores são classificados como “pessoas que apenas se opõem ao Acordo “porque sim” – sem quaisquer argumentos.” Talvez por distracção, Henrique Monteiro ignora a existência de várias críticas consistentes feitas por linguistas competentes, ao longo dos últimos vinte anos.

Apesar da humildade com que confessa um desconhecimento generalizado de etimologia e de fonética, Henrique Monteiro não se coíbe de chamar “pai tirano” ao Latim e acaba a defender que a escrita não tem influência nenhuma na aprendizagem da fala, como se esta se fizesse exclusivamente à custa daquilo que se ouve. A aprendizagem de uma língua é um processo complexo que implica a interdependência de vários factores: a cruzada de muitos acordistas que defendem que não há nenhuma influência da escrita sobre a fonética é de um simplismo desmentido pela realidade.

A existência de características regionais pode servir para provar o efectivo peso da audição e do meio em que se aprende a falar, mas não serve como argumento para desvalorizar a importância da escrita como elemento de uniformização da própria fala, ou não contivesse sinais diacríticos e várias regras que servem para indicar o timbre de determinadas vogais ou a acentuação das palavras. Aliás, Henrique Monteiro parece viver num país em que a aprendizagem da língua é feita sem recurso à escola, com os aprendizes entregues àquilo que ouvem nas ruas. Assim, será graças à frequência da escola que, por exemplo, um aluno portuense ficará a perceber que é legítimo dizer baca, mas que é errado pronunciar voi.

Prosseguindo um percurso delirante, defende, ainda, que não tem importância criar mais homografias, recorrendo ao costumeiro argumento do contexto para resolução de dúvidas, como se a compreensão de um texto não dependesse de um sistema ortográfico consistente que, no mínimo, não aumente o número de homografias, fonte inevitável de ruído na comunicação, como o próprio AO admite, nos raros acessos de bom senso, quando, por exemplo, defende a manutenção do acento circunflexo em “pôr”.

Apesar da ignorância confessa, Henrique Monteiro não prescinde do direito a explicar que o desaparecimento das consoantes mudas não contribuirá para aprofundar o fechamento das vogais, dando alguns exemplos e contrariando Rebelo Gonçalves e, mais recentemente, Francisco Miguel Valada, autor de um artigo na Diacrítica, uma revista que não está propriamente aberta à colaboração de amadores nestes assuntos da língua.

O texto continua penosamente, com Henrique Monteiro a tentar demonstrar a importância de aproximar “uma série de palavras da fonética”, o que é importante porque não quer uma língua que o distinga do Brasil, preferindo uma que o aproxime, como se o AO tivesse criado essa língua. É claro que o cronista queria referir-se à aproximação das ortografias, mas, se pensasse um pouco, facilmente concluiria que, ao basear-se na fonética, diferente em Portugal e no Brasil, o AO cria diferenças que não existiam antes, mantendo outras que já existiam, contribuindo para a confusão.

Já se sabe que o jornalista Henrique Monteiro escreveu um texto de opinião, mas nunca hei-de perceber que se possa vestir a pele de um cronista, despindo o salutar hábito da investigação jornalística que deveria estar subjacente ao tratamento de um assunto que está para além de entusiasmos ou de emoções. Com alguma confiança e com muita humildade, proponho a Henrique Monteiro que comece por aqui.

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  1. […] uma vez, a propósito do chamado acordo ortográfico, tive ocasião de me aperceber da pequenez argumentativa de Henrique Monteiro, ou, na melhor das hipóteses, do desleixo de alguém que, por ter uma tribuna prestigiada, deveria […]


  2. […] Depois, prescindindo da modéstia, remete os leitores para outra crónica da sua autoria, cujo conteúdo corresponde, na sua própria opinião, a uma “argumentação mais aprofundada.” Tive ocasião de escrever sobre esse texto. […]

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