Krugman contra Krugman

O prémio ‘Nobel da Economia’, atribuído a Paul Krugman, não lhe vale o estatuto de analista transcendente, cujos pensamentos e análises económicas sejam imunes à incoerência e a críticas. Vem a Portugal para ser agraciado com o grau de ‘Doutor Honoris Causa’, atribuído em dose tripla pelos Reitores das Universidades de Lisboa, Universidade Técnica e Nova de Lisboa.

Krugman, em artigos em ‘The New York Times’, tem-se revelado opositor de programas de austeridade de que os países europeus em dificuldades, Portugal incluído, têm sido alvo – por imposição de políticas de contenção orçamental, impostas pela Alemanha, argumenta.  Segundo o jornal ‘i”, e referindo-se a Portugal, o conhecido economista norte-americano considera:

Se estiver a gerir uma nação periférica e a troika pedir austeridade, não tem outra escolha a não ser a opção nuclear de sair do euro.

Esta e outras afirmações consonantes são, de facto, a eloquente demonstração de que, para Krugman, a austeridade não é o caminho para os portugueses vencerem a crise.

Por efeito de estranho fenómeno comportamental, dissonância cognitiva, psicológica ou mero desleixo no estudo aprofundado sobre a realidade económica e social de cada país europeu, Krugman, em contradição com a reprovação da austeridade, surpreendeu-nos com esta recomendação em 17 de Maio de 2010:

Krugman acha que Portugal deve baixar salários

Este título da notícia do ‘Jornal de Negócios’, ontem publicada, se, porventura, continua a reflectir a opinião actual de Krugman, revela um erro grave de apreciação. Em termos salariais e de relações de trabalho, lembre-se, as retribuições de 2011 foram fortemente penalizadas para os funcionários públicos, houve um imposto extraordinário sobre os subsídios de Natal da generalidade dos trabalhadores e, no ano de 2012, grande parte dos rendimentos de trabalho e de reformados da f.p. bem como de pensionistas do sector privado, só em cortes dos subsídios, terão uma redução de 14,28% do rendimento anual.

Deve ter-se em conta que Krugman propôs uma redução de 30% em relação aos salários da Alemanha. Em 2010, segundo o Eurostat, a comparação entre Alemanha e Portugal dos ‘custos mensais da trabalho’, encargos patronais incluídos, levava aos seguintes resultados:

Custos Mensais do Trabalho (euros)

Alemanha

4007 euros

100,00

Portugal

1754 euros

43,77

A diferença em desfavor dos portugueses é, portanto, de 56,23%. Em resultado das reduções entretanto aplicadas desde Janeiro de 2011 a divergência aumentou e muito, para prejuízo dos trabalhadores.

Nem sequer lhe interessou verificar que as estruturas dos tecidos económicos da Alemanha e Portugal são totalmente distintas e, infelizmente, não competimos com a indústria alemã.

Desta história das contradições de Krugman, nasceu-me a ideia de sintetizá-las através do título ‘Krugman contra Krugman’. Ao jeito de ‘Kramer contra Kramer’, esse excelente filme com Dustin Hoffman e a insuperável Meryl Streep. Igualmente multi-premiado com ‘óscares’. Nem de propósito, no dia seguinte a mais uma gala em que Meryl Streep voltou a ser contemplada.

Umas vezes premeiam-se saberes e talentos; outras, mitos. É a vida.

Comments

  1. Pedro M says:

    As contradições não são de Krugman, são do nosso jornalismo de merda que não se dá ao trabalho/ não sabe interpretar um texto ou verificar fontes. Começou tudo pelo JdN e a jornalista do regime Eva Gaspar, que é incompetente ou pela via da capacidade intelectual ou da falta de ética.

    E desengane-se quem achar que republicar estas falsas “notícias” de 2010 na véspera de Krugman dar um discurso que vai ser uma abada na austeridade é pura coincidência.

    Quem gosta de pensar pela sua cabeça em vez de ler os cabeçalhos da imprenso tuga pode ir aqui ás 17.00 assistir ao discurso.

    http://www.ul.pt/portal/page?_pageid=173,1503983&_dad=portal&_schema=PORTAL

  2. Carlos Fonseca says:

    #1
    Também duvidei no texto, conforme pode ler.
    Todavia, como passa para a opinião pública, ao meu modesto nível, acho que devo denunciar até para se apurar a verdade.
    Vou sair para a Aula Magna. Obrigado pelo convite. Moro perto.

  3. Tiro ao Alvo says:

    Fiquei a saber que o amigo Fonseca sabe o que é uma regra de três simples (que, aliás, é uma fórmula muito útil), mas que não serve para a comparação que quis fazer e para defender o que o amigo tinha em vista. Portanto, se quiser entender destas coisas, tem que continuar com os seus estudos e a escutar e a ler quem sabe: gente da esquerda, da direita, de baixo e de cima. Sem preconceitos, apenas com vontade de apreender.

  4. Zuruspa says:

    Já se sabe que no cömputo geral se ganha em Portugal bem menos que 80% do salário médio alemäo.

    O que nós sabemos é que:
    – os trabalhadores portugueses ganham menos de metade dos seus congéneres alemäes
    – os gestores portugueses ganham o mesmo *ou mais* que os seus congéneres alemäes, especialmente os de topo, seja no público seja no privado

    O resto é conversa para boi dormir. Proletarizou-se a “classe média”, e agora há um buraco enorme entre os chefes de equipa e os directores. Que se alarga quando propositadamente manipulam as palavras de Krugman para baixar ainda mais o salário de quem realmente trabalha. Pudera, pois assim até podem subir os salários dos gestores de topo, fica-se na mesma bem àquem dos 80% da média alemä que Krugman referiu!

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  1. […] Posted on 28/02/2012 por Carlos Fonseca A convite do primeiro comentador deste ‘post’, Krugman contra Krugman, assisti à homenagem a Paul Krugman, Nobel da Economia em 2008, na Aula Magna da Reitoria da […]

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