Liberdade: o único sonho de um homem

 

(foto: crabbygolightly)

Penso nesse homem muitas vezes.

É norte-americano, esteve preso 35 anos, condenado a prisão perpétua por um crime que não cometeu. Que não cometeu.

Passou 35 anos a repetir que estava inocente. Quantas vezes 35? Histórias como esta acontecem, não são ficção. A Justiça não só é cega como também é surda. O tribunal não ouviu o homem uma única vez e, por isso, à custa de tanta repetição, a voz de Bain extinguiu-se. Tanto foi assim, que Bain recorreu a várias formas de chamar a atenção: na última vez que compareceu a tribunal usou uma t-shirt com a inscrição not guilty.

Não fossem os testes de ADN, James Bain iria passar também o Natal de 2009 longe da mãe, e acabaria por cumprir a insuportável pena que lhe calhou por um grande azar. Não é que tinha características idênticas às do verdadeiro culpado? Disse que “não está zangado e que a sua fé o ajudou”.

Eu bem que gostaria de saber como passava os seus dias atrás das grades… O que pode fazer uma criatura presa injustamente ao longo de tanto tempo? Como se aguenta?

Desperta-me ainda mais curiosidade o que fará agora, hoje, que é um homem livre.

Imagino-o a tomar banho nu na ribeira ou no rio ou no mar da sua terra natal.

Imagino-o a caminhar, descalço, massajando os pés na areia quente da praia.

Imagino-o a saborear a boa comida da mãe sem lágrimas, agora que estão juntos. Como lhe deve parecer maravilhosa!

Imagino-o a visitar, com todo o corpo, todos os lugares conhecidos através das centenas de livros que terá lido. Imagino-o a tentar empreender as mesmas loucuras da sua personagem predileta. 

Imagino o seu guarda-roupa: a t-shit “Not Guilty” pendurada para recordação ao lado de mais de 300 outras, coloridas, com a inscrição “Livre” para usar todos os dias!

Saiu em liberdade uma semana antes do Natal. Ainda a tempo de passá-lo com a mãe que nunca desistiu!

Mas não há indemnização milionária que possa apagar os erros da Justiça e compensar 35 anos tirados a uma vida.

James Bain, uma história verdadeira.

Comments

  1. MAGRIÇO says:

    É possível que erros destes nunca sejam completamente eliminados de qualquer sistema judicial, mas julgo que seriam substancialmente reduzidos se houvesse a coragem de responsabilizar os magistrados pelos erros grosseiros que cometem.. Em qualquer profissão os erros estão sujeitos a sanções disciplinares ou mesmo criminais, e não se compreende que os magistrados sejam os únicos acima da lei, podendo cometer impunemente as maiores arbitrariedades. No caso dos EU, a maioria até é cometida por puro racismo.


  2. Lá como cá, justiça e magistrados estão acima da Justiça! E um olhar atento pela história antiga e recente não deixa espaço a dúvidas: as maiores injustiças têm sido e são cometidas no âmbito da própria justiça!

    Sabe lá o homem o que é a Justiça! Sim, porque a justiça que faz é a justiça que o satisfaz!


  3. Espero que ele possa desfrutar da sua liberdade, como a Céu diz. É que depois de 35 anos…
    Recordo um dos melhores filmes que vi, “Os condenados de Shawshank”, onde se mostra que, depois de passar décadas na cadeia, a vida em liberdade pode tornar-se num martírio.

    Mas nem sempre é assim. Espero que não o seja neste caso.

  4. Dora says:

    Se estivesse preso num estado onde vigorasse a pena de morte, estava tudo arrumado.

  5. marai celeste ramos says:

    E sobretudo um homem que clama assim e durante 35 anos não poderia terem sido reavaliadas as suas características de ADN mais vezes ´porque afinal até com o ADN há erros – decoorreu já este ano na TV uma série com os condenados em Portugal e em que a justiça falhou – e acabou por ser feita – Não é nada mais triste do que falhar com coisas essenciais como com (1) o solo de portugal fértil para agricultura e destruí-lo com IP ou habitação e ter de importar lixos (2) com construlção de barragens só para dar $$ a construtores e ficar sem ÁGUA e sem vida do rio (peixes,desporto e pesca ddesportiva,fertilização das margens com agricultura+desporto nacional e internacional+praias fluviais-economias) e por fim (3) o bem mais precioso por se estar vivo – a LIBERDADE (mesmo sendo pobre) – e o tempo “roubado” a uma vida

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