Uma bacalhoada salazarista.

Estive na última edição da FITUR – feira internacional de turismo de Madrid -, onde Portugal, mais uma vez foi vencedor entre os expositores. Pelo desenho do pavilhão e creio que pelos “produtos” apresentados. Pode parecer que tudo está bem, mas não. Olhando com atenção para cada um desses produtos em promoção e em particular para uma conhecida rota de património, reparei que a mesma integrava um conjunto europeu de itinerários culturais. O folheto publicitário era atractivo: da Saxónia à Sérvia, de Itália a Espanha, cada uma das instituições destes países e regiões promoviam actividades paralelas ao âmbito cultural da visita: termalismo, pedestrianismo, rafting, escalada, passeios a cavalo, esqui e ciclismo, entre outras. Portugal, promovia o folclore e um prato de bacalhau assado com batatas.
E depois ficam eriçados com a marca Salazar de Santa Comba Dão? Promover ditadores, ou facínoras (que de resto a maioria dos países já faz) é bem mais original que tentar vender o tradicional ranchinho folclórico ou uma bacalhoada.
Além disso, se há coisa com que os autarcas deste país podiam fazer dinheiro é com o ar decadente e demodé das suas vilas e cidades cheias de rotundas, chafarizes e obras por acabar. Lembro-me que nos anos 80 os estrangeiros vinham a Portugal à procura de pobreza e de todos os estigmas associados. Visitar um país em ruínas, cheio de torres eólicas com estradões em terra mal amanhados, lojas fechadas, desemprego e mendicidade parece-me uma boa aposta turística.
E deixemo-nos de coisas, há mais salazares em nós que numa garrafa de vinho – caso contrário não passaríamos o tempo a bebê-lo acompanhando um dos mil pratos de bacalhau com que atraímos os turistas.

Comments

  1. Ricardo Santos Pinto says:

    Andas mal, amigo, quando ignoras propositadamente que a gastronomia é parte intrínseca da cultura de um povo. E que, no caso de Portugal, pode potenciar de forma extraordinária o nosso turismo. Gastronomia e vinho. Quantos nos visitam apenas por causa disso?
    Não digo que a gastronomia não possa ser associada a outras ofertas culturais como as que referiste. Aliás, não sei a que Rota do Património te referes 🙂 , mas dizer de forma depreciativa que «Portugal, promovia um prato de bacalhau assado com batatas» é, desculpa que te diga, um bocado escaganifobético.

  2. Tito Lívio Santos Mota says:

    eu, por mim, considero que aquilo a que se chama “turistiamente” folclore é tudo menos folclore e tem de factos mais fedor salazarento que perfume tradicional.

    Folclore é outra coisa e até é do melhor que temos em Portugal.
    Só que os “ranchos” não o são !!!!!

    Quanto à mania que temos de nos rebaixar, já cansa, já cansou e até já basta.
    Estamos mal, pronto, mas daí a continuar a meter-nos mais baixo que terra, NÃO !

    Se não sabem apreciar Portugal, pergunte-se a quem nos visita.
    Ou aos que vivem fora de Portugal.

    Como dizia Levy-Strauss (para mim o mais importante pensador do século XX) : para apreciar uma cultura é preciso um “olhar distanciado”.
    E é sem dúvida o que falta aos portugueses sobre Portugal.


  3. Ricardo, a gastronomia é um importante componente mas ninguém vem de França ou do Reino Unido só para comer em Portugal. E o vinho é um excelente produto para exportação. Há muito mais que isso, deve haver, pelo menos. E um dos graves cancros deste país é o folclorismo.
    De resto, sr. Tito Lívio, não são os portugueses que rebaixam o país, são eles que se rebaixam a si próprios individual e colectivamente. Gente que não pensa além de um “vira do minho” ou uma “chula”, que acha que o melhor que tem para oferecer é um prato de bacalhau com batatas, inferioriza-se.

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      Agora sim, já concordo inteiramente consigo, Nuno Resende.
      Se era isso que queria dizer, retiro parte do que disse acima.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Sobre o folclore, tens toda a razão. É uma coisa horrorosa.
      Sobre a gastronomia, nada adiantas em relação ao que já disseste antes. Um prato de bacalhau com batatas não é só um prato de bacalhau com batatas.
      Ninguém de França vem cá de propósito por causa do bacalhau, é capaz de ser verdade. Mas também ninguém vai a França para fazer termas ou pedestrianismo.

      • Tito Lívio Santos Mota says:

        os meus bisavós iam a termas a Vichy, mas faz cem anos, lol

        Quanto ao bacalhau, não precisam vir a Portugal. Não há terra francesa sem associação portuga que sirva bacalhau 🙂

  4. insulas ocidentaes. says:

    Um pouco bolor salazarento não destoará por certo,em tantas e apregoadas modernidades…

  5. nascimento says:

    Bem postado Sr Nuno!!!

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