Lucília

Lucília, posso contar a tua história? Tinha sido um dia longo, a fechar uma ainda mais longa semana e, mesmo assim, nos teus olhos escuros vi réstias de esperança no lugar da revolta que, justamente, de ti se poderia ter apossado. Podes, mas publica só à noite. Não quero que o meu marido saiba pelo Aventar.

Conhecemo-nos há quanto tempo? Desde Coimbra, há mais de vinte anos, portanto. Desde esses mesmos vinte anos em que és professora sem contrato de efectivo porque o estado não te dá o que exige aos privados. Todos os anos tem acontecido o mesmo, chega Julho e ficas dois meses sem trabalho nem salário porque não és efectiva na escola e tens que concorrer. Muitas vezes ficaste na mesma escola e até já a consideravas tua, como esta onde leccionaste este ano. Mas este ano será diferente.

Esta semana foi uma confusão. Os alunos ainda não se inscreveram todos mas o ministério exige que o teu director comunique de quantos professores vai precisar. Mas como, perguntei eu que, não sendo professor, me escapa a subtileza deste planeamento, como é que ele poderá indicar o número de professores necessários se ele ainda não sabe quantos alunos vai ter? Se as matrículas ainda decorrem, porque é que o ministério não planeia os prazos de forma realista? Foi então que me explicaste que, em consequência deste calendário, um grande número de professores teria que concorrer. E que, face ao histórico dos anos anteriores, até talvez ficassem na mesma escola.

Mas este ano é diferente. A lotação das turmas foi aumentada, as disciplinas foram mudadas e se agora até professores do quadro estão sem alunos, então o que será dos contratados como tu? Hoje, Lucília, ficaste a saber que terás que concorrer, deixando para trás os alunos a que te afeiçoaste. Mas concorrer para onde, se também as outras escolas estão com os mesmos problemas?

E mesmo assim, ainda senti em ti essa garra que nunca te deixou desistir. Olha, disseste-me, se tudo correr mal, voltamos para a aldeia, para as terras dos meus pais que agora são baldios. O P. não está a conseguir arranjar trabalho aqui, logo nada nos prenderá cá.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    A Maria João Avilez está na Sic (Sic 24H) a elogiar a eis ministra da Educação e o exaequo Gaspar-àlvaro – agora a lusófona
    Bem mais comentadores mas mais comedidos no bater neste governo mas mais no tempo ex que não aproveitram com a almofada que havia antes da Troica – se aninhar nela (e gosts tanto que não sei) + Espanha a Grande e os Grandes de Espanha – vamos ver – FMI há um, mês que com mais austeridade o governo fica em causa


  2. Desde esses mesmos vinte anos em que és professora sem contrato de efectivo porque o estado não te dá o que exige aos privados.

    Não sou professor. Não entendo como podem tolerar, os professores, esta situação. Simplesmente não entendo. Revoltem-se! Façam fundos de greve, queimem a 5 de Outubro, qualquer coisa. Estar nesta situação de precariedade durante 20 anos não é admissível, não é salutar, nunca.

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