Rui Miguel Duarte sobre o acordo ortográfico: a razão das raízes

Rui Miguel Duarte é Doutorado em Literatura, investigador do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e poeta. Tais habilitações merecem, no mínimo, que as suas opiniões sobre a língua portuguesa devam ser lidas com atenção.

No passado dia 17, saiu um texto seu sobre o chamado acordo ortográfico (AO90) no Público. Podem lê-lo aqui.

No âmbito da importância da etimologia para o futuro da língua, já tinha tido oportunidade de fazer referência a um texto de Fernando Paulo Baptista.

Rui Miguel Duarte reforça a argumentação e complementa-a com a sua experiência de professor de Português Língua Estrangeira no Luxemburgo. É possível concluir, dessa experiência, que a manutenção de consoantes etimológicas, independentemente do seu valor diacrítico, é fundamental para que os falantes de várias línguas europeias percebam mais facilmente a ortografia portuguesa.

A propósito, não se percebe como é possível defender o AO90 e pensar que a sua aplicação contribuirá para a internacionalização da língua portuguesa: por um lado, a ortografia afasta-se da Europa; por outro, não chega a aproximar-se dos países lusófonos.

Comments


  1. É muito interessante que este tema ainda esteja a dar. (Depois das férias, se calhar, as anedotas do Relvas vão voltar). A questão não é ser pró ou contra, isso é atitude muito lusa, é estranha forma de ser, que a lado nenhum leva. A questão é a seguinte: os professores (alguns não, suponho) já começaram a ensinar segundo o acordo nas escolas, os livreiros (alguns não, suponho) já reconverteram os manuais, então não se pode agora pedir que, os professores entrem na sala e digam Meninos vamos esquecer tudo o que ensinei e vamos aprender de novo, nem aos livreiros que deitem o seu investimento para o lixo. Portanto, a questão central não é ser contra o acordo e ficar sentado nas universidades a ser sábio e perito, é ação, é fazer, é formar um grupo que pressione alguém (os mercados?) para que empreste dinheiro para que se retroceda à grafia antiga ou se evolucione para uma “melhor”. boa semana


    • «Evolucione» é um bom exemplo do rumo do «evoluir». Verter verbos das 2.ª e 3:º conjugações à primeira conjugação (evolucionar por evoluir, direccionar por dirigir, visualizar por ver, &c.) não é uma riqueza?!… É com monólitos assim a fazer de cacholas que se topa o «evoluir» do idioma.
      Olhe, se um seu filho se meter por maus caminhos não no tire de lá. Deixe que ele «evolucione».
      Pf!

  2. Bruno says:

    Para quando é o debate na AR para revogar esta aberração da língua portuguesa? Já tarda a revogação disto, pois falo e escrevo português e não uma língua qualquer dum plante distante.

  3. Maria Manuela Lopes Félix Costa says:

    Continuo a dizer que estou à espera que o Sr. presidente da República anule o presente AO (AO90), como bom português!

    • Maquiavel says:

      Espera sentado que de pé cansas-te. Foi esse “bom português” que o promulgou sem reservas. Deve ter ganho pouco das editoras brasileiras, deve… mas tadinho, compreende-se, que ele o que ganha näo dá para as despesas…

  4. nulo says:

    Caro Taxi Pluvioso,
    O que é que pensa que os professores disseram quando começaram a ensinar segundo o dito AO90! não foi esqueçam o que ensinámos durante decadas. Não vejo qual é o problema de se rectificar um disparate (eufemismo) !!


    • Está bem, mas de onde vem o dinheiro? pelo que li, a saúde leva corte de 200 milhões em 2013, a educação ainda não se sabe, mas não será meigo. Em 2014 a coisa andará pelo mesmo, pois as despesas do Estado estão 10% acima do PIB. E nos anos seguintes será a mesma dança de cortes de despesas. A questão é sempre de onde vem o dinheiro? dos países ricos do norte, é melhor esperar sentado.

      • nulo says:

        Pena não ter feito essa pergunta quando os iluminados ainda não tinham posto o país decócoras com as PPP, o AO90, as auto-estradas, os PINes que não eram tão Nacionais, enfim tantas oportunidades que parece que você perdeu de se manifestar contra o esbanjamento. Provavelmente estaria a atestar o depósito na preparação da travessia do deserto que se antevia. Mas isso são outras conversas!

        Quanto ao AO90 é mais fácil que o que você e muitos outros pensam, é só preciso querer ser Português, o resto arranja-se.

        Você e os outros que não gostarem da ideia podem ir para o Brasil praticar o português do Sertão ou para Paris tirar cursos, já que durante uns bons anos não vão ter hipótesse e tirar mais nada aos Portugueses.

        • nulo says:

          “… já que durante uns bons anos não vão ter hipótese de tirar mais nada aos Portugueses.”

          Lapsus digital. :))


        • Claro que este comentário, por manifesta iluminação, deveria ter sido feito há 20 anos.

          • nulo says:

            Caro Taxi,
            Penso que apesar da sua reacção – bolas para canto e chutos para onde está virado – ou talvez por isso mesmo, nota-se que a carta chegou ao Garcia.
            Dou como encerrada a minha intervenção com um pedido de desculpa ao AFN pelo desvio ao tema.

      • Pedro Marques says:

        Óh esperteza saloia, e já pensou no dinheiro que se gastou e se gasta com este acordo que é bem pior que o Brasileiro e manda às couves as suas raízes.


  5. E donde vem o dinheiro para esta m…?


  6. Ora cá temos o nosso Nabais na fase final da silly season anti Acorto Ortográfico do Público.

    È interessante que diga que quem está a favor do AO não o leu. E é interessante porque é frequente ler que, por causa do AO, vamos passar a escrever “o cagado anda de fato na praia”; será que estes opositores ao AO leram o AO? E depois também há uma apresentadora que escreveu que nunca vai aderir ao AO porque não quer começar a dizer “pago” em vez de “pagado”; será que esta opositora ao AO leu o AO? E há também outra figura que diz que “abrupto” se vai passar a escrever “abruto” por causa do AO; e este, terá ele lido o AO? Afinal, quem não leu o AO?

    Depois também nos diz que os especialistas são contra o AO, o que mostra bem que as meias verdades também fazem mentiras completas. Então, não há especialistas a favor do AO?

    Fica a questão económica; Nabais, como vc muito bem sabe, o lobby dos maus tradutores usa como um dos fundamentos da oposição ao AO os danos económicos que temem sofrer por via da aplicação do AO. Uma vez que é assim, quem usa argumentos económicos para tomar posição sobre o AO?


    • Meia verdade (passe o eufemismo) é vossemecê colar as asneiras de catálogo de quem não representa ao argumentário contra a escrita abrasileirada que adensa para aí a já proverbial imundície do Diário da República. Porque não refere vossemecê os livros de António Emiliano, Miguel Valada, ou qualquer dos inúmeros artigos publicados anos a fio na imprensa?
      Ainda assim esses pobres ignorantes que foi buscar como exemplo de nada têm mais cultura no sistema circulatório do que os interesseiros que nos querem fazer crer que escrever tolices como «ata», «conceção», «fémea» (com acento agudo, sim; está no Acordo, na base XI, § 3.º, imagine) ou «setor» promovem o idioma internacionalmente como nunca antes se viu; pois veja só http://www.temoignages.re/le-creole-bresilien-remplace-officiellement-le-portugais-au-portugal,55127.html .
      E tenho impressão que vossemecê nem ao nível da interesseirce chega. É simplesmente mais um ignorante a querer fazer dos outros burros.
      Cumpts.


    • Tome mais esta da internacionalização do português.
      http://ilcao.cedilha.net/?p=7108

    • António Fernando Nabais says:

      Obrigado, Silva. A “silly season” só fica completa com os seus contributos.

  7. Rui Miguel Duarte says:

    Caro António Fernando Nabais,
    Agradeço ter-me citado. Foi apenas mais um contributo, do meu ponto de vista de classicista. Entendo que muitos, e complementares, podem ser os motivos contra o AO, pese embora uns com mais peso, na actual conjuntura. António Emiliano, que, como é sabido, até simpatizaria com a grafia pré-1911, desvaloriza no entanto a questão etimológica, em virtude dos golpes que recebeu desde então. Impossível é pois regressar remotamente. A actual grafia está suficientemente razoável como base de trabalho. E não descarto, como procurei demonstrar, a etimologia, os cognatismos, como uma reserva que designei “ecológica”: daquelas coisas imprescindíveis à preservação de um eco-sistema mais global, cuja destruição acarreteria perdas com repercussões no todo. Reserva ecológica para a construção, a viagem necessária do pensamento. As palavras não são apenas meio, mas objecto de pensamento, de exploração, de devaneio. O filósofo, o teólogo, o poeta precisam da etimologia, da verdadeira ou da paronímica.
    Ainda a propósito da minha experiência luxemburguesa (mas noto que vivo em França, junto à intersecção da tripla fronteira franco-belga-luxemburguesa). Como testemunho conta o AO, costumo citar o contra-exemplo do Luxemburguês. Língua nacional, e também oficial, a par do Alemão e do Francês. Durante séculos foi o falar da identidade nacional de uma pequena região (que já foi maior do que é) sucessivamente disputada por diversas potências. Só muito recentemente foi estabelecido um padrão linguístico ESCRITO. Do Luxemburguês que aprendi, guardo fotocópias de documentos didácticos com grafias variantes dos mesmos vocábulos. Note-se: não havia e não há apenas variações fonéticas, mas havia-as também escritas. Casos de vogal dupla (foneticamente longa), como no interrogativo: “waat?” ou “wat?” Outro exemplo: do verbo sinn “ser”, a forma si/sin/sinn, sendo que a presença ou ausência de -n final explica-se pela chamada regra do “n”: não cai antes de palavra começada por vogal ou consoante dental (n, t, d, n, z). Mas -n simples ou duplo, existe a alternativa. A ortografia, de vez, padronizada é alternativamente si/sinn. Diz-se comummente, que o Luxemburguês se aprende apenas para falar, com vista à integração e interacção de estrangeiros com os nacionais, e nos locais de trabalho. Mesmo nos critérios de avaliação dos cursos de língua para estrangeiros, a expressão escrita ainda é por vezes dispensada. Hoje, porém, já se vai exigindo, em anúncios de oferta de emprego, o domínio dessa competência.
    O Português aqui, porém, como o Francês ou outra, deve ser avaliado também neste domínio. Donde as ligações que são possíveis fazer com línguas afins. E não apenas nisso: dentro de uma mesma língua, ainda que se não façam referências a outras, a constituição de famílias de palavras (etimologicamente próximas) ou de campos semânticos (palavras que partilham semas, mas de étimo diferente, como “cadeira” e “assento”) são estratégias prescritas e aconselhadas no ensino das línguas (vivas ou “mortas”).
    Ora, precisamente o Português: a compreensão escrita, e a expressão escrita, estão a ser postas na gaveta com o AO, graças ao princípio fonético: a escrita mais não é do que a transcrição de sons (chamei-lhes “grunhidos”). Para serem consequentes, faltavam outras coisas: eliminar o h- inicial, por exemplo. Ou simplificar adoptando o msn-oguês como a ortografia oficial. O Luxemburguês, língua falada por meio milhão de pessoas (contando com estrangeiros residentes), padroniza-se, procura, como todas, um padrão, um mínimo denominador comum gráfico, a despeito das alofonias regionais; com o Português, consagra-se o oposto: a pulverização de alografias (a permissão para implementar variações — quase — irrestritas), em nome das alofonias…

  8. Rui Miguel Duarte says:

    Acrescento (por lapso): O Luxemburguês, língua falada por meio milhão de pessoas (contando com estrangeiros residentes), o Português euro-afro-asiático, com, talvez, 55 milhões de falantes (Portugal, PALOP, Timor Este, Portugueses na diáspora)…
    E há quem, do lado acordista, deplore que é uma língua praticamente extinta, face ao Golias Brasil

  9. Joaquim Costa says:

    Não entendo como não entendem que a Língua portuguesa deixe de evoluir, quando tem evoluído, desde que se desprendeu do latim!…Há séculos!…Por que temos ensinado os fenômenos fonéticos?!…Caramba…Deixem a língua evoluir!…

    • António Fernando Nabais says:

      Caro Amorim
      Não percebo que relação existe entre os fenómenos fonéticos e o chamado acordo ortográfico. Que fenómenos fonéticos ou outras modificações verificadas nos últimos trinta ou quarenta ou cinquenta anos justificam as alterações propostas? Para que serve um acordo que, afinal, não cria uma ortografia única, ao contrário daquilo que é anunciado? Como é possível, de qualquer modo, querer criar uniformidade ortográfica com base naquilo que é, inevitavelmente, diferente (a pronúncia)? Que sentido faz acrescentar palavras homógrafas e grafias facultativas, mesmo sabendo que já existiam algumas nas reformas ortográficas anteriores e, deste modo, acrescentar dificuldade a quem tem de ensinar e aprender português? Se a fonética deve ser, segundo se depreende do que afirma, o critério organizador da ortografia, há muitas modificações ainda por fazer, como, por exemplo, acabar com o H inicial ou substituir o “o” por “u” em palavras como “pato”, não lhe parece ou passar a aceitar que se escreva “Medecina”, já que é assim que se pronuncia. Se a pronúncia é o critério, aliás, que sentido faz a existência de regras ortográficas?

    • Rui Duarte says:

      Nenhuma evolução (gosto mais do termo transformação) linguística é imposta, ou deve ser, por decreto. É natural. Como escreveu António Fernando Nabais, as diferenças existem, e tenderão, pela tal evolução, a aceentuar-se. Este AO impõe mais diferenças, como os famosos “receção” (pronunciado e bem, pelas gerações mais velhas de Portugueses e pelos Brasileiros como “recessão”) / “recepção”, entre outros. Isso não é evolução nenhuma. É decretar a mudança, ao arrepio de todas as evoluções.
      São portanto os acordistas que querem obrigar, forçar uma certa evolução… Isso é claro como água.

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