Dia do Animal

Por Noémia Pinto

Hoje, 4 de Outubro, comemora-se o Dia de S. Francisco de Assis e, também por isso, o Dia Mundial do Animal. Não vou contar a história deste Dia. Qualquer pesquisa básica permite rapidamente aceder a essa informação. Este é um dia que tem tido muito significado na minha vida. A minha amizade pelos animais é algo que nasceu comigo. Em pequena salvava os mosquitos de morrerem afogados no tanque. Quando ando nas ruas, tenho cuidado para evitar pisar as formigas, a única vez em que pus veneno para os caracóis chorei ao varrer as conchas vazias…
Levei a minha primeira gata para casa era eu uma gatinha de 5 anos. Fui fazer um recado à mercearia ao lado de casa (verdade, as mães mandavam assim as ganapas de 5 anos fazer compras à mercearia! Horror, escândalo, choque!!! E nunca me raptaram nem era trabalho infantil. Fosse hoje e a minha mãe teria sido denunciada à Segurança Social) e voltei sem as compras, mas com o meu primeiro amor de quatro patas.
Adoptei por essa altura bastantes gatos, sempre de forma pouco responsável – na época não se falava em levar a veterinário, embora houvesse perto de casa um habilidoso, o Bigú, endireita de profissão, que também «capava» animais (coitadinhos dos bichos, sabe-se lá como é que ele fazia…). Certo dia, levei um cão que tinha sido apanhado de raspão por um comboio. Ficou com a cauda ferida, mas logo que chegou a minha casa, fugiu e nunca mais o vimos.
Passados uns tempos, foi a vez do Pantufa, o nosso Pantufa, uma adopção já muito responsável. Era bebé e fui escolher um cão de uma ninhada. Escolhi um castanho, trouxeram-me um branco com manchas pretas, Ficou aquele e foi a sorte dele. Todos os seus irmãos morreram por desleixo e maus tratos.
Muitos mais gatos e cães me passaram pela vida.
Casei com contrato: Eu aceitava ter um filho se o noivo aceitasse ter um gato. Aceitou. Impôs apenas uma condição, tinha que se chamar Domingos. Eu queria uma gata, as fêmeas eram e continuam a ser ainda mais sofredoras do que os machos, mas perante isto, tive que escolher o óbvio: um gato. Lá veio outro grande amor de quatro patas, que se juntou ao de duas patas. Domingos, há 17 anos a enriquecer as nossas vidas.
Ele faz tão parte das nossas vidas que cheguei a convencer uma colega de trabalho que tinha feito um testamento no qual deixava a minha casa ao Domingos! A minha parte do contrato seria cumprida, 13 anos mais tarde!
Desde que mudei de casa, o nosso convívio com animais aumentou. Com o voluntariado em associações de defesa animal aumentou ainda mais. No primeiro ano, passaram pelas nossas vidas 60 gatos e 6 cães. Todos entregues para adopção. Infelizmente, nem todos bem entregues, como mais tarde verificávamos.
Tenho muitas histórias de animais, tristes e alegres. Quase todas mostram como o ser humano consegue ser tão cruel para os animais e muitas mostram como o ser humano pode também ser tão solidário e abnegado mesmo com espécies diferentes da sua.
Há a história das cadelas de raça atiradas pela janela do 3º andar por um dono louco, a da cadela deixada no canil para ser abatida porque a dona engravidou, a da gatinha com um mês de idade que serviu de brinquedo a uma criança e, quando a criança teve que ir comer, a mãe mandou «deitar aquilo fora», a da gatinha igualmente bebé que foi tirada do cimo de uma árvore pelos Bombeiros de Leixões, completamente apavorada e com o corpinho furado pelos dentes dos cães, a do gato que tinha um parafuso alojado na garganta e cujo dono tinha que estar em casa com chapéu para não ser atacado, a da siamesa roubada porque era diariamente pontapeada pelo dono, a dos gatos bebés de dias atirados para o contentor do lixo, a das três gatas mães que se revezavam para cuidar dos seus nove filhotes, todos vindos de um telhado de Matosinhos,… cada um destes animais foi um companheiro, um amigo, um ser que passou nas nossas vidas e deixou a sua marca. Alguns tiveram uma presença efémera. Outros ficaram-nos mais fortemente gravados. A todos, todos eles agradeço a sorte que tive de os conhecer e de poder fazer alguma coisa, ainda que pequenina, para os salvar.
Por nossa casa já passaram diferentes espécies de animais salvos da morte quase certa: imensos gatos, alguns cães, um periquito e uma tartaruga.
É habitual no Dia Mundial do Animal falar-se e pensar-se sobretudo nos animais domésticos. Mas é importante e imperioso pensar-se também nos outros, aqueles destinados ao consumo humano. Não peço que ninguém deixe de comer animais, mas peço que todos sejamos racionais na forma como usamos os recursos que eles nos dão com sacrifício da sua vida. Se não comemos o bife inteiro, partamos a meio e deixemos o restante para outro dia. Para quê comer dois ovos se um é suficiente? Uma posta pequena de peixe é suficiente…
Eu gostaria de ver as pessoas a exigiram que os animais fossem tratados com mais dignidade e que as suas mortes fossem menos atrozes.
«As pessoas sensíveis» ficam chocadas quando se diz que os Chineses comem gatos e cães. Mas o princípio é exactamente o mesmo. A morte de um animal para a nossa alimentação. Claro que nos sentimos mais próximos dos gatos e dos cães, esses são os companheiros de brincadeiras, mas, pensando bem, há grande diferença entre matar um gato para comer e matar um coelho? Até são parecidos…
«If you love animals called pets, why do you eat animals called dinner? – Se amamos animais chamados de estimação, por que comemos animais chamados jantar?»
Por outro lado, temos os desgraçados e imensamente sofredores animais de laboratório. seres muitas vezes torturados desnecessariamente, muitos deles apenas para testar cosméticos. Utilizam-se estes animais só porque se torna mais barato. Mais uma vez me coloco a questão da importância da vida… O lucro tem que estar sempre acima de tudo? Até de vidas? Mesmo que se trate de vidas de outras espécies, é cruel. Nós não somos donos do mundo nem da natureza.
E lembremo-nos que, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos do Animal, «1 – Todo o animal tem o direito de ser respeitado.
2 – O homem, enquanto espécie animal, não pode atribuir-se o direito de exterminar os outros animais ou de os explorar, violando esse direito.»

Feliz Dia Mundial do Animal para todos.

Comments

  1. xico says:

    Embora coma carne, adoro animais. Gostei deste texto mas duas frases chamaram-me a atenção: “como o ser humano consegue ser tão cruel para os animais”. Não vejo qual o espanto. O ser humano consegue ser tão ou mais cruel para com os outros seres humanos…
    Depois, outra frase senti-a como um insulto aos meus gatos:
    “entre matar um gato para comer e matar um coelho? Até são parecidos…”. Parecidos? Até ver os meus gatos ainda não me arrancaram os subsídios!


  2. Acabo de ver – e porque é Dia Mundial do Animal – uma reportagem da Geographic Magazine, sobre os koalas e o seu sofrimento em geral devido ao avanço das urbanização em geral (ou apenas vivendas privadas) nas suas áreas naturais – mas acrescentadas à catástrofe do fogo devastador e imparável de 2003 que destruíu habitação, morreran pessoas e koalas além de se cortarem demasiadas árvores sem as queis não vivem – criou-se então no local mais crítico um Hospital para tratar os koalas feridos e com Clamidis (que provoca cegueira) que depois de salvos e reabilitados foram chipados e devolvidos ao wild, alguns tendo sido amputads de uma perna o que se fez pela primeu«ira vez e se reabilitaram também – os habitantes chegaram a fazer grande manifestações para salvar os animais autóctones da austrália – salvar a vida e a beleza dos ecossistemas

  3. Amadeu says:

    Adorei o seu post mas penso que descarrilou quando faz a ponte entre animais “domésticos” e os para alimentação humana. Nem os ovos escapam, cum caraças.

    Mais um pouco e haverá alguém a clamar contra a morte de um ser vivo para a nossa alimentação. Coisas do género, coma-se meio rabanete, um tomate mas dos pequenininhos, deixe-se metade da cenoura para o dia seguinte.

    Está bem, pronto.

    Vivam os meus 5 gatos rafeiros, o Átila, o Sansão, o Faguntes, o Nicolau e o Piquinino. E a minha cadela Niki. Para mim, todos os dias são deles.


  4. O homem, em questões aparentes, está menos selvagem. Pelo facto de hoje ter uma cabeça maior, assiste-se a outras formas de agressividade que baralham a avaliação, comparativamente ao animal. Sempre tive animais, agora o Rinhau, 17 anos, e o Preto, menos um, e começo a pensar que ambos os felinos ainda vão ao meu funeral. Obrigado por partilhar o seu texto e cumprimentos a si e aos seus:).


  5. “Nós não somos donos do mundo nem da natureza.”
    Belíssimo texto. Obrigada!

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