Há mortos a menos

“É doce e decente morrer pela pátria.”
Horácio, Odes, III.2.13

O governo já deu vários sinais de que quer contribuir para que haja mais portugueses a morrer, o que é coerente com o incentivo à emigração, já que partir é morrer um pouco.

Que os doentes que insistem em permanecer vivos, na Guarda, sejam obrigados a partilhar o seu espaço ainda vital com os falecidos parece-me uma boa medida. Deste modo, o doente terá ocasião de apreciar as vantagens de se ser cadáver: na realidade, haverá melhor analgésico do que a morte?

Também me parece positivo que se seja obrigado a morrer até às 20h. Fomos, durante demasiado tempo, um povo indisciplinado, com gente a falecer quando lhe dava na real gana. Aprendamos com o exemplo que nos chega da Guarda: todo aquele que quiser morrer terá de o fazer a pensar no orçamento, evitando, patrioticamente, o pagamento de horas extraordinárias aos motoristas que transportam os cadáveres para a morgue.

Não seria de espantar, aliás, que Paulo Macedo resolvesse transformar os hospitais em morgues, o que permitiria despedir a maior parte dos médicos, exceptuando os especialistas em Medicina Legal. Proponho, aliás, que a rede informática do governo possa transformar imediatamente qualquer certidão de óbito em abatimento da despesa. Entretanto, para descanso dos gestores hospitalares, julgo que faz sentido que lei estipule que todo o doente seja cadáver até prova em contrário.

O título do JN (“Os vivos dormem com os mortos no hospital da Guarda”) parece-me uma pieguice escusada, até porque há cônjuges insatisfeitos que se queixam do mesmo há anos e que, portanto, não seriam capazes de notar a diferença entre um marido sem desejo e um morto pacífico, sendo, eventualmente, possível descobrir alguma vantagem no rigor mortis.

Como é evidente, a transformação do doente em falecido teria, ainda, a virtude de acabar com situações destas, em que as pessoas, obcecadas com direitos adquiridos, insistem na ideia peregrina de permanecer vivas, sem pensarem, um instante que seja, no Orçamento de Estado.

Eis a frase para a próxima campanha governamental: “Seja útil: morra!”

Comments

  1. palavrossavrvs says:

    Só sei que o post é brilhante.

    Enfim, foram longos anos a encher balões e a sacar o máximo.


  2. Uma crónica encantadora! Assim como os comentários pertinentes.


  3. Sem querer ser extremista, desconfio que muitos desses doentes, dadas as circunstâncias históricas e biológicas, aceitariam morrer mais depressa e de livre vontade! Sejamos sinceros, o indivíduo pouco ou nada pode fazer face ao coletivo, expecto no que diz respeito à decisão de tornar-se num cadáver. Para clarificar as coisas, a questão reside na escolha do doente, e somente nesta.

  4. Maquiavel says:

    Ridendo castigat mores.

  5. Pisca says:

    Bem esgalhado, parabéns

Trackbacks


  1. […] Também acho que há mortos a menos…. siga. […]


  2. […] Em primeiro lugar, os mortos são pessoas com direitos, incluindo o de se abster nas eleições. Que os mortos entrem pela Urgência parece-me óbvio, uma vez que é do interesse de todos que não se fique à espera que entrem em decomposição. Parece-me uma medida ainda mais virtuosa do que aquela que elogiei há dois anos. […]

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