A olhar para os rankings

Sempre que são publicados os rankings, voltam os mesmos erros de análise, o que quer dizer que o sol continuará a ser tapado com uma peneira.

Dos insurgentes e comentadores similares não se pode esperar mais do que um simplismo algo hermético, porque, para gente desta, resolver os problemas de Educação em Portugal resume-se a olhar para quem fica no topo dos rankings.

Os responsáveis pelos colégios, para explicar os bons resultados, portam-se, obviamente, como directores de empresas que têm um produto para vender (e, com isto, não pretendo pôr em causa a qualidade dos profissionais que aí trabalham, incluindo os próprios dirigentes). João Trigo, director do Colégio do Rosário, explica que os bons resultados se devem a “uma aposta na formação global dos alunos”, o que é tão vago que pode ser aplicado a muitas outras escolas cuja colocação no ranking seja inferior. O mesmo director atribui a fama de elitista ao facto de “os pais dos (…) alunos terem de ter dinheiro para pagar as propinas”, necessárias para a sobrevivência da instituição.

Não me interessa culpar ou ilibar seja quem for da acusação de elitismo. Falta, no entanto, reafirmar que, graças a um estatuto socioeconómico e/ou sociocultural elevados, há alunos que, ao entrar na escola (em qualquer escola), já partem com avanço relativamente a outros oriundos de classes desfavorecidas. Os primeiros foram expostos, desde pequenos, a actividades e bens culturais e perceberam que os pais valorizavam a Educação e a Escola. Os outros, por razões culturais ou económicas, podem não ter recebido os mesmos estímulos, o que os prejudicará, quase inevitavelmente, no que respeita a coisas simples como, por exemplo, a capacidade de concentração ou de aquisição de conhecimentos.

Nada disto significa que uma boa escola ou um bom professor não façam a diferença na vida de qualquer aluno. A verdade, no entanto, é que directores e professores não são santos milagreiros, embora, na realidade, possa ser considerado um milagre o momento em que um aluno com dificuldades consegue superar-se, mesmo que isso não se traduza numa boa classificação. Para aqueles que só conseguem pensar com base em números, grelhas e classificações, eu explico: pode ter tanto ou mais mérito um professor que ajuda um aluno carenciado a atingir os dez valores do que aquele cujos alunos de elite alcançam vinte num exame.

Todos os que trabalham nas escolas públicas e privadas sabem disto, mas, mesmo entre os responsáveis pelas primeiras, há quem justifique os bons resultados e as boas classificações nos rankings com os mesmos argumentos dos directores dos colégios. Ora, se é verdade que é difícil alcançar bons resultados sem uma boa organização e sem bons profissionais, é muito mais difícil isso acontecer sem bons alunos. Diria, ainda, que os bons alunos conseguem, até, sobreviver a maus professores, o que deriva, também e não só, da capacidade económica de os pais pagarem explicações.

Não condeno que as escolas sintam orgulho nos resultados dos seus alunos e, portanto, no próprio trabalho da instituição, mas seria importante que, por outro lado, soubessem assumir que esses resultados dependem de vários factores externos à própria instituição. Se conseguissem fazê-lo estariam a prestar um serviço importante à Educação, algo mais importante do que suscitar afagos públicos ao próprio ego.

A propósito de olhares sobre os rankings, leia-se a notícia sobre os fracos resultados no exame de Português do 9º ano, na freguesia de Rabo de Peixe. Em primeiro lugar, o título, absolutamente enganador, releva da primeira informação dada pela Presidente da Junta: “Pronúncia determina más notas a Português em Rabo de Peixe”. Se estivéssemos distraídos, poderíamos pensar que o exame era oral ou que não existe, em Portugal, uma grande variedade de “pronúncias”. Logo a seguir, ficamos a saber que as crianças “escrevem como falam”, como se esse problema não afectasse alunos em todo o país.

A verdade só começa a surgir, quando ficamos a saber que existem problemas de assiduidade e que há “crianças filhas de famílias com situações problemáticas”, questões muitas vezes relacionadas. Ao ler o resto da notícia, ficamos a perceber que a maioria dos alunos sofre de carências várias, por razões socioeconómicas.

Os alunos que “escrevem como falam” fazem-no, em qualquer parte do país, não porque a pronúncia que usam seja mais ou menos cerrada, mas porque foram vários os condicionalismos que dificultaram a aprendizagem da escrita. Não estranharia que estes alunos de Rabo de Peixe revelassem, ainda, dificuldades de compreensão em muitas outras matérias.

Olhar para os rankings deveria servir para confirmar tudo isto e levar a que as políticas sociais e educativas fossem substancialmente alteradas. Em vez disso, entre muitos outros disparates, Nuno Crato aumenta o número de alunos por turma. Curiosamente, e a propósito, o Colégio Horizonte tem turmas pequenas, “o que facilita a tarefa dos professores.” Se isto é verdade para as meninas privilegiadas que frequentam este estabelecimento, é-o, por maioria de razão, para as crianças de Rabo de Peixe.

Comments


  1. Bom artigo.
    Boa descrição do panorama educacional associado aos rankings. Não nos esqueçamos que os rankings servem um determinado lobby.
    Daqui em diante teremos um ensino baseado em exames, desde o 1ºciclo até ao secundário. Bem, até no pré-escolar já andam com a mania dos testes. Se o ser humano fosse assim tão “desintegrado” era tudo mais fácil. Mas não é!
    Para terminar, isto é tão estúpido que querem alunos mais criativos e inovadores e baseiam todo o ensino na memorização.

    Os melhores cumprimentos,


  2. Acabaram como o comércio tradicional ??? pois só há supermercados – O ensino privado é co-financiado” ?? pois então é uma PPP – o ensino privado é melhor ?? pois dão notas mais altas porque não podem fechar a porta e são assim supermercados do ensino – ensino Cooperativo como a Lusófona – pois é uma mina de dinheiro – E do meu IRS sai para o ensino público e privado + saúde pública e privada + para banquetes ministeriais e topos de gama a deputados e governantes + eurodeputados + mais os jantares de deputados e festas de golf + $$ para partidos e eleições+ para ordenados milionários de empregados das TV + para o teatro e cinema que querem sempre “ajudas” + para fazer rotundas no Marquês – mas que rica fui e agora ainda há as tais fundações e só a de soares é 1.5 milhões de euros/ano fora as multas do carro que lhe demos e anda a 35o km/h – talvez quiram que lhe pague a “bica” e engraxar os sapatos – mas não lavam as ruas nem regam as árvores e ontem vi e nunca pensei ver – o belo relvado frente à Torre de Belém é um campo de terra – o senhor da CML não regou porque um tractor pisou o sistema de rega automático
    e é um verdadeiro deserto – miseráveis miseráveis miseráveis miseráveis miseráveis miseráveis – que rica podia ser e nunca tendo sido o facto é que de acordo com o ebgº Picanço do sindicato dos quadros já sacaram aos FP 44% mas quais FP – já que sócrates misturou todos os que recebem reforas de zero a 100 no mesmo sistema pelo que quando eram “reformas separadas” cada um recebia da CGD o seu e agora eu pago mais pelos que ganham mês o que ganho ano – desestruturram todos os sistemas (sócrates) e este novo primeiro ministro nada fez voltar ao que stave ainda piora – MISERÁVEL que ele é – é o mais miserável de todos e todos são como ele

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  1. […] mais um elemento que deveria servir para chamar a atenção de todos aqueles que se limitam a uma análise simplista dos rankings: a qualidade de uma escola não se pode medir apenas com base nas notas dos […]


  2. […] tem sido sempre a mais bem classificada nos rankings. Não reflictamos, para já e novamente, sobre as virtudes ou os defeitos dos ditos rankings, mas não esqueçamos, a bem da verosimilhança, que a escola privada tem sido frequentada, ao […]


  3. […] tem sido sempre a mais bem classificada nos rankings. Não reflictamos, para já e novamente, sobre as virtudes ou os defeitos dos ditos rankings, mas não esqueçamos, a bem da verosimilhança, que a escola privada tem sido frequentada, ao […]


  4. […] uma vez, estamos na presença do pensamento simplista que reduz a avaliação das escolas ao lugar que ocupam no ranking. O mundo reduzido a listas e gráficos parece muito simples, sobretudo quando não se quer perceber […]


  5. […] quando, na realidade, os exames, tal como eram aplicados, só serviram para aprofundar a interpretação pervertida dos rankings e a consequente transformação das aulas em mero treino. Ao mesmo tempo, tomou decisões […]


  6. […] das escolas e reapareceram os mesmos erros de análise e as mesmas frases bombásticas. Por isso, não há muito mais a dizer, porque o mundo está transformado num campeonato […]

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