Portugal, país exportador de carne humana

Vi e ouvi nas notícias das 19 na televisão, as palavras de um membro do Ministério da Ciência e da Educação que disse estas palavras: Portugal deve-se orgulhar de ser capaz de exportar jovens licenciados em medicina, em medicina dentária, em farmácia, em direito, enfermagem, em ensino e outras profissões liberais, orgulho da nossa Nação

Qual foi o membro do governo que gere o saber em Portugal que disse estas desleixadas palavras? Bem sei quem é, mas não o identifico pela vergonha que causa em mim o atropelo aos direitos humanos que implica esta ideia nefasta. Formados por nós, na base do nosso saber académico e dos impostos que pagamos para sustentar às Universidades públicas e colaborar com as privadas, são pessoas que o país precisa para assistir aos doze milhões de habitantes que existem no nosso país lusitano.

Parece-me evidente ser a confissão de um grave pecado que têm na consciência dos que pretendem governar este país e que carecem de meios para os empregar. Carecem de meios por terem fechado fábricas indústrias, despedido dezenas de funcionários públicos que carecem de meios para pagar consultas a estes profissionais. Profissionais precisados no nosso Portugal para manter uma população sã e bem assistida. Temos passado a ser meios económicos, não seres humanos, temos passado a ser migrantes eternos por não termos no nosso Estado Soberano sustento para um povo que se mede em números e mais-valia, em lucros produzidos para as fábricas trabalharem mais. Até os gestores de empresas devem procurar indústrias fora de Portugal para geri-las. Vergonha sente quem formar jovens em Psicopatologia da Infância que, com o canudo na mão, procuram trabalho dentro do seu país e não encontram. Nos anos quarenta do século passado, durante o governo do denominado Estado Novo, o país lucrava com o direito que deviam pagar para trabalhar fora e juntar dinheiro para melhorar o trabalho das suas terras. No século atual, é a vez dos intelectuais, uma classe que parecia intocável, certa e segura do seu saber especializado, quem não tem futuro na nossa República. Portugal tem passado a ser um país de velhos, sem energias para também migrar, sem oportunidades nos sítios alvos de imigração por causa da sua idade que apenas permite ser trabalhadores de restaurantes, limpar ruas, servir mesas ou empregar-se como trabalhadores domésticos em casas de ricos, limpar casas, lavar sanitas, ser cuidadores de filhos pequenos enquanto os seus pais trabalham nas suas profissões e ganham milhares de dólares, como amas as mulheres, como jardineiros ou condutores de carros privados, os homens.

Muitos dos jovens profissionais devem ser reexaminados para validar os seu títulos profissionais e exercer a excelência das suas profissões adquiridas em Portugal nos Estados que os aceitam, como profissionais de emigração. Para o governo que pretende orientar a vida dos seus concidadãos, enquanto menos sejamos no país, menos bocas para assegurar a sua alimentação, tomar conta da sua saúde, menos escolas a fechar eternamente, menos educadores da infância porque as crianças começam a desparecer: ninguém deseja ter filhos que não conseguem nem alimentar nem educar. Portugal não é apenas um país de velhos, é também um país sem futuro pelo hiato entre a geração envelhecida e a geração jovem que acaba por não existir. Parece-me que as palavras de quem ordeira a educação e a ciência, são prova suficiente para reclamar no tribunal dos Direitos Humanos os atropelos ao povo lusitano, orgulhoso de um Afonso Henriques que formou a nação, orgulhoso da Restauração, orgulhoso de um Camões, orgulhoso das suas artes e culturas, vendidas ao melhor comprador do saber luso.

O leitor já sabe que há 24 direitos mínimos para ser respeitados definidos pela Convenção de Direitos Humanos, ratificada por Portugal em 1978, que merecem levar, a quem pretende governar, ou ao Tribunal de Direitos Humanos da cidade de Haia ou ao Tribunal Constitucional do nosso país, direitos já analisados pelos meus netos em outro ensaio deste blogue: Direito à vida; Direito a não ser submetido a tortura nem a penas ou tratamentos desumanos ou degradantes; Direito a não ser mantido em escravidão ou servidão, nem constrangido a realizar trabalho forçado ou obrigatório; Direito à liberdade e segurança, não podendo ser privado da sua liberdade a não ser nos casos e nos termos previstos na Convenção; Direito a um processo equitativo, designadamente, a que a sua queixa seja examinada por um tribunal independente e imparcial, num prazo razoável e com julgamento público; Direito a não ser condenado por ato que não constituísse uma infração no momento em que foi cometido ou a sofrer pena mais grave do que a aplicável no momento em que a infração foi cometida; Direito ao respeito da vida privada, do domicílio e da correspondência; Direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; Direito à liberdade de reunião e de associação, incluindo o direito de fundar ou de se filiar em sindicatos; Direito ao respeito dos seus bens; Direito à instrução e direito dos pais a que a educação e o ensino dos seus filhos respeitem as suas convicções religiosas e filosóficas; Direito a eleições livres; Direito a não poder ser privado de liberdade por não cumprir uma obrigação contratual; Direito de circulação no território do Estado e de escolher livremente a sua residência; Direito a não ser expulso do território do Estado de que é cidadão e de não ser privado de entrar nesse território; Direito à existência de um recurso, perante as instâncias nacionais, de atos violadores dos direitos e liberdades reconhecidos na Convenção, quer esses atos sejam da responsabilidade de particulares quer do Estado.

Leia e pense, senhor leitor e decida se a exportação de carne humana intelectual é ou não respeitada pelas pessoas em quem depositamos a nossa soberania.

Raúl Iturra

23 de Outubro de 2012.

lautaro@netcabo.pt

Comments


  1. Acerca da frase ‘Portugal tem passado a ser um país de velhos’ levanta-se a questão do actual limite de idade para a empregabilidade. Com a saída de jovens ‘encanudados’ mas sem experiência a alternativa passa por alterar o actual critério nas admissões a empregos não excluindo candidatos ‘velhos’ com 30 anos. Por outro lado há ainda muitos velhos (com mais de 65 anos) que poderão ser considerados ‘produtivos’ em muitas áreas, e entre elas, a da Formação Profissional em ofícios em risco de extinção. Na Conservação do Património, por exemplo.

    • Raul Iturra says:

      Caro Antero Leite, conheço o seu blogue e é um sucesso! Parabéns!Agradeço o seu interesse no meu texto e o seu comentário. A minha ideia era por o leitor a ver à distância. Hoje em dia perdemos, até ontem, 100 mil jovens, que vão ficar fora. Os de 30-40-50, etc, vamos passar a ser mais velhos. Tem razão quanto a produtividade dos mais velhos. Depende da sua saúde e do eu objectivo na vida para sempre estar activos. Eu, com setenta, reformado apenas nestes dias, não há dia em que não acorde as 6 a.m. e começo a escrita . ou a tratar de pacientes. O meu objectivo do texto é chamar a atenção para os problemas que vamos ter a futuro! E a indignidade do governo de “exportar carne humana” deixando a família em casa, separando famílias. Quando tornam a se encontrar, deixaram de partilhar a mesma história de vida!
      Mais nada digo, o meu comentador tem experiência e sei que sabe ir para além da frase que parece te-lo ferido, sem a minha intenção, evidente. Lamento que o corretor do meu comentário não admite ainda acordo ortográfico! Agradece as suas palavras, vou pensar nelas para um próximo texto que tem por alvo a vergonhaça do Secretário de Estado e a sua frase!
      A o seu dispor
      RI
      lautaro@netcabo.pt


      • Caro Raul Iturra
        Devo esclarecer que a sua frase não me feriu, porque entendo que Portugal, um ‘País de velhos’, ainda tem futuro. Só é pena que os (des)governantes que temos tido não tenham querido aproveitar o capital de conhecimento que os mais velhos possuem e podem transmitir aos mais novos. Apontei o exemplo da Conservação do Património porque têm sido praticados erros clamorosos em reabilitações e restauros por se ter perdido o ‘saber-fazer’ tradicional. Certas soluções ‘modernaças’ acabam por desfigurar os imóveis e retiram-lhes identidade, sobretudo, a nível de interiores com o ‘bota-abaixo’ de paredes e tectos, alguns deles possuindo notáveis composições em estuque ou em pintura.
        Sobre o meu não cumprimento do acordo ortográfico, ainda o vou ladeando conforme posso. Razão? Sinto ainda as palmatoados pela ‘santa luzia’ da Primária e fiquei, para toda a vida, com aversão a eliminar caracteres julgados a mais, por motivos conhecidos. Sou dos que penso ser o conteúdo (a ideia) da frase mais importante que o respeito pelas regras ortográficas. Como na Fotografia: o assunto e seu enquadramento é muito mais importante do que a procura de imagens de grande nitidez, hoje, possível de obter pela técnica digital .

  2. xico says:

    Exportar significa vender ao estrangeiro um produto que se produziu, que é excedentário, e receber em troca a mais valia. Quando um técnico qualificado emigra não há exportação: Não é excedentário e não se recebe o custo nele investido e muito menos a mais valia. Trata-se de desperdício, involuntário por parte do técnico, dos recursos do país. Qualquer governante que se orgulhe disto deveria ser julgado por incitamento ao crime económico.

    • Raul Iturra says:

      Caro Xico, o seu comentário é excelente! Não há mais-valia excedentária, perdemos uma geração que hoje em dia não se percebe, o produto foi feito com as poupanças de pais e tributos do povo. O lucro é dos países que os aceitam, nos os criamos, outros tiram proveito. Em mais 30 anos, essa falta de ligação entre profissionais envelhecidos e as crianças de hoje, pagará cara o desleixo deste governo e de uma oposição incapaz de passar nem meia moção. Se o PR não intervém, estamos perdisos, vamos passar mais fome em 2013 do que nestes dois últimos anos. Duas fomes.a do estômago e a do saber…

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  1. […] Deve ser conhecido por todos a existência de quatro descendentes nossos, capazes de se importar com o que acontece em Portugal e nos países que estão falidos e adoptam uma política académica falaciosa. Têm lido o meu texto Portugal, um país que exporta carne humana para lucrar com a falta de trabalho dos novos profission…. […]


  2. […] que a sociedade é um estado de Revolução Permanente. Sou capaz de observar que leu o meu texto: Portugal, país exportador de carne humana. Enviei o texto ao Bloco de Esquerda, que era representado por ele na Assembleia. Em 1978, O […]

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