Não comer e calar?

Com a História nada se aprende, tudo se esquece, poder-se-ia dizer, glosando Lavoisier e negando Cícero. Diante de greves e de protestos, com pedradas mais ou menos consentidas à mistura, o governo e satélites vários atribuem a violência verbal ou mineral a agitadores e a profissionais da agitação, reduzindo o povo insatisfeito a uma manada pastoreada por comunistas, sindicalistas e outros canibais infanticidas.

Depois de anos de destruição de um tecido produtivo que nos leva a importar a fruta que poderíamos plantar, depois da especulação descarada com o dinheiro que entregámos indirectamente a uma série de gente que se alimenta das finanças públicas, depois de engenharias financeiras várias que têm transformado os orçamentos de Estado em mentiras oficiais, depois de ver notas de mil a arder nas fogueiras da Expo98 e do Euro 2004, depois de seis anos de socratismo de publicidade enganosa, depois de Passos Coelho se ter feito eleger com base em promessas que quebra todos os dias, obrigando-nos a pagar uma dívida que não contraímos, depois de sermos diariamente roubados graças ao cínico falhanço antecipadamente conhecido de todas as previsões macro e micro-económicas de um ministro das Finanças que seria despedido da garagem onde trabalha, se fosse mecânico e desconsertasse carros ao mesmo ritmo a que se engana nos valores do défice, do desemprego e da receita fiscal, depois desta merda toda e de muita outra que fica por cheirar, a culpa é de quem protesta? Cheira-me, pelo contrário, que a nossa culpa está em protestar pouco ou mal.

O silêncio dos pobrezinhos e o sossego dos miseráveis é o sonho da direita, filha, tantas vezes, de um catolicismo manhoso, que se nota na recomendação de um conformismo com a promessa ciciada de uma quase-talvez-eventualmente certa recompensa futura do sofrimento presente e na constante rememoração de que esse mesmo sofrimento é consequência dos pecados de um povo que viveu acima das suas possibilidades, o povo, esse eterno Prometeu, esse filho de Adão, o atrevido descontente, por não aceitar ser pó, por se recusar a não comer e calar.

Sou um homem de pouca fé, voto sem entusiasmo, sou de uma esquerda sem partidos e julgo, até, que se a esquerda dos partidos me conhecesse não se mostraria muito interessada, porque tenho uma personalidade muito próxima da da voz do “Cântico Negro”. Se me emociono, quando ouço a “Grândola”, sei que o povo não se levantará logo a seguir, com amor e revolta em doses saudáveis, porque todas as epopeias são tão de papel como os romances cor-de-rosa. Sei pouca coisa, mas não vejo possibilidade de não protestar e  acredito que, como lembra o Ricardo Araújo Pereira, não há políticas inevitáveis, sobretudo se for necessário evitá-las.

Não queria terminar sem deixar uma palavra de apreço a Henrique Raposo, que propõe que o povo substitua as manifestações pela procriação, de modo a reanimar a natalidade, para concomitante sossego da via pública. Espantar-me-ia que um homem tão liberal, tão defensor da livre iniciativa, surgisse a mandar o povo foder; penso que será apenas um reaccionário a mandar foder o povo. Para não repetir, pela terceira vez um palavrão, limito-me a desejar que Henrique Raposo vá fazer meninos a si mesmo.

Comments


  1. Muito bom. Gostei muito da frontalidade, da clareza e da lucidez. Partilho.


  2. Ora aí está a verdade. Toda a verdade. bj

  3. Maquiavel says:

    Nabais, hoje excedeste-te! Parabéns pelo texto!


  4. O pior é que contraímos a dívida, seria bom culparmos outro, a Merkel, o banqueiro, Bob, o construtor… Aliás, já comecei a fazer campanha para que as pessoas verifiquem se a sua autarquia está carregada de dívidas, e por tal recebeu dinheiro do Estado obrigando-a a impostos no valor máximo, e então nas próximas eleições votarem naqueles que criaram essa dívida, recompensando-os. Tal como no Porto têm que votar em massa no Menezes de Gaia, recompensado-o pela dívida que deixou em Gaia.

  5. xico says:

    Tem toda a razão. Os protestos são é muitas vezes mal canalizados e até manipulados. Ainda vamos ver a irem a Paris buscar o que lá está aos ombros.

  6. Pedro says:

    Uma “CREL” em Cortes. Perguntam vocês o que é Cortes. É uma aldeia de 250 habitantes do concelho de Góis, distrito de Coimbra. Uma aldeia que tinha uma estrada com duas faixas de rodagem, a ligar à EN2 onde passavam diariamente e facilmente meia dúzia de carros, mas que acharam por bem à cerca de 8 anos alargar para passarem a mesma meia dúzia de carros e para servir o Pólo Indústrial (???) que fica localizado a meio caminho entre a aldeia e a EN2. Sim, existe um Pólo Indústrial em Cortes. Agora, como se não chegasse, acharam que a aldeia necessitava de uma espécie de CREL, que a circundasse. Dentro em breve, o senhor que mora lá no fim da aldeia já não precisa passar pela aldeia para ir de carro para casa. Basta utilizar a “CREL”. Com a aprovação da Câmara PS. Esse mesmo partido que não sabe se quer aumentar impostos ou diminuir despesa.

Trackbacks


  1. […] No dia 12 de Novembro de 2012, Henrique Raposo escreveu uma crónica que intitulou “Façam meninos e não ‘manifs’”. O facto de eu ter dois filhos e ter participado em algumas manifestações fez com que não me sentisse visado, o que não me impediu de dedicar algumas linhas ao cronista do Expresso: […]


  2. […] confirmar que os governos do mundo ocidental estão ao serviço de todos aqueles que sonham com um proletariado pobre e sossegado. Em Portugal, é assim, apesar dos quase quarenta anos de […]


  3. […] Lá fora, estão as pessoas, espécie cujo único direito é trabalhar por pouco dinheiro e respirar baixinho, como diria Luís […]

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