Parafascismo e Paralelismos Abusivos

Em face das contingências a que estamos ancorados, não me parece justo nem mentalmente são apodar de fascista Pedro Passos Coelho, fascista a Troyka, fascista a Comissão Europeia, fascista o BCE, fascista o FMI. Não podemos nem devemos laborar na leviandade de esvaziar com paralelismos chocantes e abusivos a brutalidade e o datado de quaisquer fenómenos sócio-políticos mortos e enterrados. Palavras de indignação há muitas. Mesmo aquelas que os palermas empunham, na sua cegueira parcial, clubite partidária. As minhas Palavrossavras de angústia e revolta curiosamente vertem-se contra [e privilegiam] quantos, no passado recente, não zelaram por nós, não respeitaram o nosso direito a mais santa paz de espírito nem acautelaram o realismo das nossas vidas, comprometendo-as através de muitíssimas formas de sofreguidão e negligência, dolo e logro, impossíveis de caracterizar com eufemismos porque foram criminosas.

Não distingo os manifestantes do passado dia 14 de Novembro dos de 15 de Setembro ou dos do 11 de Março de 2011. Somos, por vezes, uma mole imensa que desagua digna na mesma dor iníqua, iniquidade dos que no-la infligiram e engendraram. Turba que varre quaisquer pretensões facciosas que dessa dor procurem apropriar-se. Podemos e devemos bater no peito as mágoas pela nossa própria demissão em agir a tempo e a horas, mesmo sem deter os poderes de contrariar o entorpecimento mediático que os Governos manejaram contra nós, especialmente os dois anteriores a este: fomos entorpecidos de informação, vimo-nos dormentes de contradições e conflitualidade inúteis, nauseados de intoxicação contra-informativa, enquanto o mal malfeitor secretamente era urdido nas nossas costas.

Apelidaria, sim, de parafascismo todo um complexo processo de intrujar uma Opinião Pública, de ludibriar a escassa massa crítica do nosso País. Parafascismo, isto é, tudo o que prepara e abre caminho ao lado, além, acima de, a par de, à volta de, para, contra, quase, no sentido de que o Poder se mantenha Poder, usando de todos os meios, calcando todos os empecilhos, vexando todos os oponentes. Como? Instilando o culto de uma imagem associada a pressupostos falsos, ficcionais, videntes, providenciais, indispensáveis, corajosos, alimentando uma mentira, instigando ao cultuar de uma personalidade. Nos nossos tempos, as amarras e as âncoras mais devastadoras são deste teor, bombardeamento mediático que se faz, refrão que se ensaia e em que se insiste. E são terríveis.

Não é sem alguma amargura que vejo ser a Assembleia da República o actual desaguadouro tardio do nosso protesto. Há repressão policial no País? Evidentemente que não. A polícia age a medo e cautelosamente como não acontece em Madrid, em Londres, por exemplo, onde as coisas piam muitíssimo mais duras sem que alguém no mundo questione os respectivos regimes ou a deriva-mastim para a repressão. Não vivemos dias de fascismo. Vivemos, sim, o dia seguinte de um Estado capturado por uma clique de assaltantes com as suas mais horrorosas consequências, as suas opções cruéis, carniceiras. No estado de endividamento em que estamos e dado o caos europeu, não há pessoas com capacidade política para governar e suportar a imposição de medidas olhadas com ódio devido à sua sádica impopularidade. Não há. O espartilho da intervenção-ingerência externa não permite um diálogo de engonhar, pois a respectiva arte, se alguma vez a domesticou Guterres, foi perdida e desbaratada pelas agendazinhas de merda dos partidos de merda que detêm as rédeas do Regime. Que diálogo? Que acolhimento de propostas de alteração ao Orçamento passíveis de assentimento da Troyka?! Zero, caso se interponham às metas.

Outros governaram indisciplinadamente contra o Povo, ano após ano. Hoje, não há margem para a criatividade indisciplinada só para a disciplina no curto prazo de que todos foram incapazes no longo: o crime a montante foi governar como se não houvesse amanhã. Consequência? Bancarrota. O crime a jusante é governar como se não houvesse presente. Consequência? Que passemos mal, muito mal. No primeiro caso, os cidadãos foram joguete, meco, pião. No segundo, são vítimas. Duplamente vítimas: de si mesmos e de quanto toleraram. E aponto todos os meus dedos, a minha mão inteira, ao PS, que governou parafascitóidemente tempo de mais, também ele criando uma nuvem de fumo autoritário e repressivo nos interstícios dos favores, dos jeitinhos, dos mil e um favoritismos pagos a peso de ouro, critério de sustentação das maiorias e das minorias, quando ainda se podia financiar externamente essa criminosa leviandade. O Governo não nos representa? Pois a Oposição também não nos representa. A abstenção não pode ser invocada agora, só agora, pois também ela [ou a contaminação massiva das listas eleitorais quer de defuntos quer de emigrados] foi útil e conveniente para compactuar às mil maravilhas com todos os riscos e efeitos de se governar a seu bel-prazer.

O que é pior? Governar pela força da persuasão envenenada, com um exército de Marinhos e Pinto, Proenças de Caralho, Júdices, Emídios Rangéis, Nicolaus Santos todos a dizer o mesmo alternadamente, a maravilha das políticas e do Primeiro-Ministro; ou exercer o direito consignado na Lei de limpar as ruas, sempre que o mau comportamento e a bestialidade tomam conta de alguns?! Exigem-me que não seja faccioso no combate aos facciosos do nosso sistema. É muito difícil. Tomo partido pelo Estado Social. Mas verifico que o Estado Social foi comprometido ao limite do mortífero pela incompetência e a sofreguidão dos últimos anos. Não se pode imputar o seu desmantelamento senão ao facto de ele estar em risco apesar da Constituição: a Lei ainda dita fundamental não nos tem dado de comer, não nos tem impedido de ver triunfar a impunidade, não nos tem salvo de um País Injusto, cuja riqueza se concentra malignamente numa minoria autista, egoísta, composta de tias e tios nas suas vidinhas de merda, apenas acordando e saltando para a praça pública com todas as hipérboles da raiva quando os cortes os atingem com inesperada violência.

O Portugal do fascismo eterno e dos parafascismos recentes tem sido o Portugal do eterno socialismo só para alguns, só os que estão mais a jeito, mais perto e mais à mão dos sucessivos orçamentos. Esse socialismo, para quem a inviolabilidade do Futuro e a Integridade Financeira do País não interessavam, perdidos numa gula legendária, deixa-nos hoje na mais profunda merda: somos dezenas, centenas de milhar, convertidos nos mais encalhados, nos mais indigentes, nos mais abandonados dos cidadãos de um País. O socialismo foi, portanto, um presente envenenado resumido nisto: «Nada pela Nação. Tudo contra a Nação.» Que a nossa mais legítima raiva não tenha nascido somente no último ano e meio! Se nasceu, é porque é estúpida. Não passa da moção de espírito mais ridícula, mais encornada e distraída do Cosmos.

Comments

  1. António M. C. Carvalho says:

    Admiro a sua combatividade e o seu português… mas não concordo totalmente consigo apesar de ter votado Passos Coelho ! Os governos de Cavaco Silva também abriram caminho ao desvario optimista, criminoso ou patologico, de Sócrates.
    Mas agora, o que me parece mais importante é pensarmos na maneira de saírmos da fossa, como escrevi em comentário ao “O devir histórico” de J. Mário Teixeira.

  2. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Oiis quem escreve no aventar nem memória tem a acha que o pa´+is é o que há esta semana – ao menos recuem até 1986 e vejam quem governou e o que destruiu em TUDO até mas n«mentes e que escolas fez e o que nelas se ensina – de formatação mental nem eu que sou meio parva me formatei com salazar quando mais com Cavavo e esse senhor que ocupa p lugar de primeiro ministro e ninguém desapeia – a falta de cultura cívica é fatal – sim privatizem a TV que então é que será ainda melhor para os que não podem ocupar tempo em mais nada


  3. É justamente porque «os fenómenos sócio-políticos [não estão] mortos e enterrados» que as formas da repressão observadas hoje (e não só em Portugal) remetem de forma inequívoca para os fascismos, isto é, para tudo o que nesses modos de governar foi crime ou em qualquer caso abuso de poder dos donos dos Estados. O que diz é o que dizem os que acham que as coisas constitutivas da mentalidade de um povo mudam por decreto ou por regime ou governos sucessivamente depostos ao longo de um curto período democrático – se considerada a duração e agressividade da ditadura. Não penso assim, e o que penso não advém de um exercício intelectual de tia, que nunca fui, mas de uma prática de muitos anos a viver com este povo e a estudá-lo precisamente no que tem de escondido, naquilo de que não se fala, no que se mete para debaixo do tapete a imaginar que de lá desaparece com o tempo. Registo também a agressividade das suas palavras neste post.

  4. palavrossavrvs says:

    Começando por insistir no facto de nem eu ser agressivo nem considerar o meu post particularmente agressivo, não levaria a minha leitura da acção policial para uma linha de repressão reflexa da do Poder Executivo eleito, nem a tendência até aqui sublimada e de repente à solta para um neofascismo.

    A partir do momento em que as regras democráticas foram subvertidas em benefício dos eleitos e detentores do poder executivo, a fim de enriquecerem, negociarem ruinosamente, beneficiarem os seus e escaparem pela porta dos fundos incólumes, imunes e impunes, é justo que, neste momento, onde esse paradigma de saque já não se exercita, é impossível, pelo menos com o mesmo descaramento de antes, haja mecanismos de controlo da impulsividade tardia das ruas, com as suas pedras, com os seus cocktails ardentes. Sejam as regras democráticas a ditar a lei e nada possa terraplanar o jogo da mesma democracia, o que não significa cercear o protesto.

    Só consigo ser agressivo com o Partido Socialista e o seu trajecto: os portugueses desejam seriedade, ética e um fino, raro, respeito dos políticos por eles. Não temos um problema recalcado de brutalidade e tendência para a brutalidade fascista ou outra: temos somente um problema de relaxamento democrático, um problema trágico de défice de escrutínio sobre políticos e instituições do Estado, os quais, relaxamento e défice de escrutínio, deram um péssimo resultado. Registo a facção passional pró-Partido Socialista do seu post.


    • Este artista queria é que aparece alguém nos comentários a chamar-lhe fascista, para poder carpir as mágoas e demonstrar a sua razão.
      Mas não caro senhor, nem Passos Coelho nem V. Excia são fascistas, que, até para isso é preciso ao menos um mínimo de cultura.
      Passos Coelho é um retinto filho da puta.
      V. Excia não passa de um parvalheco.

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