Dia de luto nacional


Confesso que quase chorei. De tristeza, de impotência, de raiva. Por mim, pelos meus, por todos os que desconheço e que ficam, a partir daquele momento, mais pobres, mais frágeis, mais permeáveis ao desespero.
Embora não fosse de forma alguma inesperada, a aprovação do OE2013 atingiu-me como um soco no estômago, como aquela bofetada, única em toda a vida, que o meu pai me deu quando, aos 17 anos de idade, me viu no café com um rapaz que ele não aprovava. Ao contráro do que ele pensava, esse rapaz não era meu namorado. Passou a ser.
Da mesma forma, este governo não era, para mim, totalmente culpado. Passou a ser. Tudo o que suceder a partir de agora é da inteira responsabilidade destes senhores. Claro que alicerçado num passado de roubos, imensos e descarados, e irresponsabilidades, muitas. Ainda assim, este OE2013 é uma licença para matar a torto e a direito, só não mata a direita. Ou matará?
O dia 27N, que, para mim, tem sido um dia bonito, o aniversário do meu dependente mais antigo, do meu quatro patas mais duradouro de sempre (sim, o meu Domingos fez 17 anos) transformou-se também num dia de nojo. Hoje choro as oportunidades perdidas ainda antes de o serem, as mortes que já aumentaram e continuarão a aumentar, a desesperança dos meus compatriotas, a fome que muitos passam e muitos mais passarão, a perda de dignidade, o aumento do crime e da marginalidade, o futuro que não há-de vir. Choro a falta de respeito, o desprezo que estes (des)governantes manifestamente sentem pelo povo que, enganado por falsas promessas eleitorais, os elegeu. Choro a falta de tomates que os cinzentões parlamentares tão claramente demonstraram. Esperava que houvesse por parte de algum deputado mais escrupuloso, com alguns valores morais, um desvio à disciplina de voto. Esperava, mas sem grandes esperanças. A manobra de diversão que se seguiu à votação mais não é do que a confirmação absoluta da falsidade em que aqueles fulanos se movimentam. Nem para consigo próprios conseguem ser honestos
Neste dia, em 2012, fez-se história. Os nossos deputados fizeram história. Fizeram um dos capítulos mais negros da História de Portugal. Atiraram connosco para um passado distante e nada saudoso. Fizeram-nos recuar décadas. Nada que não viesse lentamente a acontecer. Temos todos notado ao longo dos anos. Embora haja maior acesso a bens, produtos e serviços, o nosso poder de compra tem sistematicamente vindo a ser diminuído. Mas neste 27N foi desferido o golpe fatal na vida portuguesa. Sem apelo nem agravo. Todos perdemos mais direitos. Todos perdemos dinheiro. Todos perdemos dignidade.
Afinal, a nossa AR é mesmo constituída por ratos. Ratos, não. Ratazanas. Daquelas gordas de esgoto. Barrigas cheias de lixo e excrementos, ninguém as quer por perto, com receio de contágio de doenças terríveis. Não temos lá homens nem mulheres. Temos uma seita de parasitas que, por falta de capacidades administrativas, embora muitos tenham uma vasta experiência como administradores da treta, secam tudo à sua volta. Plantação de ervas daninhas que prolifera, avança, dissemina o seu parasitismo, eliminando, sugando tudo e todos os que ainda são capazes e produtivos. Fazem-me lembrar uma frase que se dizia bastante há uns anos atrás: «Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.» É isso mesmo. Eles não sabem nem sonham. Não imaginam o que é viver com um salário mínimo cada vez mais magro. Não sabem o que é ter que pagar casa, água, electricidade. Não sabem o que é ter que sustentar filhos com esses míseros salários. Não sabem o que é passar noites sem dormir porque não se sabe como se vai alimentar as crianças no dia seguinte ou pagar as contas, ou pedir ao senhorio para adiar mais um bocadinho o pagamento da renda. Eles não querem saber porque não precisam de saber. Gostam de não saber. É-lhes conveniente não saber. E claro que sentem raiva de quem sabe. De quem os pode envergonhar. Esfregar-lhes na cara a sua ignorância. Ninguém gosta de ser confrontado com a falta de conhecimentos. E os arrogantes e charlatães ainda gostam menos.
E agora todos os olhos se viram para Belém. Esperam que daí surja alguma luz? Desenganem-se! É só escuridão para aqueles lados. Há muito que aquela lâmpada está fundida.

Comments

  1. Amadeu says:

    Maravilhosamente escrito. Obrigado por dar voz ao que sinto.

  2. Fernando says:

    O princípio do fim não do governo, mas de todo este podre regime.

  3. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Talvez também o princípio do fim desta UE quepelo menos desde 2008 se revelou na “grandeza”que nunca teve

  4. António M. C. Carvalho says:

    Minha estimada poetisa,
    Já aqui no Aventar me chamaram “fascista”, só porque não alinho no coro de impropérios que se tornou moda colar ao actual governo. Diz no seu belo texto que os portugueses já foram mais ricos (ou menos pobres…) nestes últimos 40 anos…Permita-me que lhe diga que não tem razão. O que os portugueses foram foi mais enganados, pensaram que eram ricos porque podiam gastar mais, mas só porque pediam emprestado.
    Não sou masoquista, este governo tem cometido erros e tem falhado estrondosamente na comunicação com os zés pagantes, mas ninguém vai morrer de fome. Com certeza que iremos sofrer na satisfação das nossas necessidades. Mas nem todas as necessidades são básicas, nem todos os portugueses, sejam eles de direita, de esquerda, do centro ou apolíticos vão sentir o amargo da crise. Sempre foi assim e sempre assim será. Recordo que se gastaram este anos 41 milhões de euros nos festivais de Verão, que os estádios de futebol dos chamados clubes ricos se enchem de dezenas de milhares de adeptos, que a quebra na venda de automóveis foi menos acentuada no carros de luxo…
    Há muita coisa a mudar ? Claro que há. As regalias de que gozam os políticos, por exemplo. A exclusividade dada aos partidos para fazerem política. A própria Constituição.
    Quase toda a gente a querer derrubar este Governo. Para quê?
    Vá, não seja tão pessimista…
    Deixe isso para os velhos que já não esperam ver a luz ao fundo do túnel (ou do poço?)—


    • Caro António Carvalho, já estou cheio de ouvir a tese de “gastamos acima das possibilidades” que trespassa o seu comentário. Eu gastei sempre dentro das minhas possibilidades, mas estas estão sucessivamente a ser encolhidas por factores alheios à minha vontade e que não posso controlar. Claro que não é assim para todos, e alguém tem posses entre todos nós. O que vejo é que as pessoas que conheço, que trabalham e vivem disso, atravessam grandes dificuldades enquanto outros (alguns) cavalgam a onda e afirmam que há que fazer sacrifícios.
      Quem gastou acima das possibilidades foram os governos sucessivos, aliciados a isso pelas transferências da UE e o populismo. Agora temos que pagar, mas só os que trabalham e vivem do seu trabalho pagam, porque o governo foi entregue sucessivamente a pessoas que nunca souberam nem sonham o que é ir a uma empresa com o CV debaixo do braço pedir emprego sem conhecer ninguém lá dentro, ou andar a tentar fazer negócios sem levar recomendação dos conhecidos e amigos comuns…
      Eu vivo dentro das minhas possibilidades, mas abaixo das minhas necessidades, e não vejo fim para isso.

      • António M. C. Carvalho says:

        Mas eu concordo consigo, pode crer que concordo! …
        Não calvaguei onda nenhuma… Aos 56 anos até fiquei desempregado e sei o que isso custa, mesmo tendo minha mulher a trabalhar e os filhos já criados, embora alguns ainda a estudar…
        A dificuldade em fazer-me compreender deriva do facto de não podermos extrapolar do colectivo para o particular. É, mais ou menos, o caso das estatísticas e do conhecido exemplo de se dizer que cada português come 1/2 frango por mês… Claro que haverá portugueses que não comem nem 1 frango por ano ! No entanto o inverso também é verdadeiro e do facto de haver quem viva momentos de carência dramática não implica que todos os trabalhadores portugueses vão viver miseravelmente por causa do OE para 2013.
        Custa-me é aceitar que todo o azedume recaia sobre o actual governo quando, no meu parecer, é o menos culpado do estado de subserviência pindérica a que o País chegou.

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