Não Snifarás o Incompetente Passos em Vão

Sou dos que não se perturbam demasiado com o que muitos passosfóbicos qualificam de subserviência exasperante deste Governo perante a corte de poderes externos que põem e dispõem da nossa vida por via dos cruéis Orçamentos deste Ajustamento. Nem tudo o que parece é, e o velho chinês caricatural, retratado a saudar com sorrisinhos e vénias sucessivas o legado estrangeiro, ao recebê-lo para negociações, é o mesmo que se comporta de forma inflexível e inquebrantável, entre esgares amistosos, levando sempre a melhor. Se neste Governo Possível houver homens para negociar à chinesa, poderemos bem com as suas aparentes mesuras e desmesuras subservientes e com a aparente anuência acrítica perante os interventores externos, desde que, lá no fundo onde a mão esquerda desconhece o que faz a a mão direita, se defenda o interesse geral. Ressalve-se tratar-se esta justamente de uma intervenção externa, a qual, por natureza, salvo determinados limites, põe e dispõe de facto das nossas vidas, e à qual ou obedecemos e cumprimos, de facto!, ou cumprimos e obedecemos na mesma. Quem tem argumentos ou os gera, negoceia. Quem está numa posição de força tende a dominar a negociação e nunca o contrário. Ponto.

Infira-se, portanto, que, para Passos, a obediência ao [e o cumprimento do] processo são um absoluto que nos relativiza, a nós, cidadãos, infelizmente. Por isso, à mentira eleitoral de nos preservar e salvaguardar de cortes e perdas de direitos, sucedeu-se rapidamente a verdade pura e límpida para os credores e que os tranquilizou: toda a dívida que o Estado Português contraiu seria paga. Juros. Tudo. Custasse o que custasse. O Estado Português não se ajoelhará, custe o que custar. Para esse efeito, a única via será empobrecer dramaticamente o País, a População, a não ser que o trabalho renasça e o investimento, aumentando, contrabalance esta Blitzkrieg confiscatória. A nossa frustração cresce. Mas não servirá de nada. E não há nenhuma luz ao fundo porque isto só dá túnel.

A esta distância, o maldito custe o que custar, sendo um registo de força, coragem e determinação, para credor ver, funcionou como um passe retórico para cilindrar e eliminar quem efectivamente passa mal e paga de mais. Talvez, na cabeça sistémica de um ex-Funcionário do BCE, como Gaspar, a escolha fosse muito clara e tenha sido feita bem cedo: todo o prestígio possível lá fora; cá dentro, simpática indiferença e simpático desprezo pelo ódio que efervesça.

Por exemplo, a questão do IVA na restauração foi um acto de pura terraplanagem moral, desmoralização que desempregou e faliu, darwinismo correctivo de um suposto problema de concorrência desleal entre especializados e não especializados na área em questão. Claro que há sinais promissores para a «estabilidade sistémica da área do euro» e excelentes medidas possíveis que injectam esperança e sobretudo confiança, mas a passosfilia vai tímida, desiludida e residual. Porquê? Porque a negligência-indiferença ao que os cidadãos pensem, saibam, vejam, conduz a que nada inverta a imagem de mediocridade no discurso interno. Um discurso que não explica, não expõe, não acalenta. Essa mediocridade, insistem passosfóbicos, ex-passosfílicos e passofílicos arrefecidos, só pode relevar da do emissor, somada ao servilismo evidenciado perante os subalternos que nos visitam trimestralmente em nome da Troyka, e que supervisionam o Memorando no Parlamento ou nos ministérios.

Passosfílicos ou passosfóbicos, nenhum dos dois, teremos em todo o caso, de ter extrema paciência com todas as formas de imbecilidade e pânico que sobrevierem. Imbecilidade de quem fala ou de quem cala. Pânico de quem fala ou fala: venham do Primeiro-Ministro, muito dado a homilias contraproducentes e repletas de mal-entendidos; venham da Esquerda Paleolítica, que luta no radicalismo suicidário estatista, utópico, e labora na antidemocracia destrutiva e no unilateralismo como formas de vida; venham da pusilanimidade constitutiva do PS, na sua actual versão/emanação moluscular, vibrátil à sondagem, ultrassensível ao imediatismo mais covarde e catavento.

A forma como somos tratados pelos poderes externos, já percebemos, é imensamente paternal, um misto de condescendência e tolerância que se tem com gente num estado lastimável, rebaixada e menorizada ao estatuto de pedinte graças ao trabalho zeloso de ex-políticos inimputáveis. Christine Madeleine Odette Lagarde ou Wolfgang Schäuble, todos eles têm uma imensa piedade de nós. Olham-nos, aliás, como gente, a qual, por ser simpática, vão ajudar, aconteça o que acontecer.

Caminhámos colectivamente contra a parede? Temos de nos sujeitar ao acordado e comprometido pelos partidos nos quais votamos maioritariamente e se envolveram nesta trapalhada, pelo menos é o que parece pensar 63,5% dos Portugueses sondados. Outros partidos não se envolveram: que legitimidade têm para propor rasgar, demitir, mudar, matérias gravíssimas que poderiam ter influenciado?! As ruas não vão reeducar Merkel, não vão reeducar o a ela reverencial Passos Coelho. A Pátria vai frustrada, mas há, tem de haver, mais vida para além do Governo, mais Portugal para além dele.

Onde está o Portugal que invoca e convoca os portugueses em vez de invocar e convocar um Governo Impotente, sem dinheiro e sem veleidades de o distribuir a pacotes como no passado?! As nossas indignações corporativas e os nossos protestos sectoriais, a nossa miséria e a nossa fome vão frustrar-nos ainda mais, em 2013, vão violentar-nos a sanidade, tal como o confisco que por si só nos reprimirá, consumando a indecência colectiva de termos consentido ser conduzidos a este grau de indigência pelas mãos absurdas de uma elite política desqualificada e inqualificável.

Paradoxalmente, Passos é o homem perfeito, o que mais serve à Troyka. Ele é aquele que só muito mais tarde concluiremos ter servido maravilhosamente também o País, os falidos, os desempregados, os abandonados do Estado. Porquê? Apenas porque a nossa actual prioridade, na verdade, era ter em nosso nome, para decidir e negociar, uma forma de vida e de incompetência que pagasse dívidas, que corrigisse distorções económicas semeadas pela competência hirta de Cavaco, consolidadas pela benevolência misericordiosa de Guterres, detonadas pela competentíssima visão visionarista de Sócrates. Alguém que fingisse reformar o esqueleto geral da nossa vidinha habitual, mas que afinal não reformou, somente recauchutou o socialismo das elites, dos interesses estabelecidos, das lógicas e das vantagens garantidas pelos mesmos de sempre. Perfeito. Sintam-se privilegiados apenas com o leve snifar desta multiforme e paradoxal incompetência útil.

Um dia, portanto, veremos a absoluta e indeclinável utilidade triunfal da incompetência que muitos detectam em Passos Coelho. Uma incompetência que não terá deixado ficar mal os credores. Uma incompetência à qual Angela Merkel terá apertado a mãozinha exemplar muitas vezes e terá feito frequentes rasgados elogios. Uma incompetência utilíssima à aprendizagem tortuosa do FMI nas suas entradas à leão e saídas de sendeiro nas argentinas deste mundo. Incompetência à qual Abebe Selassié terá apertado o pescoço, mas apenas para lhe dar um beijo na boca. Só então o beatificaremos.

Comments

  1. patriotaeliberal says:

    Vou adivinhar o conteúdo do teu post porque estou com pressa:

    Coitadinho do Passos.

    • patriotaeliberal says:

      Acho que acertei:

      Tese: O Passos é incompetente;
      Desenvolvimento: O Passos é perfeito porque….
      Conclusão: A culpa é do Guterres e do Sócrates.

    • palavrossavrvs says:

      Cavaco. Também imputei a culpa ao Cavaco. Não esquecer.

  2. Amadeu says:

    Novo mandamento do Palavroso:
    Não pirilimparás a política do Passos Coelho.
    FOI O SÓCRATES !!

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.