A democracia da injustiça e do conflito

O ambiente sociopolítico tem vindo a registar uma degradação e tensões crescentes. Em complemento de manifestações de oposição ao governo, frequentes e mais ou menos participadas, sucedem-se protestos e vaias “inorgânicos”, de Norte a Sul do País.

No fim-de-semana, em Trás-os-Montes, o primeiro-ministro foi acolhido em ambiente de contestação por grupos diversificados em função da área profissional e/ou económica. Hoje, a semana iniciou-se com o impedimento do secretário de Estado dos transportes, Sérgio Monteiro, de discursar na conferência “A região metropolitana, a mobilidade e a logística”, em Lisboa.

Salvo a fase do PREC, naturalmente turbulenta, nunca o nível de conflitualidade social se elevou a este tom. Naturalmente, que a receita de dura austeridade prescrita pela CE, em especial pelos países poderosos da ‘Zona Euro’ aliados ao FMI, está na origem das contestações às injustiças do governo actual: captura e redução de rendimentos a funcionários públicos, reformados e pensionistas, liberalização dos despedimentos e consequente expansão desenfreada do desemprego e de insolvências, propósito de afastamento de dezenas de milhares de profissionais da função pública, endividamento externo em acelerado crescimento, quebras acentuadas do PIB e défice orçamental acima das previsões governamentais.

Os sacrifícios e os níveis de pobreza impostos a milhões de portugueses, geram, em alguns segmentos de população, um estado de revolta semelhante àquele que hoje atingiu o grupo que hostilizou o secretário de Estado Monteiro.

A atitude dos manifestantes poderá, à primeira vista, ser classificada de imprópria da convivência democrática. Todavia, as políticas provocatórias e anti-sociais do governo de Passos Coelho constituem a razão primeira para o clima de perturbações. Os portugueses, mesmo aqueles tidos erradamente na conta de desinformados, apercebem-se de erros fatais para o agravamento das contas públicas, caso da opção dos ‘swaps exóticos’. Alguns dos cidadãos questionam-se mesmo por que motivo a secretária de Estado, Maria Luís Albuquerque, usufruiu de impunidade, a despeito de ter realizado operações dessa natureza como directora financeira da Refer, segundo o IGCP.

Enfim, este é, de facto, um governo que, à insensibilidade social, junta a incompetência de um poderoso ministro das finanças, Vítor Gaspar, que até o próprio Marcelo de Rebelo de Sousa, ontem, no comentário na TVI, classificou de “bastante inútil’.

Com o silêncio de Belém – por cumplicidade ou cobardia – estamos condenados a viver esta democracia em que se cultiva a injustiça e se fomenta o conflito, a partir de governantes ineptos, desonestos nos compromissos públicos e nas acções.

Gaspar na AR há dias culpava o PS pelo conteúdo do memorando da ‘troika’ – naturalmente que o PS tem responsabilidades e não são desprezíveis. Mas Gaspar tentou torpedear a opinião pública. Esqueceu-se deliberadamente de que também o PSD comparticipou nessas responsabilidades, atirando para fora da memória a euforia com que Passos Coelho e Catroga juraram fidelidade perante o sinistro triunvirato ao ‘memorando de entendimento’ formalizado com o contributo ‘laranja’ – isto, no início de Maio de 2011.

O estado actual da democracia portuguesa é deveras inquietante, não sendo menor a preocupação de assistir ao desfile pelo País de um Seguro, secretário-geral do PS, que através de discursos redondos e ocos deixa em grande parte dos portugueses a quase certeza de não ser a solução de que Portugal carece. Abordarei o tema em separado, em futuro próximo.

7 comentários em “A democracia da injustiça e do conflito”

  1. A imagem eufórica, com que o Catroga mostra
    o seu telemovel, com fotos do acordo com a
    Troika, ficará gravado na minha memória para
    sempre.

  2. Estamos entregues aos bichos , mas é preciso continuar
    a lutar até que estes indivíduos todos , dos governos an-
    teriores também , sejam julgados .
    Não basta caírem , isso é um mal menor para eles ,
    Vai sr uma luta difícil , contra Catrogas e outros que tais
    que nunca prestaram para nada e nunca fizeram nada
    pelo País a não ser embolsar .

    1. E o que fazem ou tem feito os portugueses para não estarem entregues aos bichos?
      Defendem-se a cantar a Grândola vila morena?
      Defendem-se a fazer greves sem resultados visíveis? A não ser os comes e bebes em alegre convívio no Park Eduardo VII ? Ou gritar palavras de ordem desenhadas e impostas pelos tratadores e domadores dos bichos – partidos e sindicatos?
      Poderia aqui descrever uma cascata de situações.
      Compreender a sociedade portuguesa das suas complexas relações politicas, sociais e laborais não e’ tarefa fácil.
      A desunião do povo português, e,’ na opinião de quem esta’ há alguns anos fora de Portugal – mas acompanha e vive intensamente a vida politica – , o maior “cancro” da sociedade.
      As dificuldades e conflitos actuais, passam pela necessidade de união. Por que e’ ela que faz a força. O que temos assistido e’ a um desmembramento dessa força.
      Numa altura em que a sociedade portuguesa esta’ toda ela a passar por imensas dificuldades de sobrevivência, não e’ com
      divisionismos de esquerda ou de direita que os portugueses se livram de ser comidos pelos “bichos”.
      Primeiro endireitar o Pais. Depois logo se vai a’ ver qual a forca partidária que governara através do voto. Voto esse que não deve ser manobrado pelos “bichos”.
      Em Portugal a justiça e’ uma anedota das mais vernáculas! Há personalidades politicas – e não só – que enriqueceram fraudulentamente há sombra da democracia.
      Estas são as duas grandes prioridades pelas quais o povo devia lutar. Mas não!
      Pede-se esta ou aquela cabeça politica, e não se passa disto.
      Os políticos são todos, repito todos, pelo do mesmo cão. Apenas diferem na raça.
      As centrais sindicais servem-se do trabalhador para os seus fins políticos. Organizam uma greve, sem consequências imediatas. E assim la vão sobrevivendo politicamente.
      Diz-se que Portugal bateu no fundo. Ora fisicamente do fundo na passa. Então, deve-se exigir ao governo (usando SE NECESSARIO a desobediência civil e ou paralisação do Pais de forma civilizada, para mostrar ao mundo que não somos bichos, mas estamos ser mastigados por bichos) que ponha a justiça a funcionar, e que se julgue e confisque o que os cidadãos como nós, mas camuflados de políticos, roubaram aos portugueses.
      Mas esta “utopia” não interessa a nenhum partido ou sindicato.
      A solução simplicista passa por correr com este ou qualquer outro governo, para depois se votar noutro governo que se expulsou!
      E assim vai Portugal.

      1. Amigo Carlos Fonseca
        Em resposta , mantenho que estamos entregues aos
        bichos , cujo o sentido desta expressão conhece e
        não creio ser diferente do que exprime no seu co-
        mentário, com o qual concordo e é óbvio que proble-
        ma de Portugal já não é uma questão de esquerda
        ou direita , cujas diferentes ideologias respeito , des-
        de que não sejam depravadas e corruptas como
        Sócrates e outros mais que todos nós sabemos .
        Não sou contra que haja eleições , só que tudo está
        feito para eleger a corrupção à esquerda e à direita .
        Não se percebe que num país em desgraça , tido co-
        mo falido , se consiga roubar tanto dinheiro .
        A justiça é outro cancro da nossa Sociedade , da qual
        tenho sido vítima , por arbitrariedades e perseguições.
        porque não gostam de ouvira as verdades . .
        Há cerca de 2 anos contestei uma Juiza por me de-
        negar justiça . Todos os requerimentos não obtinham resposta e eram devolvidos . Solicitei apoio judiciário
        e em vez de suspeder o processo continuou com ele .
        Levantou-me logo um processo por difamações e não
        sei que mais , como se fosse um grande bandido , por
        causa da execução dum andar , com a qual nada
        tinha a ver .
        Tive talvez a sorte de a Sra Juíza que julgou este caso ,
        não se deixar influenciar , porque era talvez
        demasiado evidente que não tinha havido qualquer
        ofensa . Cujo desfecho se deu agora .
        A decisão da juíza dita ofendida , foi deixar-me na misé-
        ria , cujo processo vai continuar que demonstrou autên-
        tico abuso de poder .
        Citei este caso em traços gerais , porque tinha muito
        mais que contar , só para corruborar consigo o que
        disse sobre a justiça .
        Tenho um processo no Tribunal há mais de 30 anos
        por resolver por causa da ocupação duma moradia
        e tenho outros processos há mais de 20 anos para
        resolver , nomeadamente partilhas , que já vêm do
        tempo dos meus falecidos pais .
        Mantenho que as todas as pessoas que desgoverna-
        ram este País devem ser julgadas .
        Obviamente , que não só políticos que tiveram culpa .
        A Justiça ,os senhores Banca , mas não são os ban-
        queiros , muitos funcionários entraram no jogo da cor-
        rupção e outras jogadas.
        A corrupção é o principal problema deste País . É um
        problema mundial ..
        Devemos estar todos unidos e marcar um dia em que
        todos batam os pés a esta gente que nos explora ,
        prejudica o ensino , a economia , a indústria , o o-
        mércio , em suma , tudo degrada .
        Unidos sem divisionismos partidários ou ideológicos .
        Estamos todos a pagá-las por causa desta cambada .
        Saudações e gosto de ver os seus comentários ,
        como outros neste blog .

  3. Caros Ausente Irreverente e Fernando Cardoso dos Santos,
    Limitei-me a reproduzir a imagem do País tal qual o vejo e sinto.
    Não acredito em soluções de miraculosa e voluntária cooperação entre os portugueses para vencer a crise. O individualismo, associado a sectarismos partidários e ideológicos, é demasiado acentuado para um uninamismo político-sociológico do qual, além do mais, discordo. A sociedade humana é constituída por seres com interesses divergentes e há-de sempre funcionar pautada pela dialéctica, na disputa e no exercício do poder.
    Desçamos à terra e a um País bem concreto que é Portugal, onde, como sempre, existem dominadores e dominados. Lutemos para que o poder político seja exercido com honestidade e respeito pelo interesse geral, em especial dos menos favorecidos. A segregação e a exclusão sociais são um crime e 9,5 biliões de euros a marinar em ‘offshores’ seria mais do que suficiente para resolver o problema de Portugal e de outros países que igualmente penalizam as populações com abandono, pobreza e até miséria.

    1. Caro amigo Carlos Fonseca
      Não discordo do seu comentário , bem como de muitos
      outros que também , muito aprecio , quer sejam mais à
      esquerda ou à direita , de todos os participantes neste
      Blog , no qual gosto de participar também ..
      Para mim o problema não se põe de ser de esquerda
      ou de direita , porque já conheci muita gente de esquer-
      da e de direita , que são pessoas excepcionais .
      .
      O que me preocupa é uma questão de justiça social ,
      dado que cada vez vejo mais miséria , desemprego e
      falências e cenas assutadoras .
      Obviamente , há que responsabilizar os políticos que
      nos deixaram neste lamaçal , neste pantanal , sem fim
      à vista , cad ez mais conspurcado .
      Claro que existirão sempre diferenças , mais que não
      sejam de opinião . Mas não podemos ficar impávidos
      perante tantas injustiças , tanta exploração , tanta
      mentira , tanta roubalheira , em suma , tanta corrupção,

      Tem que haver justiça verdadeira e basta que os seres
      humanos verdadeiros , e não humanóides , o queiram
      e isso está perfeitamente nas nossas mãos .
      O que é preciso é que nos revoltemos como aconteceu
      na Tunísia e agora na Turquia .
      Esses povos têm mais vontade e iniciativa de combater
      o banditismo político do que nós .
      Nâo sou defensor da guerra , da desordem, só que as
      coisas chegam a tal ponto que não há outra alternativa.

      Claro que a tarefa poderá não ser fácil , mas também
      não me parece difícil e muito menos impossível .
      O que temos é de estar todos unidos , esquerda e di-
      reita contra o inimigo comum de políticos escabrosos ,
      sem pejo , à esquerda e à direita que nos têm desgo-
      vernado.
      É contra isto que luto e creio que todos queremos lutar ,
      porque algum dia nem caixotes do lixo temos para nos
      sustentar . Só eles é que passam ter direito à vida ,
      Já estamos a viver uma ditadura que pior que no tem-
      po da PIDE , só espero, entretanto , seja travada .
      .
      Um abraço e continue a expressar-se para bm de to-
      dos nós e do País , mesmo com diferenças de opini-
      ões todos nos poderemos entender , viver em paz
      sem guerras .
      dos nos poderemos entender ., basta não sermos la-
      drões , nem egoístas e sejamos respeitadores de to-
      dos as pessoas deste mundo , sem racismos .

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