Os três pastorinhos e a greve dos professores

Por Santana Castilho

Depois do presidente Cavaco, que não é palhaço como sugeriu Miguel Sousa Tavares, ter atribuído à Nossa Senhora de Fátima a inspiração da trindade que nos tutela para fechar a sétima avaliação, vieram três pastorinhos (Marques Mendes, Portas e Crato) pregar no altar do cinismo, a propósito da greve dos professores: “… marcar uma greve para coincidir com o tempo dos exames nacionais … não é um direito … é quase criminoso … é uma falta de respeito …” (Marques Mendes); “… se as greves forem marcadas para os dias dos exames, prejudicam o esforço dos alunos, inquietam as famílias …” (Portas); “… lamentamos que essa greve tenha sido declarada de forma a potencialmente criar problemas aos nossos jovens, na altura dos exames …” (Crato).
Marques Mendes “redunda” quando afirma que a greve é um direito constitucional. Mas depois qualifica-a de abuso e falta de respeito. Que propõe? Que se ressuscite o papel selado para que Mário Nogueira e Dias da Silva requeiram ao amanuense Passos a indicação da data que mais convém à troika? Conhecerá Portas greves com cores de arco-íris, acetinadas, que sejam cómodas para todos? Que pretenderia Crato? Que os professores marcassem a greve às aulas que estão a terminar? Ou preferia o 10 de Junho? A candura destes pastorinhos comove-me.
Sem jeito para sacristão, chega-me a decência mínima para lhes explicar o óbvio, isto é, que os professores, humilhados como nenhuma outra classe profissional nos últimos anos, decidiram, finalmente, dizer que não aceitam mais a desvalorização da dignidade do seu trabalho. Porque se sentem governados por déspotas de falas mansas, que instituíram clandestinamente um estado de excepção. Porque, conjuntamente com os demais funcionários públicos, se sentem alvo da raiva do Governo, coisas descartáveis e manipuláveis, joguetes no fomento das invejas sociais que a fome e o desemprego propiciam. Porque têm mais que legítimo receio quanto à sobrevivência do ensino público. Porque viram, na prática, os quadros de nomeação definitiva pulverizados pelo arbítrio. Porque rejeitam a vulgarização da precariedade como forma de esmagar salários e promover condições laborais degradantes. Porque foram expedientes perversos de reorganização curricular, de aumento do número de alunos por turma e de cálculo de trabalho semanal que geraram os propalados horários-zero, que não a diminuição da natalidade, suficientemente compensada pelo alargamento da escolaridade obrigatória e pela diminuição da taxa de abandono escolar. Porque a dignidade que reivindicam para si próprios é a mesma que reclamam para todos os portugueses que trabalham, sejam eles públicos ou privados. Porque sabem que a tragédia presente de professores despedidos será o desastre futuro dos estudantes e do país. Porque a disputa por que agora se expõem defende a sociedade civilizada, as famílias e os jovens.

Rejeito a modéstia falsa para afirmar que poucos como eu terão acompanhado o evoluir das políticas de educação dos últimos tempos. Outorgo-me por isso autoridade para afirmar que é irrecuperável a desarmonia entre Governo e professores. A confiança, esse valor supremo da convivência entre a sociedade civil e o Estado, foi definitivamente ferido de morte quando a incultura, a falta de maturidade política e o fundamentalismo ideológico de Passos, Gaspar e Crato trouxeram os problemas para o campo da agressão selvagem. Estes três agentes da barbárie financeira vigente confundiram a legitimidade eleitoral, que o PSD ganhou nas urnas, com a legitimidade para exercer o poder, que o Governo perdeu quando escolheu servir estrangeiros e renegar os portugueses e a sua Constituição. Com muitos acidentes de percurso, é certo, a Nação cimentada pela gestão solidária de princípios e valores de Abril está a ser posta em causa por garotos lampeiros, apostados em recuperar castas e servidões. Alguém lhes tem que dizer que a educação, além de direito fundamental, é instrumento de exercício de soberania. Alguém lhes tem que dizer que princípios que o Ocidente levou séculos a desenvolver não se podem dissolver na gestão incompetente do orçamento. Alguém lhes tem que dizer que o desemprego e a fome não são estigmas constitucionais. Que sejam os professores, que no passado se souberam entender por coisas bem menores do que aquelas que hoje os ameaçam, esse alguém. Alguém suficientemente clarividente para vencer medos e comodismos, relevar disputas faccionárias recentes, pôr ombro a ombro contratados com “efectivos”, velhos com novos, os “a despedir” com os já despedidos. Alguém que defenda o direito a pensar a mais bela profissão do mundo sem as baias da ignorância. Alguém que diga não à transformação da educação em negócio. Alguém que recuse transferir para estranhos aquilo que nos pertence: a responsabilidade pelo ensino dos nossos alunos.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments


  1. Não sou professor , mas defendo a greve dos professores .
    realmente , cavaco não é palhaço . faz de nós parvos . É
    cínico , cretino , desumano e por caudsa dele estou na
    miséria . Sei bem do que falo , pois fui o indivíduo que no
    tempo do sinistro cavaquismo ,mais o apoiou .
    Os agradecimentos foram e são , a causa da minha miséria
    e ainda me perseguiram e perseguem , porque não gostam
    de ouvir as verdades .
    Tudo o que esta a acontecer , já eu anunciava nesse tem-
    po e não m enganei nem uma grama , nem numa letra .
    Aí está a CORRUPÇÃO continuada em todo o seu explendor.
    Há mais de 20 anos que deixei de votar , porque deixei de
    acreditar nos políticos , são todos serissímos , não há ne-
    corrupto e incompetente .


  2. Valia a pena convidar um tipo para vir aqui misturar alhos com bugalhos?
    É claro que os professores têm uma vida incerta e difícil – mas qual é a profissão que não tem? É claro que o ME é um péssimo patrão – mas onde estão os bons patrões?
    Isso não quer dizer que os professores não devam protestar e defender os seus direitos – mas liquidar um exame nacional não me parece que lhes sirva de alguma coisa. Por causa da demografia (cada vez menos crianças) da desertificação do interior e urbanização, cada vez são precisos menos professores. Ser professor não é uma vocação divina, imutável; pode mudar-se de profissão, como fazem os profissionais de tantas áreas em redução. É o que acontece em toda a parte; acabam-se os ferreiros, os carpinteiros de toscos, etc. e crescem os programadores de computador, os assistentes da terceira idade, etc.
    Se não fosse a agenda escondida por trás da Fenprof – aliás, nem tão escondida assim – o sindicato o que já teria feito era organizar a reciclagem de professores para outras profissões. É triste, mas é inexorável.
    O Mário Nogueira está há décadas a dirigir a Fenprof por encomenda do PCP com o único objectivo de desestabilizar o ME, coisa que faz muito bem. Quandos ministros, de todas as cores e feitios, ele já queimou? Seis, oito? A agenda do Partido não tem nada a ver com os interesses dos professores e é uma pena que eles não percebam isso. Com os interesses dos alunos, ainda menos.

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