Os vitoriosos da treta

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Sobre a decadência dos partidos já escrevi aqui, designadamente sobre Matosinhos, caso paradigmático de estapafurdice do PS, lamentavelmente corroborada por pessoas inteligentes e que já deviam ter juízo, como Manuel Maria Carrilho, que não se importou de se sentar ao lado de um candidato sem qualidades (e com tristes projectos para a Cultura) para enfrentar quem já tinha caminho feito naquela câmara municipal – Guilherme Pinto, que acabou por ganhar como independente.

Decadência, sim, dolorosa de ver, sobretudo na visão da cegueira de quem acha que tudo pode continuar, e continuar na mesma. Acabou-se o tempo dos partidos, está chegada a hora de outra coisa:  já visível, embora ainda com as naturais ligações às máquinas partidárias (de onde viriam esses valentes se não dos partidos?) As pessoas querem votar em pessoas, e estas Autárquicas comprovaram-no.

Bem podem os aparelhos partidários protestar, punir, expulsar: os destinatários da sua acção (missão política) não querem já saber dessas revoltas que nada mais são do que a movimentação dos ratos no porão de um navio naufragado. E o Bloco de Esquerda, apesar de ser uma organização partidária recente, não se safou.

Centralismo do BE, acusam alguns. Trabalho insuficiente junto das populações e distância demasiada entre uma retórica e a realidade de que se serve, dizem outros a quem indigna uma acção essencialmente virada para o Parlamento, que fornece bons ordenados (passíveis de manter os bons níveis de vida burgueses de que não querem abrir mão, dizem esses que se consideram a salvo do aburguesamento) e tempo de antena nos media.

As elevadas taxas de abstenção (nalguns casos ultrapassaram os 60%, como por exemplo no Montijo, ou em Setúbal) e os votos brancos e nulos, que desta feita foram muito significativos, obrigam a mudanças e a um debate sério e consequente, e nomeadamente sobre as práticas de ascensão ao poder e a forma das campanhas eleitorais: já ninguém quer saber dos autocolantes e das idas às feiras, das bandeiras e dos carros de som, dos discursos paternalistas que tratam o povo como se fosse todo composto por atrasados mentais, e de todas essas “acções de campanha” que nada representam a não ser dinheiro gasto com foguetes fora de prazo.

Falem-nos do que pensam fazer relativamente ao bicudo contexto Europeu, digam-nos de que modo enfrentarão os cortes que a UE já destinou para Portugal a partir de 2014 (o orçamento comunitário foi pela primeira vez reduzido para despesas com coesão, e vamos “ter direito” a menos cerca de 10% de fundos comunitários até 2020), falem-nos de como julgam possível acudir ao isolamento e à pobreza de tantas populações, de como a mobilidade das pessoas pode ser melhorada (acham-se capazes de uma acção política capaz de ajudar a fazer reverter as privatizações dos transportes e demais serviços públicos?), falem-nos de como poderão tornar o acesso aos cuidados de saúde verdadeiramente universais, como vão resolver a falta de médicos de família (ou acaso acham normal haver cidadãos sem médico?), digam-nos como vamos fazer para sobreviver a esta crise, como proteger-nos da rapina e do subdesenvolvimento, e poupem-nos à propaganda e aos alardes de vitórias afinal tão pequeninas, vitórias da treta, como os dados da abstenção e dos votos brancos e nulos justamente revelam.

Mas estão todos calados que nem uns ratos, parece que ninguém se importa com as elevadíssimas taxas de abstenção e de votos de protesto, apesar de afinal os “vencedores” representarem tão poucos portugueses.

Comments


  1. Sim, mas quando a gente vê as personagens que estão por trás destes “independentes” e das “pessoas em que querem votar” só podemos ter mede, muito medo.

    https://fbcdn-sphotos-g-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc3/1238354_693527430658937_1774950258_n.jpg

    • Maquiavel says:

      Acabou-se o tempo dos partidos?
      Isso é “tomar os desejos por realidades e tomar decisões, ou seguir raciocínios, baseados nesses desejos em vez de em factos ou na racionalidade.”
      Dos independentes, só 1 ou 2 o realmente säo.

  2. Maquiavel says:

    Os vencedores representam os portugueses que quiseram ser representados. Ponto.
    Aos outros, que venha o verdugo que merecem.

    Ou ainda näo achindrarm que a subida da abstençäo (para além dos 10% à cabeça, dos fantasmos) foram PPDs desiludidos (ai tadinhos) que já näo querem votar no partido do Passos, mas que näo querem votar em mais ninguém porque para eles a política é como o futebol, logo näo se muda de partido?

  3. Sarah Adamopoulos says:

    A abstenção elevadíssima tem claramente origem nos descontentes do PSD, que se acrescentaram aos abstencionistas estruturais. Concordo com o leitor Maquiavel. Mas o que vos diz mais de 60% de abstenção nalgumas cidades? Que vitórias são essas que representam tão poucos? E não, não defendo a substituição dos partidos pelos ditadores, era o que mais faltava, mesmo se sei que estamos no tempo deles. Ó meu deus, não era nada disso que queria dizer. O que me aflige é a representatividade…

  4. Joaquim Carlos Santos says:

    Excelente post, ecuménico e certeiro no ponto exposto por estas Autárquicas 2013. Parabéns.


  5. USA – apagão orçamental – e que tipo de apagão é o português ??

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