Casa roubada, trancas à porta

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Esmiuçados os resultados das eleições europeias e constatado o crescimento exponencial dos partidos eurocépticos, vários líderes do pote burocrata europeu correram a alertar para o perigo que tal representa para o projecto europeu. Destacadas personalidades como Angela Merkel, Durão Barroso, Jeroen Djisselbloem, David Cameron ou François Hollande, vieram imediatamente a terreiro falar no problema do emprego e no seu compromisso para o combater. Não sei o que será mais idiota: se esta lógica de “casa roubada, trancas à porta“, se o simples facto de só se terem lembrado desse problema quando sentiram a sua posição ameaçada pelos radicais democraticamente eleitos.

Fico com a sensação que esta gente não percebe que são precisamente eles os principais responsáveis por este desfecho. Claro que tal sensação não passa disso mesmo uma vez que os burocratas europeus sabem perfeitamente aquilo que estão a fazer e as consequências dos seus actos. Talvez esperassem uma votação mais contida por parte dos adoradores de Hitler por essa Europa fora, talvez acreditassem que as ovelhas se continuariam a dirigir serenamente para o matadouro, mas a verdade é que agora vão ter que levar com as Marines Le Pens desta vida. E se andam por ai muitas gajas dessas, a verdade é que sem a gestão danosa e clientelista dos blocos centrais europeus em articulação com o sentimento de ódio que dai tem emergido, talvez continuássemos com um Parlamento Europeu servil com algumas heresias à esquerda do espectro e um Nigel Farage em permanente exercício de espancamento do sistema (reparem como o próprio Schulz aplaude Barroso quando este se defende da acusação de falta de legitimidade da sua representatividade).

O que vale à malta do pote, é que esse mesmo Nigel Farage não parece querer alinhar-se com Le Pen. Boas notícias para os puppets de Merkel: a extrema-direita está ai, em força, mas ainda não construiu as pontes necessárias para um entendimento. O tempo dirá até quando. Por agora, talvez seja o momento para que a aristocracia da UE reflicta sobre a hecatombe eleitoral e que perceba que a ascensão de radicais é a consequência natural da forma incompetente e manipuladora como têm vindo a gerir os destinos da união. Corrupção, clientelismo e inversão de prioridades são solo fértil para o florescimento dos fantasmas do passado e os radicais sabem bem como explorar essas variáveis. Acenar agora com trunfo do emprego, para além de pouco credível, poderá ter chegado tarde demais. Começou a corrida contra o tempo e as trancas na porta poderão não aguentar.

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  1. […] Socialista. Não falarei aqui sobre os tacticismos políticos de António Costa. Já o fiz no Aventar e não me vou repetir. Vou antes focar-me nos efeitos práticos que poderão estes movimentos ter […]

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