A minha corporação defende a tua contra os diabéticos

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Caiu a máscara à associação profissional, dita Ordem, dos enfermeiros. Uma juíza também ficou mal na fotografia.

A única vez em que sentei o cu no mocho, como arguido (a priori já “condenado”) em processo, foi por chamar distraído a um juiz, e amnésico a um meirinho. Já em democracia, mas vítima do corporativismo.

Foi por delito de liberdade de imprensa, a única benesse foi pagar a multa, que ressarciu os ofendidos, em prestações. E lá se foi o vencimento de de mês e meio, ou dois, que, pelos vistos, era o que valia a honra de Suas Excelências.

Anos mais tarde, num jantar em casa de amigos, acabei por conhecer a delegada do Ministério Público que deduziu contra mim a acusação numa terra então perdida entre caciquismos, terra sumida atrás dos montes. O funcionário, pelos vistos, tantas fez que acabou demitido; o juiz, ao que me foi dito, acabou mais tarde “desterrado” para os Açores – já não havia colónias – e por lá ficou, não sei se como juiz, mas por certo jubilado e com uma pensão muito superior à minha, que a multiplica por cinco ou seis, ou… Malgré tout!

A tardia medalha, confesso que apenas me deu um gozo circunstancial. Apenas me disse que tinha razão, pugnei pela liberdade, contra o sectarismo, acções que hoje em dia confortam pouco as almas e a mesa.

Respigar memórias pode fazer bem à alma, mas pode condenar-nos a escrevê-las, o que dá um trabalho do caraças.

Por isso, memórias à parte, o que me trouxe aqui foi o doutíssimo e humaníssimo despacho que a, soi disante, Meritíssima Anabela Araújo proclamou sobre a providência cautelar interposta pelos enfermeiros.

No termos da proclamação, a Rita, o Rui, o Ricardo, o Rolando, a Renata e o Rómulo,todos diabéticos, crianças, jovens, adultos novos ou velhos, com nomes começados por “R” (de Reprovador), estão liminarmente proibidos de terem um momento grave de hipoglicemia, exemplarmente se acontecer fora de casa (casa, onde guardam a injecção milagrosa no frigorífico, just in case). Exactamente porque os técnicos da emergência médica, presentes nas ambulâncias do INEM, estão desde agora proibidos de aplicarem glucagon nas ambulâncias do INEM.

Ora, essa injecção que todos os pais, filhos, netos ou avós de diabéticos, exemplarmente de tipo 1, guardam no frigorífico, após o primeiro episódio de uma situação de hipoglicemia, pode ser aplicada por qualquer pessoa, por isso fica em casa, guardadinha, até ser necessária.

Por experiência, conheço as sequelas psicológicas de mães que nunca ultrapassaram o terror (mesmo chamando-lhe terror, posso estar a ser eufemístico) de verem os filhos praticamente mortos, à distância de uma caixinha, com uma seringa cheia de glicose (lato sensu) que se aplica no rabo, na coxa, no braço, na barriga, praticamente em todo o corpo, e faz, biblicamente, a diferença entre a vida e a morte.

Claro que os técnicos de emergência médica, enquanto não for proibida a picada para quantificação de glicemia, no caso de estar gravemente baixa, poderão sempre abrir a boca do infeliz em pré-coma e esvaziar, goela abaixo, uma solução saturada de açúcar… Experimentem, experimente, Meritíssima!

Não foi a Senhora que visitou os hospitais antes de decidir sobre o fecho ou manutenção da Maternidade Alfredo da Costa?! Por que raio não fez o mesmo, agora? Sair com equipas da EM, até surgir um caso grave de hipoglicemia. Tenho a certeza (juro que tenho, é horrível) de que pensaria duas vezes antes de decidir como decidiu. Vale uma aposta?! Bora lá, Meritíssima.

Positiva, neste caso, a circunstância de ser uma decisão provisória sobre uma providência cautelar… E vamos todos rezar para que, enquanto prevalece este despacho, nada de mau aconteça. Por mais raiva que sinta, não gostaria de ver sangue nas mãos de uma juíza que acaba de suspender o suporte de vida a uns milhares de diabéticos.

E, sabe que mais, Meritíssima, estou-me nas tintas, para não falar em calão, que era o que era preciso neste momento, muito calão, verrinoso, sem contemplação. Processe-me! Eu sou diabético! E gostaria de a si, que foi capaz de fazer o que fez, e a todos os enfermeiros deste país, que inventaram e subscreveram este ultraje à vida, gostaria de vos ver parir filhos diabéticos, mas com as pernas amarradas, como aquela do Sudão.

Alegadamente os países são diferentes, somos democratas, que raio, avançados, ora essa, europeus, pois claro, e tal, blá, blá… Mas há, mesmo aqui, quem não conheça os limites entre a vida, a morte e a tortura.

Tout court!

Estou farto de ser comportado, cumprir os deveres cívicos, pagar crises dos outros, e não poder ser diabético minimamente em segurança, apenas porque uns aventureiros, armados em técnicos superiores de saúde e protegidos por uns vultos de negro, armados em juízes porque tiraram o curso, brincam com a vida, em nome dos superiores interesses de classe.

Ora aí está, mais uma vez: condenado em nome do(s) corporativismo(s).

Merda!

(Em favor da juíza: a Meritíssima não sabe, porque nunca assistiu por certo, o que é e como fica o infeliz num momento de hipoglicemia grave. Mas os enfermeiros sabem. Trabalham com episódios desses todos os dias. Acuso-os, aqui, de serem desumanos e cruéis).

E ficamos por aqui!

Comments

  1. alexandre says:

    Mostrar trabalho é sinal que se altera qualquer coisa nem que seja em prejuízo dos democratas pagadores de impostos / SNS. Saúde =/= €


  2. Antes de disparar contra os enfermeiros convinha verificar o que está em causa. Um despacho que mistura no mesmo artigo injecções de insulina com entubação supraglótica parece, a mim que nada percebo disso, uma perfeita estupidez. Não acredito que os enfermeiros tenham protestado por causa da injecção de insulina. Ela não devia era estar misturada assim, a monte, valendo tudo e um par de botas. A troco de poupanças na saúde, não pode valer tudo. Se as injecções de insulina podem ser administradas por qualquer um, outras praticas não. Faça o ministério de saúde um despacho imediato a permitir as injecções de insulina, e logo se vê se alguém protesta.


  3. Apoiado.A corporativite ha-de arruinar ainda mais este pobre povo.

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