O Vilares morreu

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Ontem recebi uma notícia horrível. Daquelas que não esperamos e que nos caem como um baque. Li e reli a mensagem escrita que recebi. Telefonei a quem me enviou a mensagem. Sabendo que não era, não podia ser, brincadeira, tive aquele pensamento irracional de que talvez o telefonema apagasse a mensagem recebida.
Claro que isso não aconteceu.
Era verdade. O Vilares morreu.
Pior, morreu há 15 dias e nós não soubemos de nada. Como se aquela presença se tivesse apagado. Ponto.
Odeio velórios e funerais, mas já aprendi que eles são uma forma de nos despedirmos das pessoas que nos dizem alguma coisa. São um meio de prestarmos o nosso apoio à família enlutada. Por isso, me custa tanto saber da partida de alguém que conheço e não poder estar presente na despedida, nem que seja durante apenas meia hora. 
Do Vilares eu teria gostado de me despedir.
Nunca tive grande confiança com ele, via-o uma ou duas vezes por ano, mas ele é daquelas pessoas que nos fazem sentir bem. Eu, que sou uma mulher de tantas palavras, não sei sequer exprimir a sensação de segurança que o Vilares me transmitia.
A nossa relação foi sempre puramente mercantil. A empresa dele, ou seja, ele, dava trabalho ao meu marido e, ocasionalmente, a mim também. Esporadicamente, íamos à empresa buscar o cheque e um ou dois exemplares do livro publicado. E mais nada.

Antes da maldita crise se instalar, ele oferecia um jantar de Natal aos trabalhadores e fazia questão de nos convidar. Mesmo que naquele ano nem tivéssemos colaborado com a empresa. Ele fazia-nos sentir que pertencíamos, que éramos parte da empresa.

Continuo sem conseguir explicar, mas sempre gostei dele. Um vendedor nato, o Vilares tinha um discurso agradável, era uma pessoa simpática e afável. Talvez fosse isso. Talvez fossem as suas qualidades sociais. Sentia-me bem e à-vontade com ele. Não creio que ele gostasse particularmente de mim. Conversávamos. E eu gostava de conversar com ele.
O Vilares gostava muito das nossas filhas. Desde que as temos, fazíamos questão de as levarmos connosco quando íamos à empresa. Ele pegava nelas ao colo. Brincava com elas, quebrava o gelo e vergonha iniciais de quem só o via uma vez por ano.
Lembro-me que ele foi o primeiro homem de bigode que a mais velha viu. Era pequenina. Ele gostava muito de crianças e pegou logo nela ao colo. Ela olhou com curiosidade para o bigode dele e tocou-lhe, surpreendida. Ele achou piada. E gostou quando eu lhe disse que a menina nunca tinha estado ao colo de um homem com bigode.
Não sei que idade teria, mas sei que partiu demasiado cedo. Deixou dois filhos que ainda precisam do apoio e dos conselhos do pai e uma mulher que vai arregaçar as mangas e levar em frente a empresa que alimenta a família.
Há pessoas que nos habituamos a ter por cá, mesmo que raramente estejamos com elas. É bom saber que existem. É como se fossem uma âncora. Uma rocha que não vai quebrar.
Esta rocha, como outras, quebrou. Partiu e não vai voltar. E eu não me pude despedir dele.
Ontem tive um dia muito cheio e ocupado, mal tive tempo para pensar, mas ao longo do dia fui tendo pequenos «flashes» de momentos de conversa com ele. Estou a escrever isto e estou a ouvir a voz dele, calma. Nessas imagens, vejo-o sempre de pé, junto da porta da empresa, a conversar connosco. Por vezes, também o vejo lá dentro, na sala do fundo, sentado à secretária. São estas as memórias que o Vilares me deixa.

Nada de especial. Uma pessoa normal, com uma vida normal, que me marcou.
E que agora não voltarei a ver. Nem sequer uma vez por ano. Dói. Muito. Tanto que tive que escrever.

Comments

  1. Artur Moreira says:

    “Baque” é, de facto, talvez o termo que melhor descreve o que eu senti ao saber ontem dessa notícia.

    Fiquei surpreendido, chocado, triste, não sei muito bem. O que sei é que me abalou e não consigo explicar (ou sequer compreender) essa mescla de sentimentos.

    Conhecia, evidentemente, o Vilares. Trabalhei com ele alguns anos, no início dos meus “vintes”. Não direi que tive o “privilégio”, a “sorte”, a “honra” de trabalhar com ele, ou de o conhecer, como fica bem dizer nestas alturas. Não o direi porque não sou hipócrita, não falo pelo politicamente correcto.

    Direi, isso sim, que o Vilares era um homem normal, com tudo de bom que a normalidade tem: era simpático, era um bem-disposto, era frontal, era bom conversador, era bom colega de trabalho… era, enfim, um bom homem.

    Nunca fomos muito “chegados”, até profissionalmente falando (trabalhávamos em departamentos diferentes: ele, comercial, eu, pseudo-designer-paginador). Mas simpatizava, e muito, com ele. E julgo que ele simpatizava comigo.

    É um facto que não o via há anos… há muitos anos. Mas, estranhamente (ou não), lembro-me bem da sua postura, da sua figura, da sua forma de falar e de estar sempre com um sorriso na cara.

    O impacto que teve em mim tal notícia, como disse, não sei explicar. Talvez o efeito-surpresa. Talvez a percepção cada vez mais concreta do quanto todos somos efémeros. Talvez a ideia de, também ele, ter partido cedo demais. É certo, não temos um prazo de validade à nascença, mas que há pessoas que partem cedo demais, há, porra!!!

    É estranho, e custa, falar do Vilares no pretérito imperfeito. Parece algo anti-natural. Parece algo errado. De qualquer forma, as memórias que tenho dele, dos meus “vintes”, desse convívio, pelos vistos estão bem mais vivas do que eu próprio imaginava.

    E, de certa forma, talvez seja essa a forma de sermos realmente imortais: é que, apesar da nossa partida, continuamos a viver nas memórias, nos pensamentos, de outros com quem nos vamos cruzando nas nossas curtas vidas…

  2. “era um homem normal, com tudo de bom que a normalidade tem: era simpático, era um bem-disposto, era frontal, era bom conversador, era bom colega de trabalho… era, enfim, um bom homem.”

    E acha normal? Pode ser normal, mas é raro.

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