Carniceiros

Cameron Salman

Foto@Daily Mail

Por estes dias, a propósito dos ataques aéreos russos contra posições do Estado Islâmico – dizem eles claro – David Cameron acusava o Kremlin de dar cobertura ao carniceiro Al-Assad porque, alegadamente, apenas um em cada 20 ataques atingia os jihadistas enquanto os restantes faziam recuar os rebeldes opositores do regime, que apesar de empunharem armas de fabrico ocidental, têm sido terreno fértil de recrutamento para os fundamentalistas e responsáveis pela morte de civis inocentes e outros atropelos aos princípios mais elementares da dignidade da vida humana. Não admira que os sírios queiram dali fugir a todo o custo.

O mesmo David Cameron que, indignado, se insurgia contra o apoio russo ao regime sírio, é o líder do governo que terá alegadamente feito um acordo secreto com a Arábia Saudita para que ambos pudessem integrar o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDHNU). Há carniceiros e carniceiros e alguns deles têm muito petróleo pelo que devem ser acarinhados pelos moralistas ocidentais. A verdade é que o carniceiro Salman lá conseguiu um seu assento no CDHNU, apesar das execuções por bruxaria e dos bloggers chicoteados em praça pública perante a passividade dos falsos Charlies.

Para além do financiamento a diferentes organizações terroristas de cariz fundamentalista religioso proveniente da Arábia Saudita, o seu entreposto comercial, dirige-se a partir de Raide um dos regimes mais totalitários e violentos do planeta, ao nível da Coreia do Norte. A arbitrariedade e a repressão são o prato do dia por aquelas bandas para todos aqueles que ousam contestar o poder ou a lei fanática – o wahhabismo – que rege o país. Que o diga Ali Al-Nimr, o jovem de 21 anos detido desde os 17, que se encontra na iminência de ser decapitado e crucificado pelos carniceiros sauditas.

Al-Nimr participava em protestos na tentativa de Primavera Árabe que aconteceu na Arábia Saudita e era ainda um menor quando foi detido. Porém, e ao contrário de outras paragens onde os paladinos ocidentais foram em auxílio dos povos oprimidos, derrubando outros carniceiros outrora bem-vindos nas principais capitais do mundo dito civilizado, na Arábia Saudita o Inverno continuou e o rei-carniceiro Salman continuou a ser recebido com toda a pompa e circunstância a que os carniceiros bem comportados têm direito, de Londres a Washington, de Paris a Berlim.

Salman UE

Foto@The Telegraph

Recentemente eleito para o CDHNU, a Arábia Saudita transforma-se assim na mais recente prova da fraude que é a luta pelos direitos humanos no seio da ONU. Depois de dois recursos interpostos pela defesa do jovem Al-Nimr, tendo o segundo sido julgado em segredo e sem a presença do advogado do réu, das tentativas de diferentes organizações humanitárias para reverter esta barbárie e dos inúmeros pedidos de clemência, o destino de Al-Nimr parece estar selado. A classe política ocidental, sempre tão determinada em lançar ofensivas militares onde os seus interesses deixam de coincidir com os dos fantoches locais que se desalinham, não mexe uma palha para reverter a absoluta brutalidade que impera na Arábia Saudita e ainda trata os carniceiros locais como seus pares, dando-lhes carta-branca para a manutenção do seu reino de terror. Uma classe política de carniceiros cúmplices e colaboracionistas.

ONU

Foto. Pierre Albouy@The Independent

 

Comments


  1. Tal e qual o PaF…
    mas em que escola é que eles andaram “andam”? Munique?


  2. Apoiado.Esta caozoada deve ser deninciada.

  3. A.Silva says:

    Os países da UE e os EUA, ao lado das ditaduras mais criminosas mais hediondas do planeta, espalhando guerras, fome e miséria pelo mundo.

    Os verdadeiros criminosos

  4. Rui Moringa says:

    Dinheiro, mais dinheiro a qualquer preço. O capital não tem fronteiras e parece não ter valores individuais e sociais.

Trackbacks


  1. […] Deus, uma AK-47 e o olho que tudo vê. Religião, terror e medo. Quase um ano após o atentado, o mundo é um lugar ainda mais inseguro. Pena que alguns terroristas continuem a ser recebidos de braços abertos no Ocidente. […]


  2. […] de mais um contrato de armamento, desta feita no valor de 110 mil milhões de dólares. Os carniceiros não são todos iguais e alguns a malta vai tolerando. Pelo menos enquanto houver petróleo, e […]


  3. […] quando a Arábia Saudita é um dos maiores financiadores e promotores mundiais do extremismo. Do extremismo, da ignorância e da violência. Mais piada só mesmo Trump, que apoiou e não se ensaiou nada para […]


  4. […] fiéis à sua palavra. Mas o que é que isso interessa? Os gajos são árabes, logo radicais, e os nossos amigos da Arábia Saudita, que são árabes mas não são radicais, mais os israelitas, ficam mais descansados e compram-nos […]

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