Luaty, meu herói

Rafael Marques de Morais, Maka Angola

O Luaty Beirão corre perigo de vida, por se encontrar em greve de fome há 18 dias [à data em que o texto foi escrito. A greve de fome teve início a 20 de Setembro]. É a sua forma de protesto por estar há mais de 100 dias detidos abusivamente, uma medida de coacção implementada pela procuradoria-geral do presidente José Eduardo dos Santos.

Compreendo totalmente a luta solitária do Luaty, nesta hora de enlouquecimento dos decisores do regime.

E compreendo tanto melhor porque passei por uma experiência semelhante em 1999, quando fui detido por ter chamado «corrupto» e «ditador» a este mesmo presidente. Passei 14 dias em greve de fome. Porquê? Porque às vezes é preciso relembrar casos passados para aferir a conduta daqueles que lutam pela liberdade e o comportamento daqueles que nos oprimem. No caso, os homens do presidente.

Quando fui conduzido para a cela do Laboratório de Criminalística Central, paredes meias com o Cemitério da Santana, o então director da referida instituição ordenou aos seus homens que não me dessem de comer ou de beber e que me colocassem na cela como prisioneiro de guerra.

O primeiro acto de coragem que quebrou o meu isolamento surgiu por parte de um cidadão libanês, conhecido como Fidel, que se encontrava detido por um negócio mal-sucedido com um assessor do presidente. O Fidel tinha montado a sua suíte na cadeia e passeava-se livremente pelo corredor das 16 celas construídas com o apoio dos alemães da Stasi.

Horas depois do meu encarceramento, Fidel ordenara a um dos guardas que deixasse aberta a janelinha da porta da minha cela, para que ele pudesse falar comigo. Ofereceu-me bananas e uma garrafa de água, que gentilmente recusei. Tentou convencer-me a aceitar, contando-me a história da guerra no Líbano e explicando que ali na cadeia não havia UNITAs ou MPLAs, e que éramos todos «consofredores». Naquele momento, sorri e acho até que deixei escapar uma gargalhada pelo ridículo da situação. Tranquilizei o Fidel, explicando que eu não era guerrilheiro e que não fora capturado em combate, mas sim na minha própria casa, com sete armas apontadas ao corpo, incluindo uma pistola encostada à têmpora. Lembro-me bem do investigador que pressionou a pistola contra a minha cabeça. Não esqueço.

Animado, Fidel respondeu logo: «És o jornalista que está desaparecido! A Rádio Ecclésia está a reportar sobre o teu desaparecimento a toda a hora.» O meu paradeiro era desconhecido. Pedi então a Fidel que fizesse chegar uma mensagem à Rádio Ecclésia. Isto foi no tempo em que a Rádio Ecclésia era de confiança. Aliás, o seu slogan era: “A Rádio de Confiança”. A mensagem que eu queria transmitir era simples: eu tinha iniciado uma greve de fome.

A verdade é que eu não queria dar aos meus algozes o prazer de reclamar o meu direito à alimentação, um direito humano elementar. Se o MPLA e o seu presidente têm uma escola, um programa, é o de retirar os direitos do povo e daqueles de quem não gostam ou de quem deixam de gostar. Pior então é a situação daqueles que o MPLA odeia ou passa a odiar. O Luaty passou a ser odiado, e a sua morte poderia ser um alívio para a procuradoria e para o partido do presidente José Eduardo dos Santos. Ter a menos um crítico com que se preocupar. É assim que eles são.

Continuando. Após a Rádio Ecclésia ter anunciado a minha greve de fome, no dia seguinte o director da cadeia foi ter comigo à minha cela para me acusar de ser mentiroso. Disse-me: «Você é um mentiroso, você não está em greve de fome. Nós é que não lhe damos de comer e de beber.» O director continuou a destratar-me. Disse-lhe, então, que tinha todo o poder para ir à rádio e à imprensa estatal declarar que, afinal, era o governo que me privava do direito básico de me alimentar. Para meu espanto, o director da cadeia mandou chamar um guarda, o Domingos (lembro-me bem dele). Domingos veio com uma bandeja bem arranjada, com um guarnapo branco, sumo de laranja natural, batatas fritas, ovo estrelado, salada e pão. Recusei. Passada uma semana, o director obrigou-me a assinar papéis em branco caso morresse na cadeia. Não assinei nada e também não lhes dei o prazer de morrer ali. Eles que enviem os seus assassinos.

Acabei por passar 14 dias sem comer. Senti-me fortalecido com o protesto. Fi-lo por uma questão de consciência e de escolha pessoal.

O Luaty fez a sua escolha, que muito admiro e relativamente à qual ele pode contar com a minha absoluta e incondicional solidariedade. Mas o Luaty não tem uma rádio de confiança, não tem um Fidel e amigos na cadeia, como eu tive, para amenizarem o seu sofrimento, demonstrando as fraquezas e o ridículo da prepotência e da má-fé da procuradoria do presidente. O Luaty está mais isolado.

Todavia, o Luaty tem a seu favor os sinais da mudança. O seu sonho por uma Angola sem a procuradoria do presidente, mas ao invés com um sistema de justiça ao serviço de todos os angolanos, pode estar mais perto do que pensamos ou queremos admitir.

O Luaty tem também a seu favor as redes sociais, a juventude cada vez mais consciente, mas sobretudo a sua extraordinária convicção. Eu sou mais estratégico, o Luaty é puro na sua forma de pensar e agir.

Agora peço-te, Luaty, meu amigo, irmão e meu puto (porque tratas-me sempre por kota e este é o meu troco): lê esta mensagem e, lentamente, volta a comer.

Já ganhaste, porque derrubaste, com a tua convicção, qual cavaleiro andante e solitário, os moinhos de vento que ainda escondem o frágil poder do presidente e da sua procuradoria. Estão a nu, expostos no circo que eles próprios criaram. Só a insensibilidade humana os salva de sentirem vergonha.

Aceita o meu abraço e o meu pedido para que te alimentes, em nome da nossa liberdade. A luta continua e vitória não será deles, dos que nos oprimem e espoliam sem dó nem piedade.

A vitória será nossa, meu herói.

Comments

  1. martinhopm says:

    Luanda e o seu governo deveriam libertar estes homens e não permitir esta morte, que só vai deslustrar ainda mais o regime.