Dia dos Namorados

© Paulo Abrantes

Alto, bem encasacado, vozeirão, passos firmes, gestos elegantes, um homem habituado a que lhe façam caso. Anda de um lado para o outro no hall, impaciente, ausente, fora de si. Pega no telefone, procura um número, aguarda. Começa a falar, altíssimo.

– Sim, meu amor… Sim, estou aqui, no hotel…. Efectivamente… Quando vens buscar-me?… Compreendo… Sim, meu amor, compreendo… Espero-te aqui… Até já, meu amor, até já.

Enquanto fala, percorre o hall com passadas largas, gesticula com a mão livre, esboça um gesto de resignação. Desliga. Esperará, que remédio, esperará.

O funcionário da recepção evita olhar para ele. Os clientes não conseguem deixar de fazê-lo.

Entretanto, dirige-se ao bar. Pede um gin tónico, não, melhor um whisky de malte, não, melhor que não lhe sirvam nada para já, a sua mulher não vai gostar e ela chegará em breve. Recolhe-se a uma das poltronas com um jornal inglês, que folheará sem atentar numa palavra.

O cliente que assistiu a tudo sentado ao balcão do bar, mais curioso do que irritado com o alvoroço que lhe interrompeu a hora do conhaque, comenta com o funcionário:

– A mulher dele deve ter uma paciência de santa.

Do outro lado do balcão, esboça-se um sorriso apagado.

– Não há mulher nenhuma. Às vezes, vem um dos empregados do filho, outras vezes vem o filho, outras nem vem ninguém buscá-lo e ele acaba por ir embora sozinho. Este senhor era muito importante, sabe? O Dr. R., nunca ouviu falar? Pois, agora está sozinho e não está nada bem da cabeça. Como vive aqui perto, vem para aqui todos os dias. E como não é agressivo, a gerência deixa passar. Mas um dia vai dar problemas. Olhe, ali está o empregado.

Um homem baixinho, calvo, de óculos redondos e gabardine comprida atravessa o hall. Com um aceno de cabeça discreto para o balcão da recepção, dirige-se ao bar. Toca ao de leve no ombro do homem que se volta para ele devagar, renitente, prevendo que mais uma vez a visão o desiludirá.

– A minha mulher não pôde vir?

– Não, senhor doutor, ela não se sentia muito bem.

– Enxaquecas, de novo?

– Creio que sim, senhor doutor.

– E pediu-lhe a si que viesse?

– Sim, senhor.

– Naturalmente, ela não gosta que eu ande de táxi.

– Vamos, senhor doutor?

– Vamos. Não a façamos esperar mais.

Atirou o jornal para a mesa e levantou-se, enérgico.

– Então, muito boas noites a todos.

Os funcionários responderam-lhe num murmúrio.

Afastou-se, casaco pelos ombros, passos firmes, e saiu para a rua onde ninguém o esperava. Era o mais perfeito retrato daquele poema de Jaime Gil de Biedma: um nobre arruinado entre as ruínas da sua inteligência.

Comments

  1. Nascimento says:

    Que maravilha. Obrigado.


  2. Bom muito bem escrito, Dª Carla.