Sim, é preciso perder a vergonha de lutar por mais justiça social


imposto

Mariana Mortágua ainda é, por estes dias, o fetiche da direita radical, da imprensa e dos cronistas afectos à direita radical, do incansável e dissimulado ministério da propaganda, dos ayatollahs do fundamentalismo neoliberal e de personagens trampolineiras que aproveitaram a deixa para longos textos sentimentais e hipócritas que emocionaram umas quantas tias do social um pouco por todo o país. Todos lamentam, a uma só voz, a ameaça soviética presente nas palavras da dirigente bloquista. As elites, assustadíssimas, preparam a fuga de capitais. Os investidores externos, em pânico, riscaram Portugal do mapa. Seria justo que todos os jogos da próxima jornada da Liga Portuguesa começassem com um minuto de silêncio em memória dos políticos falecidos e devassados pelo arquitecto Saraiva das vítimas deste ataque cruel.

A forma como se manipulou a opinião pública, aproveitando um corta e cose das palavras da deputada do BE, é a ilustração perfeita da actual situação de desinformação em que vivemos. Gurus do comentário político como José Gomes Ferreira expuseram-se mesmo ao ridículo de afirmar que o – até à data – hipotético imposto dirigido para os contribuintes com propriedades de valor patrimonial agregado acima de 500 mil euros, 43.888 segundo dados da Autoridade Tributária, atingiriam, violentamente, a classe média. Classe média? Qual classe média? Exactamente que percentagem da classe média possui propriedades de valor patrimonial agregado acima de 500 mil euros? Será que estas pessoas nos julgam a todos parvos? A esmagadora maioria da classe média ganha entre 1000€ e 2000€ por mês. E ainda entrega um bom bocado ao fisco. De que classe média estarão eles a falar? De classe média nenhuma. Estão apenas a aldrabar, deliberadamente, os mais incautos. E alguns são muito bem pagos para o fazer.

Mas, teorias da conspiração alucinadas à parte, que os profetas da desgraça precisam de assunto enquanto as anunciadas catástrofes teimam em não se realizar, regressemos ao final de 2015 e a uma entrevista conduzida pelo incontornável José Gomes Ferreira ao antigo director-geral de impostos, José Azevedo Pereira (2007-2014), que faz uma revelação que deveria envergonhar o país:

JAP: Por via de regra, estes contribuintes de alto rendimento representam uma parcela muito significativa do IRS cobrado em países onde a respectiva tributação é levada mais a sério. Eles chegam a representar 20 a 25% da tributação em IRS.

NS: E em Portugal?

JAP: Em Portugal, isto não é, o dado não é algo que Portugal se possa orgulhar, mas não chega a 0,5%.

Coitadinhos. Tanto rufia a viver do RSI e agora querem pôr os pobres milionários a pagar mais impostos, como se Portugal fosse um país onde a tributação é levada a sério. Não admira a indignação que se vem alastrando à verdadeira classe média, que, por algum motivo a que sou alheio, surge agora na linha da frente a defender a mesma elite que, não raras vezes, é feita daqueles que a explora. O saque dos saques.

Quanto às palavras de Mariana Mortágua, que os intelectualmente desonestos continuam a manipular de forma cobarde, com o intuito de provocar o medo, ao mesmo tempo que servem a agenda do terrorismo financeiro, fica aqui a intervenção na íntegra. Sim, é preciso perder a vergonha de lutar por uma sociedade em que o esforço e os sacrifícios são mais equitativos. Sim, é preciso perder a vergonha de exigir que aqueles que se dedicam à brutal acumulação de capital, não raras vezes fruto do tráfico de influências, do clientelismo, da especulação ou da manipulação da economia, contribuam de forma proporcional para a sociedade. Sim, é preciso perder a vergonha de combater as desigualdades. Sim, é preciso afrontar um modelo social em que a tributação não é levada a sério e beneficia quem menos precisa. Sim, é preciso perder a vergonha de nos empenharmos por mais justiça social. Agora.

Imagem via Uma Página Numa Rede Social

Comments

  1. Portugal precisa de regras financeiras que não sejam arbitrárias e irrefletidas, como vemos acontecer no sistema judicial. É necessário pôr a casa em ordem. Duvido que cedo veremos algo mudar no sentido de menos arbitrariedades.

    Para atrair investimento estrangeiro, é necessário que não se faça uma espécie de Torre de Babel de regras e regulamentos, e que no fim ninguém entenda nada de nada. Duvido mais uma vez que se consiga mudar para as coisas certas, porque estamos inseridos num sistema que vive disso, da confusão de regras e regulamentos.

  2. Rui Naldinho says:

    O investimento estrangeiro no imobiliário é bem vindo, mas tem de ter regras bem definidas. Caso contrário vamos vender tudo aos supostos estrangeiros que querem investir no imobiliário, e vamos viver para a província, e, nas grandes cidades, para debaixo da ponte.
    Primeiro convinha lembrar que esse tipo de investimento não cria propriamente emprego. Ou será que contratar um porteiro e um jardineiro por imóvel, vai fazer baixar significativamente a taxa de desemprego dos jovens licenciados? Seria a imigração a absorver este emprego pela falta de qualificações académicas. Pelo facto de muitos deles estarem ilegais seria uma boa forma de os explorar até à medula.
    Qualquer reformado da Europa do Norte, ou dos Estados com quem Portugal mantém relações comerciais e diplomáticas, pode comprar uma casa em Lisboa, Porto, Coimbra, no Algarve ou na Madeira, por um valor inferior a 500.000 euros. Pode ter alguns benefícios fiscais nos primeiros anos. Aliás, penso que têm mesmo!?
    Quantos “mais vierem”, melhor. Sendo pessoas da terceira idade não se lhes pode imputar a “teoria conspirativa” de roubarem empregos aos portugueses. Sendo pessoas com um bom poder de compra devemos proporcionar-lhes a segurança que exigimos para as nossas famílias, pois talvez seja essa a razão maior da sua vinda.
    Agora não venha vender loas ao investimento imobiliário como se isso fosse o paradigma do desenvolvimento de qualquer País.
    Ainda se fossemos o Mónaco, com uma área de 3 km² !

  3. JgMenos says:

    Das medidas excepcionais passamos à criminalização da riqueza com um paleio idiota e arvorando-se em justiceiros.

    • José Peralta says:

      Jgmenos

      (…) os rendimentos do capital e as casas de valor igual ou superior a um milhão de euros. Não podem ser sempre os mesmos, os trabalhadores por conta de outrém e os pensionistas a suportar os encargos fiscais…

      Olha ! Um gajo do cds com um “paleio idiota e a arvorar-se em justiceiro “. Quem tem razão é aquela dondoca a tia teresa morais do psd, que quer um “filtro” nas estatísticas e nas informações !

      Pois claro, tia ! E o que faz a tia a falar ao telefone, ao lado do… justiceiro ? Ah ! Pois ! Está a encomendar o lanche de brioches na “Versailles” ! E a páfia da tia, o que quer é a “omertà”, não é ? ÉÉÉÉÉÉÉ !!! “Pecebe” ó Jg ?

Trackbacks

  1. […] Nem só de luta por mais justiça social se faz a nossa necessidade de perder a vergonha. Há que perder também a vergonha de seguir o exemplo islandês. Sim, a Islândia. Esse estranho país que permite que se resgatem pessoas em vez de bancos e onde – pasmem-se – é possível prender banqueiros criminosos.  […]

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