And now Trump? The day after


Do que fui ouvindo e lendo à medida que se desenrolava a campanha presidencial norte-americana, houve para lá dos aspectos bizarros que uma figura controversa possibilita, muita parvoíce sobrevalorizando o perigo que representa eleger o excêntrico Donald Trump. Vejamos, Obama prometeu encerrar Guantanamo e passados 8 anos a prisão ainda funciona. O Obamacare ficou longe da promessa eleitoral. Porque razão temos que acreditar que agora vai ser mesmo construído um muro e veremos emigrantes deportados aos milhares? Se recordarmos a campanha eleitoral de 2000, W. Bush foi eleito com a promessa de não ingerir militarmente no exterior, reduzindo os gastos militares. A administração Clinton havia sido marcada pela intervenção nos Balcãs, culminando no Kosovo, sem esquecer o tristemente célebre episódio da desastrosa intervenção na Somália. E no 1º ano de mandato surgiu o 11 de Setembro e com ele toda a política mudou num ápice.

Num sistema presidencialista como o norte-americano o Presidente tem poderes limitados, apenas dispõe de poder executivo, o legislativo pertence ao Congresso, dividido em duas câmaras, Representantes e Senadores. Para aprovar uma Lei, é necessário o voto favorável das duas Câmaras. Um Tratado só pode ser rectificado após aprovação no Senado. Leis que impliquem finanças são aprovadas exclusivamente pelos Representantes. Os Representantes são eleitos por um período de 2 anos, enquanto os Senadores têm um mandato de 6 anos, com um terço dos membros a votos também de 2 em 2 anos. O que permite uma rápida mudança de cenário político na câmara baixa, no Senado pela regra dos 6 anos e apenas um terço a votos em cada eleição, a estabilidade é maior.
Com uma maioria republicana no Congresso que poderemos classificar no mínimo como distante de Donald Trump, quando não mesmo hostil, suspeito que no Senado os apoios ainda sejam menos calorosos, e sabendo que todos os eleitos dispõem de legitimidade própria, nem sempre é fácil aos líderes partidários assegurarem o voto disciplinado. Claro que se torna mais fácil após uma eleição que dividiu o país ao meio,mas sabe-se que a prioridade para qualquer político desde a tomada de posse será a reeleição. Reverter programas como o Obamacare que já tinham oposição Republicana e contestação na opinião pública não parece uma promessa difícil de cumprir, Já outras mais bizarras podem até receber um bloqueio institucional, bastando que alguns republicanos pontualmente votem ao lado da oposição democrata. A tão propagada ameaça da eventual aliança com Putin, dificilmente obterá aprovação no Senado. Com o passar do tempo Trump terá que entrar no sistema, bem sei que Trump é imprevisível, detesta os políticos, mas estes desprezam-no. Sem esquecer que existe na Constituição a possibilidade de impeachement. O prazo de validade de Trump poderá ser a sua popularidade, enquanto a mantiver estará seguro, quando a perder, correrá o risco de cair. E muitas das suas promessas não são exequíveis ou não dependem de si. Sem podermos esquecer o Supremo Tribunal que muitas vezes tem a última palavra.
Sobre economia, alguém acredita que a Apple mete o rabo entre as pernas e passa a fabricar iphone nos Estados Unidos? Quantas vezes não ameaçou Bill Gates mudar para o Canadá? E se tentar aprovar Leis neste sentido, que dirá o Tea party? Estão a ver os políticos mais liberais do ponto de vista económico aliados ao proteccionismo defendido por Trump? Eu não estou. Convém aqui ressalvar a diferença entre o termo liberal na Europa e Estados Unidos. É demasiado cedo para entrarmos em especulações, Trump nem sequer entrou em funções, nos EUA tal confusão não existe, há apenas um comandante em chefe, Barack Obama e ficará até Janeiro. Até lá o Presidente eleito nomeará uma equipa que trabalhará a transição com a administração cessante. No entanto quando soubermos quem convidará Trump para Procurador-geral e quem irá integrar a sua administração, ficaremos com uma melhor ideia do que será o rumo do governo dos EUA nos próximos anos. Porque até aqui Trump tem sido praticamente one man show, poderá resultar como espectáculo televisivo, mas será muito diferente em Washington.

Comments

  1. Anónimo says:

    Filhos de famílias ricas.
    Subiram na vida graças ao dinheiro e ao apoio familiar.
    Os estudos, sabe-se lá.
    Não têm educação, são ignorantes.
    Cada vez que abrem a boca sai asneira.
    Os media adoram-nos e promovem-nos.
    Os negócios em que se meteram, faliram.
    Trump e Bush. Dois da mesma espécie.
    Dois fantoches enquadrados pelos interesses do petróleo, dos fabricantes de armas, da construção civil, da finança.
    Com o Bush, foi o crime contra o Iraque e contra a humanidade.
    Com o Trump, a ver vamos. Talvez o Irão.

    • Nascimento says:

      Quer dizer então que vamos ter uma guerra com Irão’ E eu que pensava que ela vinha já aí com a madame Clinton.Foi o que eu ouvi…parece que a senhora não gostava nem de russos nem do Putin. Parece que queria por a Russia na “ordem”.
      Que chatice.Nunca o saberemos,pois não?

  2. Nightwish says:

    Ainda estou à espera que o António diga porque é que o Trump não iria ser o nomeado republicano…

    • Na altura existiam 2 possibilidades:
      -Trump não conseguir a maioria dos delegados, mesmo sendo o vencedor das primárias.
      -Durante a convenção alguns delegados mudarem de posição, o que chegou a ser tentado, mas não existiu vaga de fundo nem convergência de posição das diferentes correntes do GOP. O próprio Trump temeu tal possibilidade, enfrentou-a e disse que iria a votos nem que tivesse que ir como independente. O nome de Kasich, popular no Ohio, um dos swing states, chegou a estar em cima da mesa, mas nem o próprio avançou…
      E chegado aqui também não acreditei que Trump pudesse ganhar, mas a verdade é que ganhou…

  3. Rui Naldinho says:

    O problema Trump é mais no plano social e mediático.
    O Republicano é um incendiário, e com isso pode fazer despoletar muitas tensões, raciais, religiosas, internacionais,…
    Quem manda na USA é o dinheiro, e não como na Europa, as ideologias.
    Alguém acredita que Trump tomaria uma iniciativa de caráter belicista contra um Estado, ou conjunto de Estados em a aprovação do Congresso, e que os Chefes Militares se sujeitariam às ordens de um pirómano.
    Antes de ele poder dar a ordem, faziam-no desaparecer.

    • Nascimento says:

      Ideologias na Europa?Mas….ainda há?Onde?No Parlamento Europeu?Ah sim ,essa coisa das “famílias” politicas, né?

  4. ZE LOPES says:

    Há bocado ouvi o Putin a pronunciar Trump. Em Russo, parece que é mesmo “Trampa”! Para Putin “a Trampa vai acabar com a Guerra Fria”. Oxalá não suba muito e o engasgue…

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