A arte da mentira


Rui Naldinho

Após a eleição de Donald Trump muito se tem falado das razões mais profundas que estiveram na origem da sua vitória. Teoriza-se sobre tudo sem se ter a certeza de nada. Analisam-se as motivações para tantas mentiras  do republicano vitorioso nesta eleição. E como o povo americano se deixou seduzir por elas.

Ferreira Fernandes fala no Diário de Noticias da “pós-verdade”, como a palavra do ano. “Uma homenagem ao Brexit e a Trump. É um adjectivo que define uma sociedade pasmada com a realidade. Espero que passe a substantivo, já. É que, se a verdade é dura, a pós-verdade, que é uma mentira, pode distinguir-se talvez melhor, pois é mole.”

Se tudo isso está em conformidade com o pensamento dominante, há questões que, no entanto, não podem deixar de se colocar.

Para mim, um plebeu da província, temo que se esteja a ver o problema só de um dos lados, esquecendo aquele que é para mim o grande drama das sociedades actuais, e cuja preocupação é: Qual é a razão por que paradoxalmente o Mundo parece estar a retroceder nas poucas coisas boas que conquistámos até ao final do século passado?

Face à globalização dos mercados e aos avanços tecnológicos, o que vai sobrar neste século XXI para os sete mil milhões de seres humanos que habitam o planeta? Esta é questão que todos ousam em não discutir, ou fingir que não existe.

Se os mercados procuram cada vez mais países com mão-de-obra barata, os chamados emergentes, sem grande regulação no trabalho, na fiscalidade e na protecção do ambiente, o que restará para os europeus e norte-americanos habituados a viver com regras e “acima das suas possibilidades”?

É esta ansiedade que vai silenciosamente entrando em muitas urbes e em muitos lares que vão definhando sem uma resposta às suas necessidades. A Europa e os Estados Unidos estão a ser os primeiros a pagar essa factura, fruto de bom nível de vida e estabilidade social que alcançaram ao longo dos últimos 70 anos.

Como se percebe, cada um à sua escala tenta defender-se deste fenómeno como pode. Talvez da forma errada, mas as incertezas são tantas, que tendem a acreditar em quem lhes venda um naco de esperança.

A combinação de vários ingredientes sociais, económicos, políticos e psicológicos, podem tornar qualquer “coisa” que não se sabe bem o que é, numa mistura explosiva. Essa “coisa” pode chama-se Brexit, Trump, Erdogan, ou Le Pen. Mas sem se misturarem essas coisas, elas por si só serão quase inócuas. Ou seja, Trump nunca seria eleito sem a combinação desses vários ingredientes.

Sempre houve ignorantes, analfabetos e gente dominada por religiões e crenças. E também abundam racistas, xenófobos, arrogantes, manipuladores, caciques e ditadores. A maioria de nós, se tivesse oportunidade de mostrar as suas qualidades políticas, provavelmente não passaríamos de uns Trump(zinhos) de trazer por casa.

E já agora, acham que hoje em dia a comunicação social ainda é o clarim das sociedades modernas e democráticas, que reflectem nela as suas angústias, os seus desejos e as suas mágoas?

Ou hoje, os meios de comunicação não passam de meros órgãos de propaganda de uma minoria dominante, manipulando e mentindo-nos descaradamente, a cada dia que passa, como “previu” Aldous Huxley ?

Há muito que a maioria dos órgãos de comunicação social deixou de exercer a sua função – Informar e dar notícias. Analisar, criticar e dar o contraditório à outra parte. Hoje, ela tornou-se numa caixa de ressonância das elites dominantes e dos mercados. Sim, os famigerados mercados globalizaram o jornalismo ao nível de lixo.

As redes sociais são o contraponto desse lixo, e uma arma potencialmente perigosa. Num  passado não muito longínquo, Hitler e Mussolini chegaram ao poder e destruíram a Europa. Estaline, Pinochet, Mao Tsé Tung, Pol Pot, Kim Il Sung também lá chegaram mas por outras vias. Que me ocorra, nessa época não havia Internet, nem redes sociais como elas estão hoje organizadas.

Cada um assimila os discursos e as narrativas que quiser. Uns predispõe-se a isso porque estão fragilizados, outros nem tanto.

Antes tínhamos o padre que nos ameaçava com o Inferno, ou nos perdoava os pecados, mas ainda assim as pessoas deixaram de ir à missa. Hoje temos o Facebook, o Twitter, e outras ferramentas digitais irão aparecer. Elas encarregar-se-ão de mentir e enganar uns quantos incautos, mas não acredito que o façam à maioria dos racionais.

Sempre houve néscios ao longo dos séculos. E vai continuar a haver, infelizmente!

Comments

  1. Deixem se de poesias e comecem a falar de factos. Em Portugal so se fala, fala, fala mas nunca dizem nada, so openioes de merda.

  2. martinhopm says:

    É tal e qual como diz: ‘media’ não passam de meras caixas de ressonância das elites dominantes (alta finança e multinacionais) e dos mercados. É ver o que se passa em Portugal, tanto a nível escrito como audio-visual. É ver os vários comentadores encartados que aqui pululam. Um nojo, numa só palavra.

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