A deriva totalitária


Rui Naldinho

O Presidente da Associação dos Proprietários Lisbonenses e Vice Presidente da União Internacional da Propriedade Imobiliária, Luiz Meneses Leitão, ele parece andar amuado. Como tal resolveu destilar o seu ódio contra quem achou por bem mexer nos interesses do lóbi que ele representa, o imobiliário.

É sabido que até há bem pouco tempo o sector da construção civil, e consequentemente o do imobiliário, foi a forma mais fácil, rápida e barata de se enriquecer em Portugal. O risco era mínimo, e a majoração muito acima de qualquer taxa bancária, mesmo a de produtos financeiros de risco.

Na maioria das situações, o financiamento era garantido numa pequena parte pelas instituições crédito, a outra pelos futuros proprietários que compravam em planta, injectando o seu próprio dinheiro na construção da obra, através de pequenas tranches financeiras pagas trimestralmente, acabando por ter na maioria das situações cerca de 70% do seu dinheiro investido no imóvel, há data da escritura. São esses cidadãos que representam a tal classe média, aforradora, e não os outros. Para se chegar a 500.000 euros de património imobiliário, registado nas finanças, convenhamos que é necessário ter já muita “casa”. Eu tenho duas em meu nome e não chego aos 220.000 euros.

Grande parte da corrupção endémica deste país assentou arraiais nesta vertente do betão armado. A outra encosta foram as obras públicas.

Passos Coelho achava que os portugueses viviam acima das suas possibilidades, mas não todos. Durante os anos mais duros da crise, quase toda a gente levou pela medida grande com cortes e recortes em tudo o que cheirava a rendimentos e direitos, mas alguns escaparam. Esta foi uma das castas protegidas por Passos Coelho, a pretexto do investimento. Como se investimento no imobiliário fosse o paradigma das exportações de um Estado moderno e desenvolvido.

“Portugal, nisto como em tantos outros assuntos, continuou na vanguarda da retaguarda. Atrás do progresso e à frente da crise. Fomos o país com menor controle jurídico e tributário da especulação imobiliária, menor restrição à construção de novos fogos, e agora colheremos os efeitos de toda essa falta de previdência.”

Pudera, com a facilidade com que se construía um imóvel, vezes sem conta num total desrespeito pelo ambiente e pela mobilidade urbana, o crédito hipotecário, a volatilidade das empresas de construção civil e imobiliárias, que apareciam e desapareciam sem deixar rasto, os trabalhadores precários, tudo contribuía às mil maravilhas para o sucesso destes “empreendedores”. Até os grandes industriais de então se rederam ao negócio do imobiliário, tal como Belmiro de Azevedo, Américo Amorim, entre muitos outros.

Esta é aquela parte em que eu sinto a Geringonça a funcionar no seu melhor registo. Colocar umas boas centenas de intocáveis e anafados liberais, que acham os rendimentos de um trabalhador uma despesa exagerada, os direitos laborais uma maçada, e os aposentados um estorvo, mas rebelam-se quando sentem os seus “direitos adquiridos” sujeitos a uma maior tributação.

E logo uma cobrança fiscal destinada a pagar aumentos de reformas!

Comments

  1. Paulo Só says:

    Falta taxar as heranças para que a igualdade de oportunidades tenha algum sentido.

  2. Nightwish says:

    O Rui merecia ter assinatura própria aqui no burgo.

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