Lettres de Paris #41


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De 7 à 77 ans…

Lembro-me bem de ser pequena e durante a maior parte da minha infância e juventude, do meu pai nos trazer quase todas as semanas a Revista Tintim, a revista dos jovens dos 7 aos 77 anos. Eu e a minha irmã devorávamos aquilo e ficávamos à espera da próxima. Creio que essas revistas já não existem lá em casa. Deveria tê-las guardado, muito provavelmente, mas não nos ocorre guardar muitas coisas quando somos muito novos, porque quando somos novos o tempo não acaba nunca, nem as revistas do Tintin. Quando cheguei à Gare du Midi em Bruxelas há uns dias, encontrei numa das saídas da estação dois paineis enormes com cenas do Tintin. Em algumas ruas voltei a encontrá-lo, assim como em algumas montras de lojas daquela cidade. Uma instituição, o Tintin, para quem o tempo não acaba nunca.

De maneira que, motivada pela presença constante do Tintin em Bruxelas e sabendo que o Grand Palais – Galeries Nationales, organiza uma exposição do seu criador – Hergé, fui hoje vê-la. E ainda bem que fui. Encontrei o Tintin da minha infância e juventude, o Milou, o Capitão Haddock, a Madame Castafiore, os inseparáveis Dupond e Dupont e, claro, o Professor Tournesol. A exposição é muitíssimo completa. Não é uma exposição do Tintin, mas de Hergé e, por isso, encontramos a arte que lhe agradava, os seus trabalhos de publicidade, as suas outras bandas desenhadas. Mas, obviamente, as tiras do Tintin, as capas dos livros, a história dos personagens, é aquilo que os visitantes da exposição mais apreciam. Eu apreciei bastante, mesmo porque encontrei uma manifestação completamente inesperada, de personagens de Hergé e outras. Participei na manifestação com muito empenho e até ergui o punho.
Antes de ter ido ao Grand Palais ver a exposição sobre Hergé, tinha bebido o meu costumeiro café no Le Saint-André, cumprimentado a Julie, e apanhado o metro, logo ali. Saí em Chatelêt e apanhei a linha 1, para a Concorde. Tinha o plano de ir à zona da Madeleine onde ainda não tinha ido, desta vez. Assim fiz. Saí do metro e fui pela Rue Cambon até à Rue Saint Honoré onde virei à direita. A rua está cheia de lojas cujos produtos custam mais do que o meu salário alguma vez me permitirá comprar. E todas as lojas têm um porteiro ou segurança, vestido a rigor e muito emprumado. Não entrei em nenhuma, é verdade, mas vi as montras, já agora que estava ali. Chanel, Gucci, Jimmy Shoo, Louis Vuitton, Dior… isto continua até virar à direita para a Place Vendôme, quase vazia, mas onde é definitivamente natal, se bem que discreto, a condizer com as lojas que aqui continuam a ser as mesmas e outras do mesmo tipo e a condizer também com o Ritz logo ali e com os carros absolutamente topo de gama e com os empregados fardados a rigor em toda a parte. A praça é grande, arejada, bonita e está, como disse, quase praticamente vazia.
Ando por ali a ver as árvores de natal e a a olhar para a enorme Colonne de la Grande Armée, mandada erigir por Napoleão para comemorar a Batalha de Austerlitz, com a sua própria estátua lá no alto onde, aparentemente, os pombos não pousam. Não pousam porque simplesmente não há pombos na Place Vendôme, embora os haja, tal como as gaivotas, em muitos outros sítios e praças da cidade. A praça quer-se higiénica, está bem de ver. Os clientes do Ritz e das lojas imensamente caras não combinam bem com os pombos e a sua sujidade. Há quatro conjuntos de 2 árvores de natal em cada canto da praça. Vou vê-los todos apesar de serem exatamente iguais. São árvores, como já disse, discretas. Não possuem a exuberância da árvore de natal da Grand Place, em Bruxelas, nem a simplicidade das árvores de natal espalhadas por outros locais da cidade de Paris, como a Place Saint-André des Arts, já ali à esquina da minha rua, ou a Place Maurice Barres, onde se encontra a Église de Notre-Dame de l’Assomption e do outro lado, mais uma loja chanel. Estas árvores da Place Vendôme têm pequeníssimas luzes amarelas que piscam de quando em vez. De modo que as vejo todas, aprecio os belos edifícios, ignorando as lojas que albergam e vejo a casa onde morreu Chopin em 17 de outubro de 1849.
Saio da praça pela Rue des Capucines e antes de sair reparo numa placa, discreta também ela, logo ali, anunciando que o ‘voiturier’ da loja Louis Vuitton, logo ali na esquina, está em frente da entrada do parque de estacionamento da praça. Uma loja com empregados para nos estacionarem o carro!? Sou mesmo provinciana, eu, é o que é. Na verdade, não é apenas uma questão de recursos financeiros para frequentar estas lojas (embora evidentemente não os tenha), é também uma questão de não ser capaz de perceber (enfim, percebo, mas… não percebo) como podem as pessoas gastar 3900 euros numa mala, ou 5000 euros num casaco ou pelo menos dois salários mínimos portugueses para passar uma noite no Ritz. Acho escandalosas e quase pornográficas estas somas de dinheiro por coisas que, bom, se conseguem encontrar por muito menos. Dir-me-ão que não serão exatamente as mesmas coisas. Concordo. Mas, assim mesmo, continuo a achar escandaloso.
Percorro a Rue des Capucines até ao cruzamento com o Boulevard do mesmo nome e com o Boulevard de la Madeleine, para onde viro. As lojas começam a ser mais populares e menos escandalosas nos preços. Chego à igreja da Madeleine, onde estive há mais de 20 anos. Tenho uma fotografia, eu muito nova, quase do tempo em que lia as revistas do Tintin trazidas pelo meu pai, sentada naquelas escadas. Gostava de ter tirado uma, exatamente no mesmo sítio, para comparar, mas nunca haveria comparação possível, por muitas razões, sendo a menos importante o facto de terem já passado mais de 20 anos. Portanto, ando por ali, a olhar para a igreja até me fartar. O dia está cinzento e começa já a escurecer, pouco passa das 4 da tarde. Entro na Rue Royale também muito enfeitada para o natal, passo a Village Royale onde resolvo entrar para constatar que é só mais chanel e dior e o raio e de onde saio apressadamente, apesar de apreciar as decorações de natal. Quando chego à Place de la Concorde, a grande roda de Paris está já iluminada. Nunca me canso de olhar para ela, já o disse. Acho-a fascinante e gostava de ter coragem de dar uma voltinha. Mas não tenho. Pelo que me contento em vê-la cá de baixo, de vários ângulos, com o obelisco, com os candeeiros, com as estátuas da praça, com as árvores, enfim, com tudo o que possa aparecer entre mim e a fascinante roda.
Quando me canso de olhar para a roda, entro nos Champs Elysées. Há uma feira de natal dos dois lados da Avenida, até pelo menos ao Grand Palais. Na feira estão centenas e centenas de pessoas, que andam só por ali, que comem algodão doce, e crepes e gaufres e bebem vinho quente. A algazarra é imensa e contrasta tremendamente com a calma e a discrição da Place Vendôme. Confesso que se tiver de escolher entre uma feira popular e a Place Vendôme, apesar de tudo, escolho a praça. Começo a ficar mei tonta com tanto movimento e luzes e agitação e cheiro a comidas diversas e percebo que não tenho por onde escapar aquilo até chegar à Place Clemenceau e ao Petit Palais e Grand Palais. O Petit Palais é uma jóia que ainda hei-de visitar. O Grand Palais é imponente e bonito, mas não se compara com o mais pequeno, encantador. Atravesso a Avenue Wiston Churchill e apercebo-me que a entrada das exposições é pela Avenue du Général Eisenhower, ali à esquina. Estou a perceber isto quando uma rapariga me perguta se tenho tempo para responder a um inquérito sobre filmes com monstros. Como? pergunto eu. Sobre filmes com monstros, repete ela. Digo-lhe que não vejo filmes com monstros normalmente. Ela agradece-me assim mesmo. Vou para a entrada da exposição Mexique 1900-1950 a pensar naquilo. Filmes com monstros! Um inquérito sobre filmes com monstros! Boh. Va savoir. Talvez fossem estudantes de cinema, que sei eu? Nem me lembro do último filme com monstros que vi, sequer.
Entro no Grand Palais para ver a primeira exposição que queria ver, sem qualquer problema. Não pago bilhete, como de costume. A exposição é belíssima e extraordinariamente bem organizada e rica. Há evidentemente imensas obras de Diego Rivera, algumas de Frida Kahlo, mas apaixono-me por dois quadros de David Alfaro Siqueiros – Madre proletaria e Nuestra imagen actual – e por um – los bañistas – de Jorge Gonzaléz Camarena. Não os conhecia e já ganhei o dia, com a descoberta destes quadros. Saio da exposição com fome. As barraquinhas da feira estão ali e continua a cheirar a comida, mas não quero meter-me na confusão de gente e, além disso, já passa das seis da tarde e eu quero ainda ir ver a exposição Hergé. Vou até à entrada desta, noutra porta do Grand Palais, não está praticamente ninguém. Dirijo-me à bilheteira e a senhora diz que o documento que tenho (e que tem servido em toda a parte) não serve no Grand Palais. ‘On n’est pas un musée’, diz-me ela, enquanto atrás de si passam os preços dos bilhetes para as várias exposições de arte no palácio, num écran. Explico-lhe que não tenho outro documento e que aquele, justamente, tem servido em toda a parte. Ali não serve. Repito que serve em toda a parte, até no Grand Palais. Acabei de ver, na outra parte, a exposição Mexique e não paguei nada. A mulher faz cara de poucos amigos e eu digo que pronto, deixe lá, diga-me só como posso fazer uma reclamação.
Manda-me para a parte das informações, onde as meninas, bastante mais simpáticas tentam perceber porque é que eu não paguei na outra exposição do Grand Palais, já que aqui as ‘regras’ são diferentes. ‘On n’est pas un musée’ voltam a dizer-me. E, bom, é estranho, uma vez que tanto esta parte como aquela de onde venho se chama Galeries Nationales, mas escrevo a minha reclamação no livro que me dão. Ponha o seu email, porque vão responder-lhe. Acredito mesmo, penso eu, que me escrevam. O que percebi é que eu teria de ter uma carta igual à dos franceses, onde está escrita a percentagem de incapacidade, mas como só tenho uma declaração e e está em portugês (obviamente) não serve. Volto à bilheteira onde a senhora antipática já não está, felizmente. Compro o bilhete para a exposição. Subo ao café e como qualquer coisa, finalmente e vou-me ao autor de Tintin, pensando em toda a classe de improprérios ‘a la Capitão Haddock’ dirigidos aos senhores do Grand Palais. Mas a exposição é tão boa que, mesmo estando agora mais perto dos 77 anos que dos 7, me sinto outra vez a miudinha que esperava que o pai trouxesse, todas as semanas, a Revista Tintim.

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