Memórias submersas


Rita Matos Gomes
©Grete Stern

©Grete Stern

chegou-me à pouco a lembrança, e tomou-me de assalto.
foi talvez pela hora, final de dia, mas chegou pelo cheiro.
era um momento só meu, e de paz total.
tinha todo um ritual preliminar.
primeiro, era o abrir da janela. os adultos insistiam, era primordial.
a seguir, tirava-se de dentro da gaveta do armarinho a caixa dos fósforos.
previamente tinha de vir um dos primos mais velhos, eles só quem detinha o poder e a altura necessária.
então, riscava-se o fósforo, e numa operação demorada tentava-se convencer o velho esquentador teimoso e senil que tinha que acender. muitos fósforos eram necessários .
eu gostava de ficar com esse papel, na ousadia de ficar raspando o pauzinho na caixa, até que ele explodisse numa alegria de chama.
depois, punha-se a tampa metálica e pesada no fundo da banheira de esmalte, com pés de animal em cima de esfera.
a partir daí, mergulhava num mundo líquido e quente que me envolvia e levava para longe.
para trás ficava o dia, comprido e intenso, as aventuras, o prazer enorme de ter os primos para brincar, os cães do avô sempre por perto, brincando connosco.
para a frente esperava-me o jantar, com os primos todos de pijaminha e roupão sentados à mesa. na cabeceira, de costas para a lareira, ficava a avó, que majestosa e severa vigiava as hostes já quebradas pelo cansaço da alegria dos jogos.
mas antes disso tinha aquele momento e era de magia.
com o calor da água notava o ardor dos joelhos esfolados. e mais ainda o dos arranhões feitos pelas silvas, aborrecidas de lhes estarem a roubar as amoras.
gostava de deslizar banheira abaixo, e ficar submersa debaixo da água. abafados e difusos chegavam os sons dos primos que no corredor reclamavam ser sua a vez do banho.
o cabelo boiava, afagando e encocigando-me os ombros ao de leve.
e o cheiro, ahh o cheiro…
era único. mistura de gás, de fósforos queimados e sabonete, numa improvável combinação de resultado extraordinário.
hoje, as férias de verão já não são imensas, os dias já não são enormes, a avó já não está entre nós e passo muito tempo sem ver os meus primos.
não me arranho nas silvas e não subo às figueiras.
mas ainda me lembro do cheiro.

Comments

  1. Nina Santos says:

    Que se passa com o Aventar? E não venham dizer que a culpa é do acordo ortográfico.

Deixar um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s