A mentira dos rankings das escolas

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Fiz há uns anos o meu próprio ranking das escolas. Com critérios geográficos e sócio-económicos, coloquei em primeiro lugar uma escola pública do distrito de Viseu.
Um outro ranking, promovido pela Universidade do Porto, chegava à conclusão de que os melhores alunos da instituição tinham vindo maioritariamente de escolas públicas. Dois exemplos na cidade do Porto separados por menos de um quilómetro: do Colégio do Rosário, transitaram 56 alunos para a Universidade do Porto, mas 3 anos depois, apenas 4 alunos estavam entre os melhores 10% da instituição. Da Escola Secundária Garcia de Orta, mesmo ao lado, entraram na Universidade 114 alunos e, desses, 14 faziam parte dos melhores 10% ao fim de 3 anos.
Mais recentemente, o Ministério da Educação introduziu nos dados indicadores estatísticos, como o perfil sócio-económico, que, mais uma vez, colocavam as escolas públicas nos primeiros lugares.
Comparar escolas públicas e privadas é simplesmente ridículo, porque são realidades completamente diferentes. Da mesma forma que comparar escolas públicas entre si é igualmente ridículo. Porque são também realidades muitas distintas.
É apenas um exemplo. Uma das melhores escolas públicas, a Infanta D. Maria, de Coimbra, está em 35.º lugar no ranking. A escolaridade média dos pais dos seus alunos é de cerca de 15 anos, ou seja, ensino superior. A percentagem de alunos que não precisam de apoios do Estado (Acção Social Escolar) é superior a 90%.
Agora vamos à Escola Secundária de Resende, no distrito de Viseu. Está em 584.º lugar no ranking. Os pais daqueles alunos têm uma escolaridade média de 5 anos, ou seja, pouco mais do que o ensino primário. A percentagem de alunos sem apoios do Estado é de 16%.
Como é que se pode comparar alunos da classe média/média-alta cujos pais são licenciados ou frequentaram a Universidade com alunos maioritariamente pobres cujos pais mal sabem ler? Como é que se pode comparar uma escola que está inserida num concelho cujo poder de compra é de 130 relativamente à média nacional com um outro que não chega aos 60?
A Infanta D. Maria é melhor do que a Escola Secundária de Resende? As coisas não são assim tão simples…

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    A sua intervenção é esclarecedora, independentemente da opinião política de cada um.
    Tenho um filho que estudou numa escola pública após ter concluído o 9.ano no ensino particular confessional.
    Como constatei de facto, o seu desempenho não piorou. Até melhorou bastante, pois deixou de ter quem lhe fizesse a papinha toda. Foi obrigado pelas circunstâncias da sua própria escolha, uma Escola Artística, a aguçar o engenho para atingir os objetivos a que se propôs.
    Os colegas de colégio mantiveram-se a maioria deles no ensino privado. Alguns deles já eram bons alunos, mas nem por isso, mesmo com os pozinhos de perlimpimpim lograram alcançar melhores notas no final.
    Essa conversa dos rankings da escola pública versus escola privada é só para que a direita se deleite com os números que alimentam os seus preconceitos sobre os “piolhosos toxicodependentes” do Público. E para entreter o Nogueira, que anda manifestamente sem assunto.

Trackbacks


  1. […] Por fim, devemos, ainda, olhar para estes números de forma estratégica. Que sentido faz o Estado ser um financiador, em vez de executor? Dirão, talvez, que os privados são mais eficazes, mas acabemos já com esse mito. O objectivo de um negócio privado é a maximização do lucro, objectivo justo, mas que não serve para avaliação da eficácia de um serviço público. Mesmo quanto à eficiência, vejamos o exemplo tão badalado do ranking das escolas para percebermos a falácia. Não podemos comparar resultados quando os pressupostos são diferentes. […]

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