Os alunos podem e devem avaliar os professores

Traz a revista do Público hoje umas coisas interessantes sobre algumas experiências que se fazem nos EUA, nas quais se pretende através de inquéritos complexos que os alunos avaliem os seus professores.

Sei qualquer coizita sobre o assunto de forma muito empírica e pessoal: desde que sou professor que todos os períodos (ou quase  nem sempre há tempo) os meus alunos são convidados a escreverem numa folha de papel o que pensam sobre o meu trabalho, normalmente entregam-no anonimamente e em tempos pedia-lhes que me avaliassem na mesma escala em que o faço.

Guardo religiosamente esses pedaços de papel que muito jeito me deram. Ter um retorno do que fazemos é a única forma que conheço de melhorar o nosso trabalho. Serve a prática para mais do que isso? [Read more…]

Pensar sem palas

Santana Castilho *

1. Eles serão fortes enquanto formos fracos e a indignação for só dalguns. Só pararão quando estivermos secos como os gregos e apenas nos restar o coiro, esbulhado todo o cabelo. Nas últimas semanas, depois do Instituto Nacional de Estatística e do Banco de Portugal terem “descoberto” o que muitos sabiam há anos, a degradação da política expôs-se em crescendo. Dum lado, reclama o PS contra o escândalo da Madeira. Do outro, grita o PSD que a responsabilidade pelo buraco do continente é do PS. Os dois têm razão. Porque os dois são culpados. Os notáveis do costume, alguns deles outorgantes da impunidade que protege a política, emergiram do ruído pedindo leis que sancionem os que gastam o que não está autorizado. Como se o problema fosse da lei, que existe e é ignorada, e não fosse dessa espécie de amnistia perpétua que decretaram. É, assim, fácil prever como terminará o inquérito que o Procurador-Geral da República determinou. O destino dos mesmos é o de sempre: sem o mínimo incómodo, muito menos de consciência, uns, eles, continuarão a dizer aos outros, nós, cada vez mais sufocados, que temos que pagar o que (não) gastámos.

Sobre a Madeira, um notável de Bruxelas mostrou surpresa. Estava em Wroclaw, na Polónia, com todos os ministros das finanças da Europa. Foram para decidir sobre a Grécia, que se afunda e arrastará com ela a Europa e o euro. Não sei quanto gastaram, mas foi muito. Sei que decidiram coisa nenhuma. Sobre a Madeira, outro notável, o presidente da nossa República, disse com ar grave: “Ninguém está imune aos sacrifícios”. Estava nos Açores, onde teve a oportunidade de apreciar o “sorriso das vacas” e verificar que “estavam satisfeitíssimas, olhando para o pasto que começava a ficar verdejante”. Não sei quanto gastou, mas não terá sido pouco. Disse-me Rita Brandão Guerra, deste jornal, que Sua Excelência se fez acompanhar de 30 pessoas, 12 seguranças, dois fotógrafos oficiais, médico e enfermeira pessoais, dois bagageiros e um mordomo inclusos.

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Nuno Crato versus Nuno Arrobas

Santana Castilho *

Ouvi o professor Nuno Crato, no domingo, no programa do professor Marcelo. Sujeito a perguntas indigentes, nada disse. Só falou! Uma excepção: Nuno Crato estabeleceu bem a diferença entre estar no Governo e estar de fora. Quando se está no Governo, disse, “tem de se saber fazer as coisas”; quando se está de fora, esclareceu, apresentam-se “críticas e sugestões, independentemente da oportunidade”. A feliz dicotomia trouxe a luz: arquivemos Nuno Crato, crítico, e ajudemos Nuno Arrobas, ministro, a saber fazer as coisas. Eis sugestões oportunas:

Desista de implodir o ministério, mas discipline-o. Se não sabe o que fazer, contenha-se enquanto aprende. Mas respeite quem trabalha para preparar o próximo ano lectivo. Desleixo, impreparação e descoordenação são qualificativos apropriados para referir a trapalhada dos últimos dias. Ora extinguiram turmas de cursos de Educação e Formação de Adultos, ora as recuperaram. Feito o trabalho com base nas informações de meio de Julho, veio a directora-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular dizer, a 29, que, afinal, a música era outra. E para partitura, puxou de um decreto-lei que respeitava à Saúde ou de outro que já não era. Não demore a explicar esta palhaçada. Se o Nuno, o Arrobas, não souber fazer as coisas, tente o outro, o Crato! Mas faça algo, rápido! [Read more…]

Finalmente uma boa nova para a oposição

O Tribunal Constitucional chumbou a suspensão da avaliação patética e burocrática dos professores.

Agora, se tiverem juízo e forem muito claros sobre o assunto, todos os partidos da oposição têm muito mais de 100 000 votos à disposição.

Uma borla, convenhamos.

PSD ainda não governa e já imita o pior do PS

O PS, vimo-lo nos últimos anos, disse, desdisse, contradisse, meteu os pés pelas mãos, meteu as mãos pelos pés, enrolou a língua, desenrolou-a, perdeu a cabeça, encontrou-a, voltou a perdê-la, etc.

O PSD jurou que não viabilizaria mais nenhum aumento de impostos em 2011 mas admite aumentar o IVA, que já foi um imposto cego (Marco António Costa dixit) e injusto (Pedro Passos Coelho), mas agora já não é. Quanto à avaliação dos professores (não me pronuncio aqui, neste poste, sobre a justeza, ou não, da medida em si), o contorcionismo político atingiu o auge e em vinte e quatro horas o preto passou a branco e vice-versa, para fazer jus ao primeiro parágrafo desta crónica. Eu sei que a situação é grave e estamos em campanha eleitoral, mas é pela amostra que se avalia o produto.

Com isto, relembro duas frases que ouvi nos últimos dias: “Não vão os portugueses perceber que saltando da frigideira correm o risco de cair no lume” disse Jerónimo de Sousa e “Não temos os políticos que merecemos. Temos os políticos que somos” escreveu aqui o José Freitas. Pois é.

Avaliação de professores – a treta das quotas

O problema da chamada avaliação dos professores vai, lentamente, voltando a ser tema de debate e de discórdia, como se pode verificar aqui, aqui e aqui. Quando as pessoas que, em Portugal, se interessam, verdadeiramente, por Educação (uma minoria, digo eu), se aperceberem de que esta é uma questão muito mais do que corporativa, com reflexos terríveis na qualidade do ensino, talvez a Avenida da Liberdade venha a ser pequena para tanto descontentamento.

Entre os muitos disparates contidos neste imbróglio está a manutenção das quotas, erigidas por muitos ignorantes em condição sine qua non para que haja uma efectiva avaliação de mérito. A propósito disso, republico aqui um texto e uma adenda (ambos de Janeiro de 2010): [Read more…]

Querem uma boa avaliação? então vão comprar

Para o anedotário nacional, um acordo entre o Ministério da Educação e os Sindicatos

Imaginem que numa escola apenas existem dois professores que leccionam uma dada disciplina. Imaginem que ambos pretendem atingir um determinado escalão, para o qual haverá uma quota de 30%.

Segundo a proposta ministerial o acordo com os sindicatos, uma vez que ambos os professores necessitam de quem lhes assista a umas aulas, terão de assistir às aulas um do outro. As aulas assistidas, a maior imbecilidade de todo este processo já que qualquer calaceiro prepara 2 ou 3 aulitas à moderna, com uns paurpóins e tudo, mesmo que nas restantes se limite a ditar apontamentos retirados de um manual qualquer, serão uma espécie de intercâmbio: hoje assistes à minha, amanhã vou eu à tua.

Texto parcialmente reciclado do que tinha escrito sobre a proposta ministerial. Esta anedota mantêm-se. Pior do que isso, o processo de avaliação parece-me completamente controlado pelo Diretor da Escola. Ora o modelo de gestão, o regresso do sr. Reitor, foi a pior e mais perigosa herança da ministra anterior, a caminho da privatização / municipalização do ensino público.

Isto não me está a cheirar nada bem, pois não.

Credo, tanto Bom!

A Ministra da Educação afirmou que a inflação de “Bons” na avaliação dos professores deriva da “tradição da atribuição desta nota aos docentes por parte de quem avalia”. Depreende-se daqui que Isabel Alçada sabe que parte dessa avaliação foi mal efectuada. Conclui-se, então, que, por um lado, alguns (Isabel Alçada saberá, com certeza, quantos) desses professores não deveriam ter tido “Bom”, e, por outro, alguns avaliadores não desempenharam o seu papel com competência, pois a tradição não deve ser critério de avaliação.

A assunção destes dados tem de levar a Ministra a reagir, alterando as classificações atribuídas e chamando à pedra os avaliadores incompetentes, nos casos em que isso esteja verificado. Não vejo que se possa fazer de outro modo, uma vez que a atribuição de classificações erradas pode levar a que os professores mal avaliados se sintam dispensados de melhorar as suas práticas, com evidentes prejuízos para os alunos.

Em vez disso, Isabel Alçada aproveita o ensejo para falar… de progressão na carreira, explicando que é por causa desta tradição nefanda que o Ministério quer “distinguir os professores que obtenham Muito Bom e Excelente com uma progressão mais rápida” Perceberam? Não? Eu resumo, então: o problema – grave – de haver um grande número de professores mal avaliados com “Bom” resolve-se fazendo progredir os que tiverem “Muito Bom” ou “Excelente”. E agora? Já perceberam? Eu também não.

Estava a brincar: percebi muito bem. É fácil de perceber, porque a questão é a mesma da anterior porta-voz do governo para a Educação: cercear ao máximo a progressão na carreira. As outras questões menores como a qualidade do ensino ou as condições de trabalho ou a formação contínua e inicial dos professores ficam para os discursos de circunstância ou para os preâmbulos palavrosos dos decretos.

Prevejo que, mais logo, Isabel Alçada apareça com um sorriso sofrido a lamentar a falta de flexibilidade dos sindicatos. Será bom sinal.

Os bons professores

Anda meio mundo espantado porque a ministra revelou os dados da avaliação de professores referentes ao ano passado, e 83%  obtiveram Bom.

No modelo de avaliação anterior a esmagadora maioria era classificada com Satisfaz, até porque as classificações mais elevadas estavam à espera de um regulamento que não foi feito para evitar que quem as obtivesse fosse beneficiado na carreira.

Maria de Lurdes Rodrigues deve estar a autoflagelar-se por ter apenas estabelecido quotas para o Bom e o Muito Bom. Devia tê-las também imposto ao Regular e ao Insuficiente, pensará ela na sua licença sabática pós-ministerial, resolvendo assim a Curva de Gauss.

Para o anedotário nacional, mais um contributo do Ministério da Educação

Imaginem que numa escola apenas existem dois professores que leccionam uma dada disciplina. Imaginem que ambos pretendem atingir um determinado escalão, para o qual haverá uma quota de 30%.

Segundo a proposta ministerial de avaliação os professores, ou pelo menos o que entendi dela, uma vez que ambos os professores necessitam de quem lhes assista a umas aulas, terão de assistir às aulas um do outro. As aulas assistidas, a maior imbecilidade de todo este processo já que qualquer calaceiro prepara 2 ou 3 aulitas à moderna, com uns paurpóins e tudo, mesmo que nas restantes se limite a ditar apontamentos retirados de um manual qualquer, serão uma espécie de intercâmbio: hoje assistes à minha, amanhã vou eu à tua.

Num caso destes (que não é uma raridade, mas a banalidade nas escolas mais pequenas) é suposto que ou chegam a um acordo, ou cada um  tramará o outro, o que até pode dar jeito, sempre se poupam uns tostões nos 30% (que não sei muito bem como se aplicam, já que se for a nível de escola/disciplina apenas 2/3 de um dos professores poderá subir na carreira).

Há mais anedotas destas, mas agora vou cogitar noutra coisa: como serão avaliados os assessores de comunicação que andam numa azáfama doida desde ontem nas caixas de comentários de tudo o que é online. Terão quotas? Os comentários são lidos por um supervisor? É que dado o insucesso que tiveram nos últimos tempos, eu se fosse do governo já os tinha chumbado.

Obviamente, não entregarei os Objectivos Individuais

Na minha escola, ninguém entregou os Objectivos Individuais no ano lectivo anterior. O Conselho Executivo fê-los por todos.

Neste ano, o Director já avisou que não faz Objectivos Individuais. Falta uma semana para o prazo terminar e a sensação que tenho é a de que está tudo a preparar-se para entregar, até porque já estão todos a passá-los de umas pen’s para outras (como é óbvio, vão ser todos iguais). Parece-me que têm, injustificadamente, medo das consequências.

Até agora, só eu é que disse que não entregava.

Como é óbvio, tenho objectivos bem definidos para a minha passagem por aquela escola. Sei o que quero para mim e sei o que quero para os meus alunos. Mas uma coisa é ter objectivos individuais, outra bem diferente é entregar os Objectivos Individuais a que o Ministério nos quer obrigar sem qualquer base legal – a Justiça já se pronunciou sobre o assunto.

Não sou incoerente. Não andei durante dois anos nas greves e nas manifestações para, no final, acabar por fazer o que eles querem que eu faça.

O actual modelo de avaliação não presta. O original não pôde ser implementado. O simplex ainda avalia menos do que no passado. Basta não ter faltas injustificadas e já se tem BOM à partida. Avaliado por colegas que nem por sombras são melhores do que eu?

É esse modelo de avaliação que pretendem? Eu não.

Esta ministra encontrou-se com os sindicatos, a outra encontrava-se consigo própria

Das reuniões de Isabel Alçada com as duas principais organizações sindicais de professores sai para já um facto: tudo se torna mais simples quando existe um mínimo de bom senso.

Não sei se daqui sairá um acordo, um meio acordo, ou uma mera manobra política para ganhar tempo. Sei que da parte do governo não existe vontade política de desfazer o seu principal cavalo de batalha durante quatro anos, mas apenas necessidade de salvar a face perante a iminência de perder na Assembleia da República uma guerra que já tinha perdido na rua.

Mas tem de se registar uma palavra no comunicado da Fenprof:

 

"Já em relação ao futuro modelo de avaliação, houve consenso nos grandes princípios por que se deverá orientar – formativo, com implicação na carreira e relevante para o desenvolvimento profissional dos docentes – faltando agora conhecer quais as propostas que o ME apresenta para a sua concretização."

 

Está sublinhada por mim, a palavrinha consenso. Não dói nada, viram? A sensação que fica é que com a anterior ministra e seus ajudantes nem sobre se estava a chover ou a fazer sol era possível empregar a tal palavra. O que já faz parte daqueles capítulos onde combate político e imbecilidade se misturaram, e que espero não se volte a repetir tão depressa.

Ui… temos manif pela certa

O ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, garante que está fora de questão o Governo suspender a avaliação dos professores.

Já votou

pela suspensão deste modelo de avaliação?

A solução privada

Parece que o imbróglio avaliação de professores pode vir a ter solução votando-se uma proposta do CDS, que aplica o processo adoptado no ensino privado ao ensino público.

Esta metodologia, que foi negociada e acordada com os sindicatos, nada tem de especial, nem miraculoso, apenas a diferença de ter sido negociada; nem resolve questões realmente importantes, como a "existência" de titulares, ou a lei de gestão, que mais não é que o ínicio da privatização do ensino público.

Mas tem a sua graça. É que fica demontrado ter sempre havido outra solução à mão de semear, com a vantagem de ter sido testada. E se for aprovada com a oposição do PS vamos ver os socretinos do costume defendendo o seu modelo contra o do ensino que patrocinaram. Só por isso, já valia a pena.