Volta, 24 de Abril

As evidentes vantagens das empresas públicas de transportes ou Miguel Noronha a suspirar pelo fim do direito à greve.

“”Greve? Eu não, sou dos que trabalha”

direito_greve_sindicalismoDiogo Barros

Ao ler tantos e tantos comentários negativos relativamente a quem faz greve, compreendo que trabalhar com um mínimo de direitos e condições em Portugal é, não só uma realidade que cada vez menos pessoas têm acesso, como uma verdadeira prova de valentia e coragem psicológica. Estas pessoas, além do serviço diário que naturalmente já fazem, são alvo quase que diariamente de uma lavagem cerebral atroz de que aquilo que têm são ‘regalias’ e que ‘há quem esteja disposto a trabalhar ainda por menos’. Eu não consigo imaginar a culpa e a pressão que muitas dessas pessoas devem sentir e acho isso abominável. Uma sociedade de lobos ávidos de sangue.

Ao defender o direito à greve de tanta gente trabalhadora que fala mal da mesma, sinto-me completamente num filme. Num filme cheio de pessoas, infelizmente, miseráveis a defender com unhas e dentes o direito à sua própria miserabilidade. É triste.

Os meus parabéns a todos os trabalhadores com direitos por aí fora. Que não se sintam mal nesta sociedade que cada vez mais lhes aponta o dedo e que façam, mesmo, o oposto: lutem por manter o que têm e, mesmo, por ganharem mais! E obrigado por existirem e serem realmente, o motor do país.

Limitações do direito à greve

Devido às imposições da troica, os portugueses irão manter o direito à greve, desde que o exerçam entre as três e as três e um quarto da manhã, não podendo manifestar-se ruidosamente: no máximo, os grevistas poderão sussurrar palavras de ordem, não sendo permitido empunhar cartazes com mais de um metro quadrado. No caso dos transportes, serão impostos serviços mínimos, para que os utentes dos transportes públicos não sejam incomodados, especialmente quando saem das discotecas. [Read more…]

O fim das greves

Tal como o meu colega aventador Carlos Garcês Osório, nunca fui simpatizante de greves, embora as minhas razões sejam diferentes. A greve é, evidentemente, um acto de violência, uma bomba atómica a ser usada quando aquilo que se diz não é ouvido. Tal como qualquer outro acto em democracia, as greves estão sujeitas às críticas e pode, até, concluir-se que são injustas.

Num mundo mais próximo do ideal, as greves seriam desnecessárias; num país em que os trabalhadores sejam constantemente agredidos, num país em que os direitos sejam constantemente retirados, num país em que tudo os que os trabalhadores dizem é, quotidianamente, ignorado, o que resta aos trabalhadores? O que resta a quem fala e não é ouvido a não ser gritar? Num país em que aumentam impostos, no mesmo país em que os trabalhadores perdem subsídios, em que lhes baixam salários, onde são obrigados a dar mais dias de trabalho por ano, onde a saúde e educação são bombardeadas, entre muitos outros abusos, naquele mesmo país em que os trabalhadores, por todas estas razões, acabam por ser responsabilizados por três décadas de uma incompetência governativa que não tem fim, que se deve esperar que não seja contestação?

Aceito que haja pessoas a criticar os funcionários da CP ou quaisquer outros grevistas. Repugna-me, no entanto, que alguns, como acontece na caixa de comentários do texto do Carlos, manifestem um marialvismo serôdio, ansiando por um regresso aos tempos em que não havia direito à greve ou por uma privatização geral do país para que a matilha de trabalhadores que atrapalha o país amanse, gente que chega a considerar Ronald Reagan um herói. O Carlos ainda propõe que a CP seja vendida à Coreia do Norte, desde que isso acabe com as greves. Terá sido por isso que o governo está em vias de entregar a EDP à China, outra maravilhosa democracia?

Vamos supor que os funcionários da CP abusaram de um direito. Prove-se e aja-se em conformidade. Há quem ande, há anos, a pedir que o mesmo aconteça aos políticos incompetentes que nos prejudicaram e nada acontece. Será que, por isso, deveríamos defender o fim dos governos?

Entretanto, seria interessante reler dois textos: este e este.

Cromo do Dia: Paula Teixeira da Cruz

Paula Teixeira da Cruz, ministra da justiça, referiu hoje que os acontecimentos ocorridos em frente à Assembleia da República fragilizam, note-se, o direito à greve. Não me apetece brincar com isto, nem falar sobre esta gente que fragiliza deliberadamente a democracia e diz a primeira patacoada que lhe vem à cabeça: ficamos a saber, problemas em jogos de futebol fragilizam o direito ao futebol, agressões num matrimónio fragilizam o direito ao matrimónio, pancadaria em comícios do PSD fragilizam o direito do PSD a realizar comícios…direitos

O direito a não fazer greve

 Apedrejamento de camiões na A1 provocou ferimentos numa criança

 

 

Não concebo um mundo sem direito à greve. Também não concebo um mundo sem direito a não fazer greve.

Há gente civilizada que pode ou não fazer greve, sempre dentro do respeito pelas decisões alheias, algo essencial em Democracia.

Há, com certeza, muita gente que sonha com um mundo sem greves e, de preferência sem direitos laborais: uns estão no governo e querem voltar a estar; outros já estiveram e querem voltar a estar. É gente que se aproveita da Democracia para ir exercendo uma ditadura. São trogloditas disfarçados de fato e gravata.

Há gente que ameaça ou apedreja os que optam por não fazer greve. É gente que se aproveita da Democracia para ir exercendo uma ditadura. São trogloditas muito pouco disfarçados.

Os trogloditas lidam mal com a Democracia. Os trogloditas que se afirmam democratas são apenas gregários ou tribais. A individualidade faz-lhes confusão. São uma afronta à Democracia.

Que me seja perdoada a injustiça contida em qualquer generalização.